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Petróleo desafia governos

É a única situação observada com igual interesse em todas as regiões do mundo. Os preços do petróleo caíram à metade desde junho e provavelmente permanecerão baixos por algum tempo. Não se espera um aumento surpresa da demanda na China ou em outros mercados emergentes que poderiam impelir os preços para cima. E os sauditas não devem restringir a oferta realizando um grande corte de produção nas próximas semanas, uma vez que seu novo rei, Salman, quer restringir o crescimento da produção global - especialmente de óleo de xisto - mantendo produtores rivais, particularmente o Irã, numa situação apertada.

IAN BREMMER, O Estado de S.Paulo

08 de fevereiro de 2015 | 02h01

Assim, é caso de se perguntar: e se o barril do Brent continuar valendo em média US$ 50 o restante do ano? A queda dos preços não irá castigar Putin, na Rússia, porque sua popularidade depende cada vez mais da resistência do país ao Ocidente. E os preços baixos também não forçarão o Irã a aceitar um acordo envolvendo o seu programa nuclear que o líder supremo do país não deseja. Mas se os preços mais baixos persistirem, eles estimulariam uma reforma econômica importante em quatro países importadores: China, Japão, Indonésia e Índia.

Em primeiro lugar, a boa notícia. Nenhum país deve ganhar mais com essa queda dos preços do que a China, cujo processo de reforma é cada vez mais importante para a estabilidade de toda a economia global. Para capacitar economicamente os consumidores de modo a comprarem mais produtos do que a China produz, o presidente Xi Jinping vem realizando reformas que podem desacelerar a economia do país. O petróleo mais barato amortece o impacto que essas reformas terão sobre a capacidade do país de gerar crescimento e empregos.

Os preços menores também estimulam as reformas econômicas internas empreendidas no Japão, uma vez que reduzem o custo para consumidores e empresas num momento em que o premiê Shinzo Abe luta para manter o apoio da sociedade às controvertidas mudanças políticas que ele pretende. Ao mesmo tempo que colocarão mais dinheiro no bolso do consumidor, as reformas ajudarão Abe a rechaçar as críticas de que as medidas que vem adotando enriquecem os grandes exportadores e investidores e prejudicam os demais.

Planos ambiciosos de reforma também beneficiarão Índia e Indonésia, onde os novos líderes prometem dar novo impulso ao crescimento depois de anos de promessas de mudanças não cumpridas. Um dos primeiros desafios para o premiê indiano Narendra Modi e o presidente da Indonésia Joko Widodo será a necessidade de restaurar o equilíbrio das finanças públicas, reduzindo os subsídios para o combustível. Os preços mais baixos do petróleo permitirão ao governo transferir a responsabilidade para consumidores e empresas num momento em que os custos menores absorverão o choque financeiro.

Quanto ao lado negativo, não é surpresa que a queda dos preços do petróleo é uma péssima notícia para governos que dependem das exportações do produto para arrecadar receita. Alguns, no entanto, são muito mais vulneráveis do que outros.

Os sauditas e outros produtores do Conselho de Cooperação do Golfo (GCC, na sigla em inglês) perderão receita, mas sabem que os custos políticos sofridos pelo seu rival político, o Irã, com a imposição de sanções, são muito maiores.

O retorno dos militares ao poder no Egito restaurou a confiança dos sauditas de que as ameaças dos partidos políticos islâmicos diminuíssem após a Primavera Árabe. Embora a Arábia Saudita tenha aumentado vigorosamente seus gastos no ano passado, o país desfruta de reservas em caixa substanciais para enfrentar qualquer tormenta.

Nigéria e Rússia estão em situação mais difícil. Na Nigéria, maior economia da África, o presidente Goodluck Jonathan enfrenta um sério desafio à sua reeleição, em março. As eleições nesse país, com frequência, incitam a violência e a ameaça dos militantes do Boko Haram, que têm base nas províncias de maioria muçulmana, polarizam uma nação já profundamente dividida, aumentando as dificuldades enfrentadas pelo presidente. O governo já cortou gastos e aumentou as taxas de juro para reforçar uma moeda fraca. E o preço do petróleo com o barril a US$ 50 em média também aumenta seus problemas, o privando dos fundos que necessita para responder aos problemas.

Na Rússia, um período prolongado de preços baixos aumentará os danos já provocados pelas sanções ocidentais impostas ao país, em termos de isolamento político e subinvestimento. Autoridades do Kremlin têm advertido que a perda prolongada das receitas advindas do petróleo podem desencadear uma crise bancária, embora no momento o Estado tenha recursos para dar apoio às instituições de empréstimo

Os altos índices de aprovação de Putin e as reservas financeiras do país ainda consideráveis ajudarão a Rússia a evitar episódios de distúrbios sociais, mas o clima de negócios, especialmente para empresas estrangeiras, deverá piorar salvo se os preços do petróleo se recuperem de modo significativo.

Somente na Venezuela, a queda dos preços constitui um desafio direto à estabilidade. Mais de 95% das suas divisas cambiais dependem das exportações de petróleo. O presidente Nicolás Maduro diz que para equilibrar o orçamento do país o petróleo bruto pesado precisa ser vendido a cerca de US$ 100 o barril. Na verdade, US$ 117.

O país importa mais de 70% de todos os seus produtos de consumo, incluindo alimentos, e a queda dos preços do petróleo obriga as autoridades a reduzirem as importações de produtos de primeira necessidade ainda mais. Se os preços permanecerem baixos nos próximos meses, Maduro não conseguirá mais que o Exército o defenda de protestos que deverão aumentar. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É PRESIDENTE DO EURASIA GROUP E PROFESSOR DA UNIVERSIDADE DE NOVA YORK

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