PF deporta dois haitianos em Cumbica

Segundo ONG que havia convidado os jovens, imigração brasileira foi 'racista' e reproduziu 'modelo imperialista' no tratamento dos visitantes

VANNILDO MENDES , BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

28 de janeiro de 2012 | 03h04

A ONG Visão Mundial fez ontem um protesto formal ao governo brasileiro contra o que qualifica de política "imperialista", preconceito e discriminação contra dois cidadãos haitianos. Segundo a acusação, a Polícia Federal impediu os dois de entrarem no País para participar de um treinamento sobre políticas públicas.

Claude Rinvil e Jean-Wilbert Baptichon foram barrados pela imigração do Aeroporto de Guarulhos, no dia 23, quando tentavam desembarcar em São Paulo. Acabaram deportados sem apelação para o Haiti.

Os haitianos, que tiveram documentos e bagagens apreendidas pela imigração brasileira, tinham visto de entrada emitido pela Embaixada do Brasil em Porto Príncipe. De acordo com a ONG, eles estavam com a documentação em dia, incluindo as vacinas exigidas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), e uma carta da entidade indicando a finalidade da visita. "Eles (os policiais) reproduziram a mesma atitude imperialista que os americanos sempre praticam com brasileiros e latinos", criticou Wellington Pereira, dirigente da entidade.

Outro lado. A PF informou que os haitianos estavam com o visto errado - de turista, em vez de estudante -, não tinham dinheiro para bancar a estada e deram informações contraditórias na entrevista para justificar a viagem. A polícia disse ainda que agiu com objetividade, sem privilégio ou perseguição, como age com qualquer estrangeiro que tenta entrar irregularmente no País. A PF informou também que não se trata de deportação - medida prevista para estrangeiros indesejáveis - mas de "inadmissão de pessoa que não cumpre os requisitos legais para entrar no País".

Para a ONG, porém, é mais do que isso. "Foi um ato de humilhação e desprezo por puro preconceito contra cidadãos de um país que passa pelos problemas que todos sabem", enfatizou o dirigente.

A ONG notificou o caso ao Ministério das Relações Exteriores. A entidade explicou que o visto correto era o de turista, mesmo porque eles não vieram na condição de estudantes, mas para participar de um evento oficial e portavam convite.

O monitoramento de políticas públicas, segundo o dirigente, é uma metodologia que a Visão Mundial utiliza no Brasil desde 2008 em 30 comunidades pobres. A entidade vem implementando no Haiti a metodologia e trouxe os dois jovens para conhecer a experiência brasileira, tida como essencial para que o trabalho pudesse ser desenvolvido no seu país.

A ONG não reconhece as causas alegadas pela PF para barrar os haitianos e cobra das autoridades "uma resposta para o incidente".

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