Piñera leva incerteza diplomática ao Chile, diz analista

A vitória do magnata direitista Sebastián Piñera nas eleições para presidente do Chile desperta incertezas sobre as relações exteriores do país, especialmente com países como Bolívia, Peru e Venezuela, segundo analistas. "Na relações de fronteira com nossos vizinhos, (Piñera) gera certas incertezas. Elas poderiam se complicar, principalmente no que diz respeito ao conflito entre Chile e Peru", disse Marcelo Mella, cientista político da Universidade de Santiago.

AE-AP, Agencia Estado

18 de janeiro de 2010 | 17h04

No último debate presidencial com seu adversário governista Eduardo Frei, Piñera afirmou que não cederá "nem um metro" de território chileno, numa referência às diferenças do país com o Peru, que em janeiro de 2008 ignorou formalmente o limite marítimo com o Chile e recorreu à Corte Internacional de Justiça (CIJ), em sede em Haia, para definir a questão.

"Parece que as declarações nacionalistas, com certo chauvinismo, não ajudam a gerar um clima bom para que tenhamos uma boa solução para este conflito, em particular", disse Mella. Em março, o governo chileno deve responder à ação apresentada pelo Peru contra o país em Haia.

A Bolívia também reclama uma saída soberana marítima, perdida ao aliar-se ao Peru e enfrentar o Chile em 1879. Piñera afirmou que "o território, o mar e a soberania chilena nos pertence e um presidente deve defendê-las sempre". "Vamos facilitar o acesso da Bolívia a nossos portos para que possam usá-los para o comércio exterior, mas não vamos ceder nenhum território marítimo", afirmou o presidente eleito.

''Concertación'' diplomática

A presidente Michelle Bachelet afirmou ter convidado Piñera a acompanhá-la na reunião do Grupo do Rio, em meados de fevereiro, em Cancún, para apresentá-lo aos chefes de governo da região. Os governos da coalizão Concertación, no poder entre 1990 e 2010, melhoraram as relações externas chilenas, especialmente com países latino-americanos, deterioradas durante a ditadura do general Augusto Pinochet (1973-1990).

Bachelet se aproximou do Peru e da Bolívia por meio de uma agenda de 13 pontos que inclui a questão marítima. "A mim parece que (Piñera) terá de mudar ou, definitivamente, será um discurso disfuncional para o desenvolvimento de boas relações futuras com o Peru e a Bolívia", afirmou o cientista político Marcelo Mella.

Outros vizinhos

Sobre a Venezuela, Piñera, que é proprietário da companhia aérea Lan, de um canal de televisão e do time de futebol mais popular do Chile, disse que "não é uma democracia, pois não se respeita a separação de poderes e não há alternância de poder". Cuba é descrita por ele, sem rodeios, como uma ditadura.

O presidente peruano, Alan García, foi um dos primeiros a cumprimentar Piñera pela vitória e expressou sua disposição "para realizar um diálogo direto e fluido que permita trabalhar em diversas iniciativas para enriquecer nossa valiosa relação bilateral".

Piñera também, é amigo do presidente colombiano Alvaro Uribe e próximo do presidente do México, Rafael Calderón. No plano interno, o presidente eleito pode ter problemas com os mineiros da estatal Codelco, a maior produtora do mundo de cobre, já que Piñera planeja privatizar 20% da companhia.

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