Pesquisa prova ligação entre corrupção e pobreza

Países tidos como os mais corruptos no mundo estão também entre os mais pobres, confirmou uma pesquisa anual sobre como a comunidade de negócios percebe a corrupção. O Índice 2002 de Percepção da Corrupção da organização não governamental Transparência Internacional (TI) mostrou que a imagem do Brasil em relação ao grau de corrupção existente no País permaneceu inalterada este ano, se comparada com a de 2001, mas ainda assim aparece entre os 60 países menos transparentes do mundo Segundo o relatório, os países industrializados apresentam o ambiente de negócios mais "limpo", liderado pela Finlândia, Dinamarca e Nova Zelândia. Aqueles países vistos como os lugares mais corruptos para a realização de negócios, como Bangladesh e Nigéria no fim da lista, são também os que detêm o maior índice de pobreza. Ranking O ranking classifica os países de acordo com uma pontuação entre um, o mais corrupto, e dez, o menos corrupto. A Finlândia é o país menos corrupto do planeta, com nota 9,7, seguido da Dinamarca (9,5), Nova Zelândia (9,5), Islândia (9,4), Cingapura (9,3), Suécia (9,3) e Canadá (9,0). O Brasil aparece na 45ª colocação, mesmo patamar da Bulgária, Jamaica, Peru e Polônia. Entre os países mais corruptos estão Bangladesh (1,2), Nigéria (1,6) e Paraguai (1,7). O ranking fornece alguma evidência para aqueles que vêem uma ligação entre a corrupção e a pobreza. O Chile, por exemplo, tem lidado com a atual sucessão de crises financeiras e econômicas da América do Sul muito melhor do que os vizinhos. O país recebeu a pontuação de 7,5, ficando em 17º lugar, exatamente entre os Estados Unidos e a Alemanha. O próximo país com melhor desempenho na América do Sul é o Uruguai, com 5,1 pontos, em 32º lugar, seguido pelo Brasil e Peru, ambos com classificação de 4 e colocados em 45º lugar. Inescrupulosos "Elites políticas corruptas nos países em desenvolvimento, que trabalham de mãos dadas com homens de negócios e investidores inescrupulosos, colocam os lucros privados antes do bem-estar dos cidadãos e do desenvolvimento de seus países", disse Peter Eigen, presidente do conselho da ong. De forma crescente, especialistas em desenvolvimento estão encarando a corrupção como um dos principais obstáculos para a capacidade de uma nação atrair investimentos estrangeiros necessários para a criação de empregos e redução da pobreza. Autoridades do governo dos Estados Unidos, incluindo o secretário de Estado Colin Powell e o secretário do Tesouro Paul O´Neill, têm prometido tornar a boa governança uma condição para desembolsos a programas de desenvolvimento. Em mais de uma ocasião, os comentários de O´Neill têm embaraçado líderes de governos de países estrangeiros. Botswana, na África, um dos poucos países emergentes com grau de investimento para a dívida soberana, conseguiu 6,4 pontos, em 24º lugar, entre a Irlanda e a França. Em contraste, Angola e Madagascar uniram-se ao Paraguai com 1,7 ponto, colocados em 98º, em um total de 102 países pesquisados. Informação O índice da TI, publicado desde 1995, combina informação de 15 diferentes estudos sobre corrupção conduzidos por outras organizações, incluindo o Banco Mundial, a PricewaterhouseCoopers e a Gallup International. O estudo intenta medir as mudança na percepção do público sobre a corrupção, que frequentemente muda rápido, mais do que aferir os níveis fundamentais de corrupção que evolui lentamente. A Argentina, em meio a uma crise econômica severa, que revelou a fraqueza do sistema do país, viu a pontuação despencar. A Irlanda e a Moldova também registraram quedas que não podem ser explicadas por fatores técnicos, disse a TI. As melhoras significativas foram registradas por Hong Kong, Eslovênia, Coréia do Sul, República Dominicana e Rússia. Os Estados Unidos ficaram estáveis, apesar dos recentes escândalos corporativos. Limpeza do Judiciário Eigen disse que embora os governos frequentemente protestem contra as classificações no ranking da TI, a pesquisa pode estimulá-los a adotar medidas para reduzir a corrupção, particularmente na "limpeza" do sistema judiciário. Aferições sobre a corrupção como essa podem também ajudar as instituições internacionais a direcionarem melhor o dinheiro gasto no combate à corrupção, disse. O Banco Mundial e os governos desperdiçaram bilhões de dólares tentando reduzir a corrupção, disse Eigen. Uma grande soma de dinheiro têm sido gasta em conferências, que pregam as mesmas mensagens para as mesmas pessoas, afirmou. "Vamos parar de falar muito e aplicar o dinheiro de maneira útil, particularmente na área de cumprimento das leis", disse Eigen. "Vamos gastar o dinheiro ajudando esses governantes a treinar os juízes e promotores, e criar bancos de dados eletrônicos compartilhados e arquivos judiciais. Porque se você não tiver um judiciário honesto e independente, você não terá um programa anticorrupção". Brasil A imagem do Brasil em relação ao grau de corrupção existente no País permaneceu inalterada este ano, se comparada com a de 2001, mas ainda assim aparece entre os 60 países menos transparentes do mundo, segundo a Transparência Internacional. O relatório mostra nota 4 para o Brasil, repetindo a de 2001, mas maior à obtida em 2000, quando recebeu nota 3,9. O grau de corrupção relativamente elevado com que o Brasil é percebido internacionalmente é compatível com a avaliação da opinião pública brasileira. Pesquisa feita em 2001 pelo Ibope para a Transparência Brasil e o Instituto Paulo Montenegro mostra que 51% das pessoas acreditavam que a corrupção no plano federal havia aumentado muito ou simplesmente aumentados nos dois anos anteriores. Apenas 7% responderam que ela havia diminuído bastante ou pouco e 34% que não se alterara. O desprezo dos candidatos De acordo com a Transparência Brasil, os candidatos à Presidência da República e aos cargos executivos nos Estados nas eleições deste ano têm mostrado um aparente desprezo ou pouco caso a esse quadro da corrupção no País e não apresentaram, pelo menos até agora, propostas concretas para combatê-la. Na América Latina, o Chile aparece como o país menos corrupto, com nota 7,5, seguido do Uruguai (5,1), Trinida & Tobago (4,9), Costa Rica (4,5), Peru (4) e Brasil (4). O mais corrupto é o Paraguai, com nota 1,7. Entram no índice da ong países que tenham sido objeto de ao menos três levantamentos. No caso do Brasil, segundo a TI, foram dez, provenientes de seis instituições diferentes.

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