Pesquisa mostra vitória separatista em Montenegro

Mais uma vez, a estabilidade dos Bálcãs estará em jogo este ano. E será justamente neste domingo, quando os eleitores da República de Montenegro - que, ao lado da Sérvia, forma a atual República Federal da Iugoslávia - irão às urnas escolher seus novos parlamentares. Estas eleições são decisivas para o futuro do país e da região. Embora a população montenegrina (cerca de 600 mil habitantes) esteja dividida em relação a uma possível secessão da Iugoslávia, as pesquisas de opinião indicam que o bloco de partidos pró-independentistas, liderado pelo presidente, Milo Djukanovic, tem a preferência do eleitorado. Uma eventual vitória do bloco levará a um plebiscito sobre a independência, já programado para o início do verão europeu. Caso os montenegrinos optem por deixar a Iugoslávia, os desdobramentos desta escolha logo se farão sentir na província sérvia de Kosovo, que também clama pela independência em relação a Belgrado. O resultado poderia ser outra guerra. Ou, na melhor das hipóteses, uma renegociação do status de Kosovo dentro da República Federal da Iugoslávia. O cenário que pode surgir a partir das eleições em Montenegro mostra o quanto é delicado o equilíbrio dos Bálcãs. Também revela como a política defendida na região pelas potências ocidentais pode ser traiçoeira, à medida que a paisagem política muda. Se o líder montenegrino recebia, até há pouco tempo, o apoio da comunidade internacional em seu esforço de afastar-se da Iugoslávia de Slobodan Milosevic, com a saída do ex-presidente iugoslavo os governos ocidentais começam a tomar distância de Djukanovic. A eleição de Vojislav Kostunica para o lugar de Milosevic mudou completamente o jogo. A comunidade internacional o apóia e, como tal, não pode mais fomentar um movimento contrário ao governo central iugoslavo. Algo parecido acontece na Província de Kosovo. Os kosovares albaneses nacionalistas, que querem a independência a qualquer custo, não escondem seu descontentamento com a eleição de Kostunica. Em 1999, Milosevic estava no poder e os bombardeios da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) sobre Belgrado e Kosovo, concebidos para obrigar o então presidente a respeitar a maioria albanesa da província, acabaram por fomentar o anseio por independência. Hoje, os nacionalistas não contam mais com o "inimigo histórico", que certamente funcionava para eles como um trunfo político. O governo de Belgrado passou a ser representado por um presidente democraticamente eleito, internacionalmente reconhecido e apoiado. Um presidente que já declarou ser totalmente contra a independência da província. E que até admite negociar com o líder moderado Ibrahim Rugova, fundador da Liga Democrática de Kosovo, vitoriosa nas eleições parlamentares de outubro. Mas que antes, exige segurança para a volta dos cerca de 200 mil refugiados (sérvios e de outras etnias) que abandonaram Kosovo em virtude da perseguição movida pelos albaneses, crescente depois dos bombardeios da Otan. Em Kosovo, mais uma vez a política dos países ocidentais na era Milosevic se mostrou traiçoeira. O antigo apoio logístico recebido dos EUA pelo Exército de Libertação de Kosovo (ELK) acabou por dar confiança a este grupo armado. Em março, os rebeldes albaneses expandiram seu raio de ação para a vizinha Macedônia, país que abriga uma minoria albanesa e a única república a separar-se da Iugoslávia sem conflitos. Desta vez, porém, a expectativa de outra guerra na região foi desfeita graças à União Européia - que, com o apoio das autoridades locais, habilmente colocou o governo macedônio e representantes da minoria albanesa à mesa de negociações. No entanto, a tensão étnica foi alimentada e o temor dos macedônios em relação a uma eventual independência de Kosovo também cresceu. Em Sarajevo, capital da Bósnia-Herzegovina, a eleição de Kostunica não foi saudada de forma tão calorosa quanto nas demais capitais européias. Considerado nacionalista pela população bósnia, o novo presidente é contrário ao julgamento de Milosevic em Haia e, desde que assumiu o governo, vem estreitando as relações da Iugoslávia com a República Srpska (entidade sérvo-bósnia que, ao lado da Federação Muçulmano-Croata, forma a Bósnia). Esta aproximação e a recusa em enviar Milosevic ao Tribunal Penal Internacional para a antiga Iugoslávia (TPI) são vistos com maus olhos pelos bósnios. Apesar dos obstáculos em torno do julgamento do ex-presidente iugoslavo, sua prisão já está ameaçando a liberdade do ex-líder servo-bósnio Radovan Karadzic, responsável por muitas das atrocidades cometidas na guerra da Bósnia e indiciado pelo mesmo tribunal. Caso ele e Milosevic não sejam enviados a Haia, seus fantasmas deverão continuar rondando na Bósnia. A polêmica em torno do julgamento do ex-presidente também divide a comunidade internacional. Por um lado, a procuradora-chefe do TPI, Carla Del Ponte, afirma que, ao permanecer em Belgrado, o ex-presidente representa um "perigo para a Iugoslávia" e o país "não pode mais ser seu refém". Por outro lado, a União Européia defende que ele seja julgado primeiramente na capital iugoslava. Para além desta questão, o sucesso da chamada "Revolução de Outubro", que obrigou Milosevic a aceitar sua derrota nas eleições, depende em grande parte de uma efetiva melhora no padrão de vida dos iugoslavos. Vítimas de uma situação econômica que se deteriorou cada vez mais nos últimos anos, em virtude das sanções impostas pelos países ocidentais e dos gastos com as sucessivas guerras travadas nos anos 90, eles exigem mudanças efetivas e rápidas. Se elas não vierem, a coalizão que elegeu Kostunica pode despedaçar-se, dando margem para o ressurgimento dos líderes nacionalistas ligados ao ex-presidente.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.