Miguel Gutierrez/EFE
Miguel Gutierrez/EFE

Petroleiros se dirigem para o Caribe, e os crescentes vínculos entre Irã e Venezuela preocupam EUA

Na exibição mais aberta do aprofundamento dessa relação, cinco petroleiros cruzam o Atlântico com o que os analistas calculam ser cerca de 60 milhões de galões de gasolina iraniana adquiridos com ouro venezuelano

Anthony Faiola, Missy Ryan, Erin Cunningham / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2020 | 03h00

Venezuela e Irã, adversários dos EUA, atingidos por sanções e tumultuados pelo coronavírus, estão montando uma parceria estratégica mais forte para proporcionar ao presidente Nicolás Maduro uma ajuda vital e oferecer a Teerã a perspectiva de um centro de influência do outro lado do Caribe, em frente à Flórida.

Na exibição mais aberta do aprofundamento dessa relação, cinco petroleiros neste momento cruzam o Oceano Atlântico, transportando o que os analistas calculam ser cerca de 60 milhões de galões de gasolina iraniana, que, segundo afirmam, teriam sido adquiridos com ouro venezuelano.

O Irã desmente essa afirmação. O primeiro dos navios deverá entrar em águas venezuelanas neste fim de semana, e aliviará uma escassez de combustível tão dramática que os doentes não podem ir aos hospitais e a produção agrícola apodrece nas fazendas.

“São dois países rebeldes que descobriram que podem trocar coisas de que necessitam por coisas que eles têm”, disse Elliott Abrams, representante especial dos EUA para Venezuela.

As sanções americanas ao Irã atingem todos os países que compram ou facilitam a compra de derivados de petróleo daquela nação, no entanto, a petrolífera venezuelana já sofre tais sanções. O governo Trump também invocou a Doutrina Monroe – política do século 19 que rejeita a intervenção externa no Hemisfério Ocidental – para agir contra entidades estrangeiras que fazem negócios com Maduro.

Os iranianos estão alertando contra qualquer esforço dos EUA para tomar ou bloquear os petroleiros, e os venezuelanos prometem enviar navios de guerra para escoltar o comboio em suas águas territoriais.

Para Entender

Venezuela: conheça os 6 generais que mantêm Maduro no poder

Mesmo com a pressão internacional e os protestos dentro do país, Nicolás Maduro continua no poder principalmente graças ao militares fieis ao chavismo

Washington respondeu dando o alarme a respeito do crescente envolvimento do Irã na Venezuela. Funcionários americanos afirmam que estão monitorando o comboio, mas atenuam as ameaças de um envolvimento direto.

A viagem está testando a disposição do governo Trump a acabar com um relacionamento nascente entre duas nações que considera inimigas. “Na minha opinião, os iranianos estão prontos a usar os seus petroleiros para desafiar” os Estados Unidos, segundo Evan Ellis, professor de Estudos Latino-Americanos no Army War College dos EUA.

Para o Irã, a exportação de petróleo aos seus aliados se tornou mais difícil. Em agosto, as autoridades de Gibraltar, respaldadas por forças britânicas, sequestraram um superpetroleiro iraniano com 2,1 milhões de barris de petróleo bruto leve. As autoridades suspeitavam de que sua meta fosse o porto sírio de Baniyas, violando as sanções da União Europeia.

Qualquer interdição americana ao comboio que está cruzando o Atlântico agora será contestada pelos iranianos e venezuelanos. Mas a oposição da Venezuela que tem o apoio dos EUA fornece possível munição alegando que os iranianos podem estar transportando mais do que apenas gasolina.

Os líderes da oposição alertaram que Teerã pode estar exportando material para uma suposta operação disfarçada do aparato de inteligência de Maduro para a construção de um posto de escuta no norte da Venezuela destinado à interceptação de comunicações aéreas e marítimas.

“Para o Irã, inimigo dos Estados Unidos, isto implica que estão quase chegando ao quintal dos EUA”, afirmou Iván Simonovis, comissário de segurança de Juan Guaidó, o líder da oposição venezuelana reconhecido pelos EUA como o presidente de direito da nação.

Afirmações 'absurdas'

O ministro das Comunicações  de Maduro minimizou essas afirmações, tachando-as de “absurdas”. “Trata-se de uma cortina de fumaça de Simonovis”, escreveu Jorge Rodríguez em um texto para o Washington Post. “A Venezuela e o Irã mantêm relações comerciais e de cooperação há 20 anos”.

Na tarde de quinta-feira, o petroleiro mais próximo, o Fortune, se encontrava a cerca de 1.300 milhas do complexo de refinarias venezuelanas de El Palito. O comboio dirigia-se para a maior presença americana no Caribe em pelo menos dez anos. O Pentágono despachou destróieres, navios de combate costeiros, aeronaves Poseidon da marinha e um avião de vigilância da Força Aérea para a região com o objetivo de fechar as rotas do tráfico de drogas ao largo da costa da Venezuela.

Funcionários americanos menosprezaram a ideia do Irã de que esta força possa atacar o comboio. O porta-voz do Pentágono, Jonathan Hoffman, disse aos repórteres na quinta-feira que não tinha conhecimento de planos referentes a uma operação militar contra os petroleiros iranianos.

Mas um funcionário de alto escalão do governo Trump, que não quis ser identificado, disse que o governo “não tolerará” o apoio do Irã a Maduro. “O presidente deixou claro que os Estados Unidos não tolerarão a constante ingerência dos defensores de um regime ilegítimo."

Os EUA consideram Maduro um usurpador, e afirmam que ele fraudou as eleições presidenciais em 2018; o Departamento de Justiça o indiciou em março acusando-o de narcotráfico. Os EUA fazem parte do grupo de cerca de 60 nações que reconhecem Guaidó, o presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, como presidente legal do país.

“A importação de gasolina iraniana é um ato de desespero do corrupto e ilegítimo regime de Maduro”, tuitou na quinta-feira o Conselho de Segurança Nacional do presidente Trump. “Isto não deterá a crônica escassez de combustível da Venezuela, tampouco aliviará o sofrimento que Maduro inflige à população outrora próspera do seu país”.

Alguns analistas afirmam que muito provavelmente o governo implementará novas sanções econômicas em lugar da força para deter o comércio iraniano-venezuelano. Embora Trump tenha adotado posições agressivas em relação ao Irã – a saída do acordo nuclear de 2015, a imposição de sanções punitivas e a autorização para o assassinato em janeiro do comandante militar Qassim Suleimani –, em outros momentos demonstrou o desejo de evitar um conflito maior.

Enquanto os petroleiros iranianos rumavam para o oeste na semana passada, o Departamento de Estado, o do Tesouro e a Guarda Costeira dos EUA emitiram um alerta global ao comércio marítimo, afirmando que nações como o Irã podem estar se utilizando de “práticas fraudulentas de intercâmbio marítimo a fim de escapar das sanções".


O almirante Craig Faller, comandante chefe do Comando Sul dos EUA, disse esta semana que acredita que o objetivo do Irã é “ganhar uma posição de vantagem  nas proximidades do nosso país de maneira a contrariar os interesses americanos”.

“Observamos um aumento da atividade patrocinada pelo Estado iraniano e das relações com a Venezuela que incluem a Força Quds – unidade militar de elite iraniana – “e a isto se somam outros elementos de apoio aos agregados do regime ilegítimo de Maduro”, ele afirmou na segunda-feira durante um briefing por vídeo na Universidade Internacional da Flórida.

Os laços estratégicos da Venezuela com o Irã datam de quase duas décadas, quando o então presidente Hugo Chávez, fundador do seu Estado socialista, realizou uma série de acordos econômicos e financeiros com um outro personagem que era mais um espinho no flanco dos EUA – o então presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad.


Muitos destes acordos nunca passaram de propaganda, nunca saíram do papel e não se materializaram. Mas como ambos os países atualmente sofrem dolorosas sanções americanas e enfrentam penosas recessões em plena pandemia do coronavírus, além do colapso dos preços do petróleo, decidiram consolidar vínculos mutuamente benéficos.

Maduro luta para manter literalmente as luzes acesas em um país assolado por frequentes e vastos apagões, pela escassez de gasolina, alimentos, água e medicamentos. Nos últimos meses, seu problema mais crítico tem sido a falta de gasolina.

A Venezuela, membro da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), possui as maiores reservas petrolíferas do mundo. Mas anos de má administração e corrupção – e, mais recentemente, as sanções americanas ao seu setor petrolífero, elemento vital de sua economia – contribuíram para praticamente deixá-lo em ruína e sem a menor manutenção de suas refinarias.

Os patronos tradicionais de Maduro, Rússia e China, se mostraram cada vez mais relutantes em ajudá-lo. Em março, a gigantesca petrolífera estatal russa Rosneft deixou de investir em suas operações na Venezuela e se retirou de acordos petrolíferos com Maduro que incluíam o transporte da gasolina, desesperadamente necessária para o país.

O Irã, que também sofre sanções duríssima dos EUA, tem muito menos a perder.

No mês passado, empresas que monitoram a aviação detectaram mais de dez voos especiais para a Venezuela da Mahan Air, que recebeu sanções dos EUA por supostamente transportar armas e agentes militares iranianos no exterior, inclusive para a Síria, em apoio a sócio da Caracas Capital Markets, uma companhia sediada na Flórida que monitora o setor energético da Venezuela.

Segundo as informações captadas pela empresa, os voos teriam transportado produtos químicos e equipamentos para ajudar a Venezuela a recuperar as moribundas refinarias nacionais. O governo de Maduro, ele acrescentou, aparentemente pagou estes itens – bem como a gasolina iraniana que está em trânsito – com ouro do Banco Central.

“Acompanhamos mensalmente as reservas do Banco Central”, afirmou Dallen. “De abril a maio, elas baixaram repentinamente em US$ 700 milhões."

O embaixador do Irã na Venezuela, Hojjatollah Soltani, negou qualquer negócio  em ouro por gasolina com Maduro. Esta semana, ele afirmou que as duas nações têm o direito de realizar normalmente operações comerciais bilaterais.

“Este relacionamento entre Irã e Venezuela não ameaça ninguém”, declarou Soltani aos repórteres na Embaixada do Irã na quarta-feira, em Caracas. “Não representa um perigo para ninguém.” / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.