Papeis do arquivo da Stasi remontados pelos arquivistas em Berlim Mustafah Abdulaziz/The New York Times
Papeis do arquivo da Stasi remontados pelos arquivistas em Berlim Mustafah Abdulaziz/The New York Times

Pesquisadores colam documentos rasgados para remontar história da Stasi

Pedaços de papéis, que deveriam ter sido destruídos pela República Democrática Alemã, estão amontoados em milhares de sacos

Annalisa Quinn, The New York Times, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2021 | 20h00

BERLIM - Primeiro, os pesquisadores cortam os sacos longitudinalmente, com cuidado para não mexer no emaranhado de papel rasgado dentro. Em seguida, vasculham os sacos, retirando restos de comida, lixo ou qualquer outra coisa misturada durante a correria na destruição das evidências.

O trabalho é remontar, um a um, cerca de 40 milhões a 55 milhões de pedaços de papel que foram rasgados e enfiados em sacos pela polícia secreta da Alemanha Oriental nos últimos dias da República Democrática Alemã.

Quando manifestantes pró-democracia invadiram as instalações da polícia secreta em 1989 e 1990, encontraram policiais rasgando e picotando documentos com as mãos. O Ministério da Segurança do Estado, conhecido como Stasi, tentava desesperadamente destruir os registros de vigilância que havia coletado ao longo de quatro décadas de espionagem de seus próprios cidadãos.

Muito do material era irrecuperável. Mas alguns sacos continham registros rasgados, que deveriam ter sido destruídos posteriormente, o que foi impedido por ativistas na Alemanha Oriental.

Nos 30 anos desde então, os solucionadores de quebra-cabeças têm trabalhado para reconstruir os documentos rasgados à mão, classificando e combinando fragmentos de papel por cor e caligrafia, antes de colá-los e enviá-los aos arquivos. Na maior parte desse tempo, esses eram funcionários da Agência de Registros da Stasi, formada em 1991, embora os arquivos tenham recentemente ficado sob a autoridade dos Arquivos Federais Alemães.

O historiador Timothy Garton Ash descreveu o processo como um exercício "extraordinário", mas, segundo alguns, "um pouco louco". O conteúdo de cerca de 500 sacos já foi reconstruído, faltando 15.500.

O princípio central do arquivo é "ajudar as pessoas a entender como a Stasi interferiu em suas vidas", disse Dagmar Hovestädt, chefe de pesquisa do Arquivo de Registros da Stasi. Desde 1992, os pesquisadores oferecem aos ex-cidadãos da Alemanha Oriental a oportunidade de ver seus arquivos pessoais da Stasi, algo complicado porque muitas vezes revela que familiares, amigos ou vizinhos relataram suas atividades à Stasi.

"Você vê que eles estão inseguros. Devo fazer isso? Devo saber?", disse Siad Akkam, que recepciona os solicitantes de arquivos.

Muitas das pessoas que pegam o formulário de solicitação são filhos ou netos das vítimas, na esperança de convencer seus parentes a descobrir a verdade.

Uma equipe rotativa de cerca de oito pessoas trabalha no prédio que antes abrigava a sede da Stasi e o escritório de Erich Mielke, o notório líder da polícia secreta. Outros trabalham nos antigos centros regionais da Stasi.

Primeiro, os trabalhadores analisam o conteúdo, procurando nomes precedidos pelas letras "IM", que indica um informante. Qualquer coisa relacionada à vigilância da Stasi sobre seus próprios cidadãos é priorizada.

Os pesquisadores fazem de tudo para preservar as sobras. Se os restos estiverem muito partidos, eles às vezes tentam reconstruí-los com uma máquina chamada ePuzzler, o que nem sempre funciona dado o seu volume.

As equipes põem as sobras que podem ser reconstruídas à mão em uma mesa, juntando-as com fita. De lá, os documentos concluídos vão para os arquivos da Stasi. Ninguém citado nos arquivos é notificado - a filosofia do grupo é que a escolha deve ser da vítima.

As informações sobre informantes e oficiais da Stasi são outra história: não são consideradas privadas, portanto, jornalistas e pesquisadores podem acessar. Na década de 1990, revelar que alguém fora informante arruinou tantas carreiras e casamentos que a revista Der Spiegel criou o apelido "arquivos de terror".

Petra Riemann ouviu pela primeira vez sobre a vida dupla de seu pai em uma reportagem. Lutz Riemann era um ator da Alemanha Oriental conhecido por interpretar um policial de TV. Mas, de acordo com arquivos vistos pelo jornal Welt am Sonntag em 2013, ele também havia sido um informante, mantendo o controle sobre familiares e amigos.

A filha sabia que ele às vezes trabalhava com o braço de inteligência estrangeira da Stasi, mas o imaginava como um James Bond, disse ela - não alguém que usava jantares íntimos e festas de aniversário para reunir informações sobre pessoas próximas. "Ele usou nossa família para obter a confiança de suas vítimas", disse ela.

Até agora, os documentos reconstruídos incluíram informações sobre dissidentes como o falecido escritor e político Jürgen Fuchs, que a Stasi prendeu antes de sua deportação para o Ocidente. Outros documentos jogam luz sobre as práticas de doping de atletas na Alemanha Oriental e as atividades da Facção do Exército Vermelho, grupo terrorista de extrema esquerda da Alemanha Ocidental.

Ruth Zimmermann, que trabalha na reconstrução, disse que o projeto é um exercício do conceito alemão de "Aufarbeitung": palavra que significa trabalhar as injustiças do passado.

O arquivo da Stasi, no entanto, só registra vigilância doméstica. Os arquivos do braço de inteligência estrangeira da Stasi foram quase todos destruídos, o que significa que informantes na Alemanha Ocidental não foram submetidos ao mesmo tipo de exposição.

Essa assimetria pode levar a um sentimento, segundo Garton Ash, que este projeto representa uma espécie de "justiça do vencedor", do Ocidente sobre o Oriente.

No ritmo atual de cerca de 20 sacos por ano, o projeto demoraria séculos para ser concluído. Os pesquisadores afirmam que mesmo algumas pessoas que preenchem formulários de solicitação nunca voltam. Mas isso está de acordo com as diretrizes do projeto: você tem o direito de identificar e confrontar aqueles que o traíram, disse Hovestädt. "[Mas] Você também tem o direito de não saber".

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