Alex Brandon/AP
Alex Brandon/AP

Pesquisas subestimam Donald Trump novamente

Resultados apurados em Estados contrariam projeções que indicavam vantagem de Biden

Daniel Bramatti, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2020 | 02h42

A noite de terça-feira começou com jeito de 2016, com Donald Trump contrariando pesquisas de véspera e projeções de especialistas. O populoso Estado da Flórida foi a primeira decepção para os eleitores de Joe Biden, que esperavam ter lá uma vitória definidora logo no início da apuração nacional.

As pesquisas mais recentes davam, em média, vantagem de cerca de três pontos porcentuais para o candidato democrata na Flórida. Mas desde o começo da contagem dos votos havia indícios de que esse resultado não se concretizaria. Biden teve no distrito eleitoral de Miami-Dade, o maior do Estado, desempenho inferior ao da candidata Hillary Clinton há quatro anos, enquanto Trump manteve seus redutos.

No início da madrugada, os resultados oficiais da Flórida mostravam o inverso das projeções baseadas em pesquisas: Trump com três pontos na frente, em vez de três pontos atrás.

O resultado contrariou não apenas as expectativas dos democratas. O modelo estatístico de previsão da revista The Economist, por exemplo, indicava 80% de chances de uma vitória de Biden na Flórida.

Vencer na Flórida era importante para os democratas porque isso praticamente definiria a eleição. Mas o mesmo não era verdade para Trump: mesmo ganhando lá, ele ainda precisaria surpreender em outros Estados para repetir a zebra de 2016.

Por volta da meia-noite, o Estadão atualizou os dados de seu agregador de pesquisas, que na tarde da eleição apontava Biden como favorito: de cada 100 eleições simuladas, o candidato democrata vencia 80.

Na atualização, em 26 Estados os números das pesquisas foram substituídos por dados de projeção de vitória, já com base nos resultados da apuração. A Flórida, por exemplo, saiu da situação de indefinição, com leve vantagem para Biden nas pesquisas, para vitória de Trump. Ainda assim, o panorama não mudou muito: nas simulações, Biden ainda vencia 78 em cada 100 eleições.

A questão é que apenas 26 Estados foram atualizados – nos restantes 24, foram mantidos os números das pesquisas mais recentes. Se o mundo real mostrava Trump com performance superior à das pesquisas, o grau de incerteza em relação à projeção aumentava.

O agregador de pesquisas do Estadão era acompanhado de um texto que destacava: “Ao simular as chances de cada candidato com base em pesquisas recentes, este agregador reflete o presente, e não projeta o futuro. Pode haver mudanças de tendência na véspera ou no dia da eleição. Um fator externo como um desastre natural em um Estado-chave pode definir a eleição. Outra variável que pode não estar sendo captada pelas pesquisas é o chamado ‘voto envergonhado’. Em 2016, parte dos eleitores ouvidos pelos institutos não admitia que votaria em Trump. O resultado final é também influenciado pela participação efetiva, já que o voto é opcional”.

Outros dois Estados em que as pesquisas indicavam leve vantagem para Biden e que acabaram se inclinando para Trump na apuração foram Georgia e Carolina do Norte.

O jornal New York Times, com base em dados parciais da apuração, projetava que o atual presidente provavelmente venceria nos dois locais, com margem apertada – menos de dois pontos porcentuais.

No Texas, outro Estado populoso e importante no colégio eleitoral americano, os resultados confirmaram as pesquisas recentes, que davam leve vantagem para Trump. O Estado é tradicionalmente republicano – apesar disso, os democratas ainda sonhavam com uma vitória lá, apostando em mudanças demográficas que elevaram o número de eleitores jovens e de perfil urbano.

Com as prováveis derrotas em Flórida, Georgia, Carolina do Norte e Texas, as esperanças de Biden se concentraram ainda mais em Estados como Arizona e Pensilvânia, onde a apuração não estava avançada a ponto de permitir projeções.

Previsões falharam em 2016

Em 2016, das 20 maiores empresas de pesquisas dos Estados Unidos, incluindo redes de TV e jornais, apenas uma apontou uma vantagem consistente de Donald Trump.

A candidata democrata, Hillary Clinton, foi apontada como favorita em praticamente todas as projeções, mas Trump ganhou em Estados decisivos, como a Flórida, que havia dado a vitória a Barack Obama nas duas eleições anteriores a essa.

Há quatro anos, o republicano também venceu em Estados como Wisconsin e Pensilvânia, que tinham pesquisas equilibradas.

De acordo com analistas, um dos problemas das pesquisas na época foi que as sondagens não captaram os eleitores de Trump, que preferiam não declarar o voto no republicano. Outra questão foi que a participação de pessoas brancas das zonas rurais dos EUA foi maior do que a de eleições passadas, enquanto a de jovens e negros caiu.

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