Pessimismo marca reunião com Teerã

Irã faz novas exigências para aceitar a suspensão de seu programa de enriquecimento de urânio, como o fim das sanções internacionais

MOSCOU, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2012 | 03h07

O tenso primeiro dia de conversações entre o Irã e seis potências mundiais não trouxe nenhum progresso até ontem à noite, deixando poucas esperanças de que as negociações desfarão o impasse sobre as ambições nucleares de Teerã. O Irã disse que sustará o enriquecimento de urânio a um teor de 20% em troca de uma forte mensagem política: o reconhecimento da comunidade internacional de que ele tem o direito de enriquecer urânio.

Ele também espera a retirada das duras sanções impostas pela União Europeia e os EUA previstas para entrar em vigor nas próximas semanas, que isolarão ainda mais Teerã dos mercados mundiais bancário e petrolífero. Mas ele não recebeu nenhuma garantia do grupo P5+1 (cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, EUA, Rússia, China, França e Grã-Bretanha, mais a Alemanha).

Catherine Ashton, chefe da diplomacia da UE e principal negociadora com o Irã, descreveu as conversações de ontem como "intensas e duras". Numa sessão realizada à tarde, negociadores iranianos rejeitaram os benefícios oferecidos pelo P5+1 no mês passado, que incluem o fornecimento de combustível para um reator nuclear iraniano e a promessa de alívio nas sanções em troca da entrada em vigor de medidas iranianas específicas ao longo do tempo.

"Eles responderam a nosso pacote de propostas da reunião de Bagdá, mas, com isso, trouxeram muitas perguntas e posições bem conhecidas", disse o porta-voz de Ashton, Michael Mann. Ele disse que os dois lados "concordaram em refletir durante a noite" e reunir-se novamente hoje antes de declarar o encerramento das conversações de Moscou.

As conversações pareciam complicadas no começo do dia, quando um diplomata iraniano descreveu a atmosfera como "não positiva" e disse que o lado iraniano poderia até encerrar sua participação ontem mesmo, um dia antes do esperado.

A avaliação iraniana distendeu um pouco a tensão à noite, quando Ali Bagheri, vice-chefe do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, disse que a discussão tinha sido "muito séria e construtiva".

Risco de guerra. Uma ruptura nas negociações aumentaria o risco de uma nova guerra no Oriente Médio, após meses de tensão sobre se Israel vai realizar ou não um ataque militar contra o programa nuclear de Teerã. O Irã atualmente está violando as resoluções do Conselho de Segurança que pedem que ele suspenda o enriquecimento de urânio e não conseguiu aplacar o temor de que seu programa nuclear pretenda construir uma bomba, acusação que rejeita.

"Precisamos nos lembrar do que estamos fazendo aqui", disse uma autoridade ocidental pouco após o início das negociações, falando na condição de anonimato em razão da delicadeza nas conversações.

"O empenho da comunidade internacional é para impedir que o Irã obtenha uma arma nuclear. É disso fundamentalmente que se trata." A mídia iraniana retratou as conversações em Moscou sob uma luz pouco favorável, e a agência de notícias Fars, reportou que elas demonstraram que as potências ocidentais não estavam interessadas em chegar a uma solução abrangente. Sem se referir diretamente às negociações, o líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, fez um discurso fustigando os inimigos do Irã, dizendo que sua "injustificada arrogância não levará a parte alguma".

As conversações já pareciam fragilizadas quando os dois lados se reuniram em Bagdá no mês passado e a autoridade ocidental disse que houve um terreno comum apenas suficiente para merecer uma nova reunião. Os iranianos responderam com irritação à notícia de que as seis potências não haviam melhorado o pacote de benefícios proposto, que tinha sido posto à mesa em Bagdá e ficou aquém do que Teerã espera receber. "O lado iraniano tem a impressão de que os mediadores internacionais desperdiçaram o tempo em Bagdá", disse um negociador iraniano. Do ponto de vista do Irã, afirmou o negociador, o outro lado "afastou-se dos acordos que alcançados em Bagdá".

As duras sanções impostas pelo Ocidente, que devem entrar em vigor em breve, devem impedir o Irã de exportar 1,5 milhão de barris de petróleo por dia, reduzindo sua receita em US$ 4,5 bilhões mensais. O valor do rial, a moeda iraniana, já caiu 50% nos últimos 10 meses e a inflação dos produtos alimentícios superou 40%, segundo Cliff Kupchan, um ex-diplomata americano e diretor do Eurasia Group, uma empresa de consultoria política. / NYT

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