Pessimismo marca mediação da Unasul

Oposição não crê que entidade possa mudar práticas do governo de Maduro, que mantém desconfiança em relação a rivais políticos

DENISE CHRISPIM MARIN , ENVIADA ESPECIAL / CARACAS, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2014 | 02h07

Numa reunião de mais de três horas com os chanceleres da União de Nações Sul-Americanas (Unasul), dirigentes da frente oposicionista Mesa da Unidade Democrática (MUD) denunciaram o que qualificam de violações de diretos humanos na Venezuela e expuseram um quadro de deterioração das instituições democráticas e de crise econômica.

Os opositores, porém, saíram do encontro pouco otimistas em relação a ver a Unasul influenciar mudanças de orientação no governo de Nicolás Maduro, que voltou ontem a dar sinais de resistência a um diálogo com a oposição.

"Para me sentar com a MUD eu preciso de um escrivão que escreva tudo o que eles dizem", afirmou Maduro.

Os chanceleres concluíram ontem as rodadas de conversas com o governo e os setores oposicionistas. Receberam representantes de organizações de direitos humanos, de movimentos estudantis, da Igreja e de outras religiões. A série de reuniões começou e foi encerrada em encontros com Maduro.

Da MUD, cada chanceler recebeu um documento atualizado sobre as ações do governo que, segundo a oposição, são contrárias à democracia e aos direitos humanos. Também foram dados detalhes sobre supostos casos de tortura e detenção arbitrária de manifestantes contra o governo.

Os casos da prisão do líder do partido Vontade Popular (VP), Leopoldo López, e de dois prefeitos foram detalhados, assim como a cassação do mandato da deputada María Corina Machado e as ameaças de encarceramento contra ela e outros dirigentes do VP.

O secretário-geral da MUD, Ramón Guillermo Aveledo, relatou ter dito aos chanceleres que o governo de Maduro gostaria que a oposição não existisse.

O prefeito de Caracas, Antonio Ledezma, afirmou ao Estado que o encontro com os chanceleres do qual participou tinha sido "muito útil" - por dar à oposição venezuelana a oportunidade de apresentar seu ponto de vista. "Aproveitamos muito", afirmou, para acrescentar que não tem convicção de que a Unasul venha a provocar uma mudança substancial da orientação do governo de Maduro ou promover o diálogo entre os dois lados.

Ledezma insistiu que, como parte do Mercosul e da Unasul, a Venezuela teria por obrigação cumprir as respectivas cláusulas democráticas.

A da Unasul entrou em vigor na semana passada. "Temos vocação integracionista não apenas na área econômico-comercial, mas também na política", disse.

Ao mesmo tempo, governo e oposição promoveram marchas que levaram multidões por pontos diferentes da capital venezuelana. Em meio à manifestação governista, Maduro defendeu "penas severas" para três brigadeiros detidos sob acusação de tramarem um golpe. O protesto lembrava 20 anos da libertação de Hugo Chávez, após tentativa de golpe, em 1992.

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