Pilotos de avião que matou líder da Polônia foram pressionados, diz Rússia

Segundo investigação, pilotos temiam reação do próprio presidente se não pousassem, apesar do mau tempo.

BBC Brasil, BBC

12 de janeiro de 2011 | 14h42

Morte de Lech Kaczynski chocou a Polônia no ano passado

Um relatório oficial da comissão da Rússia sobre as circunstâncias da queda do avião que matou o presidente polonês Lech Kaczynski, em abril do ano passado, afirma que os pilotos da aeronave estavam sob pressão psicológica para pousar, apesar das más condições climáticas.

Segundo o documento, dentro do avião presidencial havia um sentimento de que o presidente polonês reagiria mal caso recebesse a notícia de que o avião teria que desviar de seu trajeto.

Tatyana Anodina, diretora do Comitê de Aviação Entre Estados, com sede em Moscou, disse nesta quarta-feira a jornalistas que o relatório final já foi entregue para investigadores poloneses.

A investigadora afirmou que o Tupolev-154, onde Kaczynski e outras 95 pessoas estavam, apresentava "boas condições quando decolou de Varsóvia com destino ao aeroporto de Smolensk, e não teve nenhuma falha de motor ou de sistemas de voo".

'Sem explosão'

O avião presidencial caiu no oeste da Rússia no dia 10 de abril de 2010 quando a comitiva presidencial voava para uma cerimônia em homenagem a poloneses mortos pela polícia secreta do ditador soviético Josef Stalin em Katyn (Belarus), durante a 2ª Guerra Mundial.

Além do presidente e sua esposa, os chefes dos três braços das Forças Armadas e diversos líderes políticos da Polônia morreram no acidente.

"Antes do impacto, não houve incêndio, explosão ou outro dano", disse Anodina. Segundo a investigação russa, o desastre foi resultado direto da falha da tripulação, que não levou em conta os alertas sobre as condições do clima e não foram para um outro aeroporto.

"Durante o voo, a tripulação foi informada várias vezes das condições climáticas inadequadas no aeroporto de destino", afirmou.

"Apesar disso, a tripulação não tomou a decisão de trocar (o local do pouso) para um outro local. Isto pode ser considerado o começo da situação extrema a bordo do avião."

Álcool

A investigação russa descobriu "deficiências substanciais" no treinamento dado ao capitão Arkadiusz Protasiuk e ao copiloto, major Robert Grzywna, segundo Anodina.

Os dois homens temiam uma "reação negativa" do presidente Kaczynski se eles pousassem em outro aeroporto.

"A reação negativa esperada do principal passageiro (...) aplicou uma pressão psicológica nos membros da tripulação e influenciou a decisão de continuar com o pouso (programado)", disse.

O gravador de voo do avião captou um membro da tripulação falando "Ele vai ficar muito bravo", em uma aparente referência à determinação do presidente polonês de não alterar sua agenda.

A investigadora russa acrescentou que a pressão nos pilotos aumentou ainda mais quando o comandante da Força Aérea polonesa, general Andrzej Blasik, entrou na cabine no avião.

"A presença do comandante da Força Aérea na cabine, antes da queda da aeronave, aplicou mais pressão psicológica no capitão (do avião) para que ele decidisse continuar com o pouso em uma situação de risco sem justificativa, dominado pelo objetivo de pousar a qualquer custo."

Exames feitos no corpo do general Blasik mostraram que havia álcool no sangue do militar, em uma concentração de 0,6 gramas por litro, um pouco acima do limite permitido na maioria dos países europeus.

Os investigadores também descobriram que uma autoridade do Ministério do Exterior polonês, Mariusz Kazana, também teve acesso à cabine.

Durante a entrevista coletiva em Moscou, os investigadores tocaram as gravações dos últimos minutos dos pilotos do avião Tupolev, incluindo conversas com os controladores de tráfego aéreo russos.

Pouco antes do fim da gravação, uma mensagem automática em inglês, vinda do Sistema de Alerta Terrestre, pode ser ouvido pedindo à tripulação do Tupolev "suba, suba".

'Piada'

O atual primeiro-ministro polonês, Donald Tusk, voltou mais cedo de suas férias para tratar da reação do país ao relatório russo.

Um porta-voz do governo afirmou que Tusk, que já tinha criticado a investigação russa no mês passado, iria agora conversar com líder das investigações no país, Jerzy Miller.

Jaroslaw Kaczynski, irmão gêmeo do presidente morto, também criticou a investigação russa.

"O relatório coloca toda a culpa nos pilotos poloneses e na Polônia, sem nenhuma prova (...) é uma piada contra a Polônia", disse ele, acrescentando que seu partido conservador, o Partido Lei e Justiça, vai pedir que o Parlamento polonês rejeite o relatório.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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