Jorge Silva/Reuters
Jorge Silva/Reuters

Piñera endurece repressão diante de protestos que persistem no Chile

Um dia depois de confrontos, saques e incêndios terem sido registrados em lugares relativamente longe dos protestos, Piñera divulga nove medidas para reforçar o controle da ordem pública

Redação, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2019 | 21h47

SANTIAGO - O presidente chileno, Sebastián Piñera, anunciou nesta quinta-feira, 7, uma série de medidas contra saqueadores e manifestações violentas, no âmbito de um pacote para aumentar o controle da ordem pública. Há quase três semanas, o país está mergulhado em uma crise social que não dá trégua.

Um dia depois de confrontos, saques e incêndios terem sido registrados no Bairro de Providencia, alcançando lugares até então relativamente distantes dos protestos, Piñera divulgou nove medidas para reforçar o controle da ordem pública, ao mesmo tempo em que propôs dar urgência a um projeto de lei contra manifestantes encapuzados que provoquem confusão nas ruas.

"Estamos convencidos de que essa agenda representa e constitui um aporte significativo e importante para melhorar nossa capacidade de resguardar a ordem pública", justificou Piñera, em uma mensagem no palácio presidencial.

As medidas incluem a apresentação de uma lei contra saques ao Congresso, que endurece a punição a esse tipo de crime.

O presidente anunciou ainda a criação de uma equipe especial de advogados para tratar dos crimes de desordem, de um estatuto especial para a proteção de policiais e a modernização do sistema nacional de Inteligência.

Piñera também convocou uma reunião do Conselho de Segurança Nacional (Cosena), integrado pelas principais autoridades do país.

O chefe do Executivo não fez qualquer nova proposta social ou política para enfrentar a crise, o que despertou fortes críticas na oposição.

Para Entender

Guia para entender os confrontos no Chile

Presidente diz que país está ‘em guerra’ diante das manifestações violentas; entenda o que está acontecendo

"É apagar o fogo com gasolina. O problema é político e o presidente precisa entender isto", disse o senador da Democracia Cristã Francisco Huenchumilla.

"A convocação do Cosena é o pior sinal que se pode dar à população que exige uma mudança pacífica. Isso favorece o protagonismo dos grupos minoritários violentos, que buscam o confronto", avaliou o senador do Partido Socialista José Miguel Insulza.

Tour ao 'oásis' 

Nesta quinta-feira, uma convocação pelas redes sociais chamava para um "grande tour ao oásis", em referência ao Bairro de Las Condes, uma região nobre de Santiago.

Um dia antes, as manifestações chegaram a zonas onde se concentra o poder econômico do Chile, e provocaram confrontos violentos, saques e destruição em torno do complexo Costanera Center.

Poucos dias antes do início dos protestos, Piñera havia qualificado o Chile como "um oásis" na América Latina.

Um protesto chegou a Vitacura, um bairro de residências e sedes de organismos internacionais, embaixadas e comércio de luxo.

Funcionários públicos da Saúde, que exigem há anos melhores salários e mais recursos para o atendimento básico, chegaram à sede do escritório regional da Organização Mundial da Saúde (OMS), em Vitacura.

Representantes do Colégio Médico, estudantes e funcionários de consultórios públicos exigiram da OMS que se posicione sobre "as violações dos Direitos Humanos e as mortes que ocorreram no Chile" durante os protestos.

"A corrida contra a destruição e o vandalismo vamos ganhar e junto com a municipalidade colocaremos Providência novamente de pé", disse a prefeita regional, Evelyn Matthei, que mais cedo foi pessoalmente controlar o trânsito diante da queda da sinalização.

A onda de protestos atinge com força a economia chilena, especialmente o peso, que chegou ao seu menor valor em 16 anos, junto às atividades de comércio e turismo.

A violência obrigou o governo a cancelar três eventos importantes: o encontro dos líderes da APEC, a cúpula da mudança climática COP-25 e a final da Copa Libertadores da América.

"Para a economia foi um desastre. Esse trimestre vamos ter crescimento negativo, sem qualquer dúvida, e o dólar vai subir muito mais. Então é um quadro muito complicado e estou muito pessimista", avaliou nesta quinta-feira o economista Sebastián Edwards, professor da Universidade da Califórnia em Los Ángeles (UCLA).

Nesse cenário, os organizadores da popular campanha Teletón, que arrecada dinheiro para ajudar crianças deficientes, decidiram adiar o evento para abril de 2020. 

Mais de 2,3 mil denúncias de violações 

Um dia depois de um tribunal chileno acolher uma ação movida contra o presidente por sua responsabilidade em supostos crimes contra a humanidade, o Instituto Nacional de Direitos Humanos (INDH) informou que recebeu cerca de 2,3 mil denúncias de violações desde o início dos protestos.

Os dados foram coletados pela sede regional metropolitana do INDH (órgão público independente que monitora os protestos).

De acordo com o instituto, a maioria das denúncias apontam para a "ação infratora" dos carabineiros chilenos durante as três semanas de manifestações, e também de membros das Forças Armadas durante os estados de emergência previamente decretados pelo presidente.

Das mais de 2 mil queixas apresentadas, 72 acusam as forças de segurança de "tortura", incluindo as de natureza sexual. Nesta quarta-feira, 14 agentes carabineiros foram intimados por dois casos de tortura, um deles contra um menor, cometido em 21 de outubro durante protestos em várias cidades chilenas.

Outras denúncias são baseadas em "ações por homicídio frustrado e por lesões de vários tipos, entre outros crimes", disse o instituto./AFP e EFE

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.