Petrolífera chinesa e o escândalo do vinho

Executivos da Sinopec são acusados de ter gasto US$ 245 mil em garrafas de Chateau Lafite Rothschild; Pequim tenta abafar o caso

Andrew Higgins, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2011 | 00h00

As empresas do petróleo costumam se concentrar nos barris, mas a gigante chinesa Sinopec vê-se agora envolvida na aquisição de garrafas - mais precisamente, 1.176 garrafas de Chateau Lafite Rothschild e de uma cara bebida chinesa.

A compra de bebidas alcoólicas, adquiridas com US$ 245 mil em dinheiro da empresa, criou um escândalo de relações públicas para a Sinopec, maior empresa da China em termos de renda.

Além disso, o episódio representa uma dor de cabeça para o Partido Comunista, que controla esta gigante do petróleo e nomeia os executivos, e reforça também a crença generalizada de que as grandes corporações estatais servem aos interesses de um pequeno grupo de gestores favorecidos - viabilizando seu estilo de vida esbanjador.

Num momento de grande insatisfação pública com o preço da gasolina, cada vez mais alto, sites chineses e até alguns veículos da mídia oficial manifestaram sua indignação diante do comportamento irresponsável da Sinopec e ridicularizaram a afirmação da empresa de que um único executivo desonesto seria o responsável - e este teria sido agora obrigado a pagar do próprio bolso o vinho que já foi consumido.

"A Sinopec é uma empresa do petróleo ou uma negociante de vinhos?", queixou-se um comentarista chinês num fórum da internet dedicado ao debate do escândalo. "A apropriação indevida de dinheiro público é um crime, mas as forças de segurança (a polícia) nada fizeram." A frustração com as grandes empresas do petróleo não é um fenômeno que se resume à China. Mas a Sinopec, cujas ações são negociadas nas bolsas de Hong Kong, Nova York e Londres, é mais do que outro grupo envolvido na exploração mundial deste recurso energético.

Com 75% de suas ações em poder do Sinopec Group, que pertence ao Estado e tem sede em Pequim, a empresa é um exemplo daquilo que o governo apresenta como "modelo chinês", uma ordem econômica que muitas vezes parece ser capitalista, mas é controlada pelo Partido Comunista - e projetada para atender a seus interesses.

Quando o Sinopec Group trocou de diretor no mês passado, a mudança não foi anunciada por seu conselho diretor, mas pelo departamento de organização do Partido Comunista, um corpo secreto responsável pela maioria das nomeações para o alto escalão de empresas, estruturas do governo, organizações acadêmicas e também da mídia.

Linha dura. O novo diretor da Sinopec, Fu Chengyu, um engenheiro do petróleo que faz parte do Comitê Central e tem diploma da Universidade do Sul da Califórnia, tornou-se ao mesmo tempo presidente da empresa e chefe do seu comitê do partido.

O predecessor de Fu, Su Shulin, partiu para um novo emprego como vice-chefe do partido na Província de Fujian, seguindo os passos de outro ex-executivo do ramo do petróleo, Zhou Yongkang, que agora é membro do Comitê Temporário do Politburo e também o responsável pelo vasto aparato chinês de segurança - que promoveu recentemente uma onda de prisões tendo como alvo artistas, advogados e outros que manifestaram seu descontentamento com o partido.

As relações da Sinopec com o poder e a vastidão dos recursos financeiros da empresa fazem com que ela enfrente uma concorrência pequena e desfrute de acesso facilitado ao crédito oferecido por bancos estatais. Mas isso também faz da empresa um alvo preferencial para a indignação pública, além de um símbolo de um sistema afetado pela corrupção promovida por figuras influentes com boas relações políticas.

Os interesses financeiros da empresa às vezes entram em conflito com sua lealdade política. Dependente do petróleo importado para abastecer suas refinarias, a Sinopec perde dinheiro a não ser que repasse aos consumidores chineses o aumento global no preço dos combustíveis. Mas o Estado, que regula o preço da gasolina, teme incentivar a inflação, que traz o risco de fomentar problemas políticos para o partido.

Indignação. Em fevereiro, em meio à crescente indignação pública diante do aumento no preço do combustível, a Sinopec pediu a seus funcionários que escrevessem mensagens em blogs sob identidades falsas com o objetivo de "criar um ambiente de opiniões positivas" em relação aos preços mais altos, segundo um documento interno preparado pelo "Bureau de Trabalho do Comitê do Partido" da empresa. Foram prometidos prêmios para as 20 melhores mensagens falsas.

Sun Haifeng, professor-assistente da Faculdade de Comunicação da Universidade de Shenzhen responsável por denunciar a artimanha na internet, disse que depois disso foi convidado a "tomar chá" com os responsáveis pelos "departamentos relevantes", expressão chinesa que indica um interrogatório das forças de segurança. A mensagem publicada por ele foi apagada.

A Sinopec e outras grandes empresas estatais "não operam dentro da estrutura de uma verdadeira economia de mercado, e sim dentro da estrutura do poder", disse Sun.

O caro gosto da Sinopec pelos vinhos veio a tona em 11 de abril, pouco após as mudanças na administração da empresa. Cópias de recibos detalhando um frenesi de compra de bebidas promovido pelo ex-presidente Su foram exibidos no Tianya, um popular fórum chinês na internet.

Os documentos mostravam que, no intervalo de poucos dias, em setembro, o escritório da Sinopec em Cantão, a província mais populosa e rica da China, comprou centenas de garrafas de Chateau Lafite Bordeaux - algumas das quais custavam até US$ 2.100 cada - e de Maotai, uma forte bebida chinesa servida em banquetes.

Três dias depois que a compra de bebidas veio a público, o preço da gasolina atingiu na China o maior valor já registrado. Um litro de combustível de boa qualidade custa agora o equivalente a US$ 1,25 em Pequim.

"Como o preço da gasolina poderia permanecer o mesmo se eles estão gastando tanto com luxos deste tipo?", perguntou a pessoa que divulgou os recibos sob pseudônimo na rede.

O escritório da Sinopec em Cantão confirmou a autenticidade dos recibos, descrevendo a compra de bebidas alcoólicas como parte das "operações normais" da empresa.

A CCCTV, principal emissora estatal chinesa de TV, levou ao ar uma reportagem dizendo que os administradores do escritório da Sinopec em Cantão tinham dado início a uma caça ao dedo-duro responsável por divulgar os recibos de compra.

Conforme aumentava a indignação, a sede corporativa da Sinopec em Pequim interveio para tentar conter o estrago: convocou uma reunião para alardear o comportamento austero da empresa. Um funcionário da cantina da Sinopec disse que a empresa era tão preocupada em poupar que servia rabanetes e folhas de cebola no refeitório. Outro funcionário invocou a memória do "homem de ferro Wang", um abstêmio trabalhador modelo do setor do petróleo celebrado por Mao Tsé-tung, morto em 1976. Críticos caçoaram da Sinopec na internet com a publicação de caricaturas de rabanetes.

Subornos. A Sinopec, como o próprio partido, é prejudicada há anos por episódios de corrupção. Seu ex-presidente, Chen Tonghai, aceitou subornos que somavam mais de US$ 28 milhões. A amante testemunhou contra ele, assim como ex-colegas que contaram que ele costumava embolsar quase US$ 6 mil diários em dinheiro da Sinopec para cobrir despesas pessoais. Chen foi condenado por corrupção e sentenciado à morte em 2009, com dois anos de suspensão da sentença.

O escândalo dos vinhos envolveu quantias muito menores, mas nem por isso deixou de atrair a ira do público para a empresa e para os poderosos executivos. Numa tentativa de amenizar a crise, Fu, o novo presidente da Sinopec que estudou na Califórnia, e outros executivos da empresa convocaram jornalistas para uma reunião em Pequim no fim de abril. Eles apresentaram os detalhes de uma investigação interna e depositaram toda a culpa pelo escândalo dos vinhos sobre o chefe do escritório de Cantão.

Resistência. Segundo representantes da empresa, a Sinopec recebeu uma denúncia a respeito da compra de bebidas em outubro, e tentou abrir uma investigação, mas enfrentou a resistência dos administradores de Cantão. Fu, o presidente recém nomeado, disse que a Sinopec é receptiva à "supervisão" do público e está determinada a "combater duramente a influência de todo tipo de corrupção, seja no pensamento ou no estilo de vida".

O chefe do escritório de Cantão foi agora afastado do cargo, apesar de ainda ser funcionário da Sinopec. Ele também foi obrigado a pagar US$ 20 mil do próprio bolso para cobrir o custo de 613 garrafas de vinho tinto já consumidas.

Em 29 de abril, a Sinopec anunciou os resultados do seu primeiro trimestre: o lucro da empresa aumentou em 25%. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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