REUTERS/Max Rossi
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Aliança de Berlusconi lidera, mas não obtém maioria, indica boca de urna

Coalizão de centro-direita não tem votos suficientes para formar governo e o Movimento 5 Estrelas, o partido mais votado, não aceita se aliar a outras legendas; resultado confirma o fortalecimento dos nacionalistas e populistas na Itália

Lourival Sant’Anna, enviado especial / Roma, O Estado de S.Paulo

04 Março 2018 | 19h39
Atualizado 05 Março 2018 | 00h52

ROMA - A aliança de centro-direita venceu as eleições parlamentares na Itália, e deve ser convidada pelo presidente Sergio Mattarella a formar governo. Os resultados da votação de ontem confirmam o fortalecimento dos populistas e dos nacionalistas e o enfraquecimento dos partidos tradicionais, observados também em outros países.

No interior da coalizão, no entanto, houve uma mudança drástica no equilíbrio de forças. A Liga, originária de um partido separatista do norte do país (o Liga Norte), cresceu enormemente, superando a Força Itália, do ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi.

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Pelo acordo entre os quatro partidos da aliança, o que tem mais votos deve indicar o primeiro-ministro. No caso de vitória da Liga, o indicado seria o seu líder, Matteo Salvini. Já Bersluconi teria escolhido o atual presidente do Parlamento, Antonio Trajani.

Individualmente, o partido mais votado nas eleições deste domingo, 4, foi o Movimento 5 Estrelas (M5S), fundado em 2009 pelo comediante Beppe Grillo para se contrapor aos partidos tradicionais. Mas, como tem por princípio não se aliar a outros partidos, o M5S não deverá ser chamado a tentar formar coalizão, a menos que haja uma reviravolta – o que não é nada incomum na política italiana. O presidente tem autonomia para chamar quem quiser para tentar formar governo e obter o voto de confiança no Parlamento. 

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A grande derrotada foi a coalizão de centro-esquerda, atualmente no governo, liderada pelo Partido Democrático (PD). Ao longo dos últimos quatro anos, a coalizão promoveu reformas previdenciária, trabalhista e tributária. Como elas ainda não tiveram impacto muito visível na economia, representaram até aqui apenas perdas de direitos, e os eleitores puniram a centro-esquerda por isso.

As urnas fecharam às 23 horas (19 horas em Brasília), e só nesta segunda-feira se teria um retrato mais preciso da distribuição das cadeiras na Câmara dos Deputados e no Senado. Pela primeira vez a votação incluiu quase um terço das cadeiras de ambas as Casas pelo sistema nominal. O restante continua sendo proporcional (ver reportagem nesta página). Isso tornou as previsões ainda mais difíceis.

De acordo com as projeções feitas até esta madrugada na Itália, no Senado, o M5S teria obtido 32% dos votos, seguido pelo PD, com 19%. Entre os partidos da coalizão de centro-direita, a Liga estava com 18%, a Força Itália com 15%, os Irmãos da Itália (FdI) com 4% e o Nós com a Itália, 1%, somando 38%.

Com isso, a centro-direita ficaria com 127 a 147 das 309 cadeiras do Senado; o M5S, com 95 a 115, e a centro-esquerda, com 50 a 70. O partido social-democrata Livres e Iguais elegeria entre 6 e 8 senadores.

Na Câmara dos Deputados, as projeções também conferiam 32% dos votos ao M5S e 19% ao PD. Entre os partidos da aliança de centro-direita, a Liga teria ficado com 17%, a Força Itália com 14%, o FdI com 4% e o Nós com a Italia com 1%, somando 36%.

Para o Senado só podem votar os maiores de 25 anos, enquanto para a Câmara, votam a partir dos 18.

Assim como o M5S, a Liga retirou de seu programa a convocação de um referendo sobre a saída da Itália da zona do euro. Mas mantém nos seus quadros economistas e políticos hostis à moeda europeia. Uma ascensão da Liga ao governo causaria apreensões no mercado e no continente. Já a indicação de Trajani, que ocupou cargos de comissário da União Europeia antes de se tornar presidente do Parlamento Europeu, representa um alívio.

Berlusconi, que já foi quatro vezes primeiro-ministro, está inelegível até o ano que vem, em razão de uma condenação por fraude. Na quinta-feira, ele indicou Trajani, que aceitou. 

Outros dois partidos menores, o nacionalista Irmãos da Itália e o centrista Nós com a Itália/UDC, fazem parte da coalizão de centro-direita. Somados os votos dos quatro, a aliança teria entre 33% e 36% dos votos. O M5S ficaria com 29,5% a 32,5%. Em terceiro lugar, viria a aliança de centro-esquerda, com 24,5% a 27,5% dos votos. 

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Chegou-se a especular a possibilidade de o M5S se aliar à Liga ou mesmo ao PD, o que representaria uma virada de mesa. Mas tanto representantes da Liga quanto do PD descartaram essa possibilidade. “Somos uma alternativa ao M5S”, declarou Ettore Rosato, líder do PD na Câmara. “Se esses resultados se confirmarem, vamos para a oposição.” Salvini também já havia negado uma aliança com o movimento.

Em todo caso, o resultado é uma derrota para os partidos tradicionais. Cada um à sua maneira, a Liga e o M5S representam uma ruptura com eles. O próprio Berlusconi, embora tenha governado a Itália quatro vezes, procurou na campanha realçar suas credenciais de empresário, e prometeu trazer para o governo gestores da iniciativa privada.

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