Piñera anuncia fundo para reconstrução

Em seu primeiro dia no cargo, presidente do Chile afirma que danos causados pelo tremor passam de US$ 30 bilhões

João Paulo Charleaux, O Estadao de S.Paulo

13 de março de 2010 | 00h00

PERDA - Em Concepción, desabrigados assistem à posse de Piñera

O presidente chileno, Sebastián Piñera, anunciou ontem - no primeiro dia de seu governo - a criação de um fundo de reconstrução após o terremoto do dia 27. Ele afirmou que o governo vai utilizar "com prudência" um dos fundos de riqueza soberana do país e provavelmente buscará empréstimos no exterior para financiar os esforços de reconstrução das áreas afetadas pelo sismo.

O Chile tem cerca de US$ 7 bilhões em um fundo de estabilização, que foram poupados com a escalada dos preços do cobre nos últimos anos. Por causa de uma administração fiscal prudente, os encargos da dívida líquida do país são extremamente baixos. Segundo cifras anteriores do Ministério da Fazenda, os fundos soberanos do Chile somavam recursos de US$ 14,7 bilhões no valor de mercado de janeiro.

O presidente afirmou também que planeja reformular o orçamento fiscal de 2010, herdado da ex-presidente Michelle Bachelet, e a despesa fiscal deste ano será "muito austera".

Em sua primeira entrevista coletiva, Piñera declarou ontem que o Chile ficou um país mais pobre por causa da perda de vidas e pelas perdas econômicas e acrescentou que os danos provocados pelo terremoto passam de US$ 30 bilhões. "Também sinto que somos um país mais rico, pois o povo chileno demonstrou mais uma vez seu caráter, sua coragem, sua união e sua força para nos recuperarmos", declarou.

A promessa de Piñera de acelerar e aumentar a ajuda às vítimas do terremoto foi recebida com desânimo e ceticismo pelos moradores das zonas mais afetadas, que já demonstram cansaço com a falta de luz, água, alimentos e abrigo que já dura mais de dez dias.

Na quinta-feira, o Estado percorreu a costa chilena da região de Biobío num helicóptero da Força Aérea e visitou os bairros mais pobres da capital regional, Concepción, de carro. Muitas pessoas passam o dia em barracas de camping e tendas improvisadas com pedaços de plástico. Pontes caíram como dominós gigantes, galpões de fábricas ruíram, hospitais racharam ao meio, escolas estão condenadas e a maioria das estradas tem crateras e rachaduras a cada 200 metros, sem nenhuma sinalização de advertência.

Enquanto a TV transmitia o primeiro discurso de Piñera como presidente, em Santiago, os moradores de Concepción acendiam fogueiras para iluminar as ruas e espantar o frio, que aumenta com a chegada do outono. Esta semana, começaram a cair as primeiras chuvas, ainda finas, mas geladas.

"Olha o Piñera dizendo que governar o Chile será o maior desafio da vida dele. Imagine só se ele estivesse aqui como eu estou", disse Pedro Muñoz, que teve a casa abalada pelos tremores, na periferia de Concepción. "Precisamos de ajuda imediata e soluções definitivas de moradia. Com presidente de esquerda ou de direita, nossos dramas são os mesmos e não vão sumir sozinhos."

Muitos moradores ainda entram em pânico sempre que a terra volta a tremer, como Gerardo Toledo, de 24 anos. "Eu não tenho medo de morrer. O que me apavora, quanto tudo balança, é pensar em como será meu último minuto de vida antes que tudo se apague", diz esfregando as mãos com ansiedade. "Antes da tragédia, eu nem me importava com os tremores. Agora, tenho pânico. Corro para a rua ou fico paralisado. Passei a andar com uma lanterna e duas garrafas de água. Também mantenho sempre um fone de ouvido com o rádio ligado", disse, com um sorriso nervoso. "De noite, o cheiro do mar também chega de repente e me dá muito medo das ondas."

TOQUE DE RECOLHER

Em Concepción, o toque de recolher ainda vigora e militares armados com fuzis patrulham em grupo as ruas da cidade. O aeroporto fica fechado a maior parte do dia. Os hotéis que ainda funcionam estão ocupados por funcionários humanitários e de empresas de eletricidade e telefonia. Num deles, cuja recepção está destruída, ninguém quer se hospedar nos dois últimos andares, com medo das réplicas. Em outro, a gerente ofereceu ao Estado uma sala ao lado do estacionamento subterrâneo para passar a noite. "Eu monto sua cama aqui, ao lado da porta. Se tremer, você consegue fugir mais rápido que os outros porque o elevador está quebrado", consolou a gerente do hotel de sete andares.

A enorme presença militar não tem ajudado apenas as vítimas do terremoto. Em Curanilahue, uma menina de 6 anos que teve a mandíbula arrancada por um disparo acidental de espingarda foi levada em coma num helicóptero da Força Aérea para Concepción. A mãe dizia que ela não teria sido atendida se o tremor do dia 27 não tivesse ocorrido. O Estado costuma ser ausente nas regiões rurais e litorâneas mais afastadas das capitais regionais do Chile.

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