Pinochet é internado após ser acusado de assassinato

O general Augusto Pinochet foi internado às pressas nesta sexta-feira em um hospital militar horas depois de um general da reserva responsabilizá-lo por dezenas de assassinatos praticados pela "Caravana da Morte" - um caso que pode levar Pinochet aos tribunais.Um assessor de Pinochet, o general reformado Luis Cortes, disse que o ex-ditador "se sentiu muito mal" pelo fato vir sofrendo desde esta quinta-feira de "uma forte e constante dor de cabeça e inchaço nas pernas". Pinochet desceu com dificuldade de seu carro blindado e, ajudado por seus guarda-costas, entrou no hospital numa cadeira de rodas. Horas depois, o hospital divulgou um breve comunicado, dizendo que o diagnóstico preliminar é o de "um episódio isquêmico transitório", que significa uma falta de irrigação sanguínea - neste caso, no cérebro.A nota acrescentou que o general está na Unidade de Terapia Intensiva e que sua alta ou permanência no centro médico dependerá da evolução do caso. Os médicos do hospital explicaram que Pinochet teve "uma ligeira e transitória falha de consciência" e que ele apresenta "uma discreta perda de forças do lado esquerdo e a persistência de um quadro congestivo com retenção de água".O comandante-chefe do Exército, general Ricardo Izurieta, chegou rapidamente ao hospital para informar-se sobre a saúde de seu antecessor. Embora as hospitalizações de Pinochet sejam freqüentes, o atual comandante militar nunca havia ido ao hospital. A esposa e os filhos de Pinochet também foram ao centro médico. Ao retirar-se, a filha mais nova do ex-governante, Lucía Pinochet Hiriart, atribuiu a responsabilidade pelos problemas de saúde de seu pai aos seus adversários políticos. "Isto é resultado da perseguição que vem ocorrendo há muito tempo. Como familiares, nós pedimos a Deus e perdoamos os danos que nos estão causando", disse Lucía. Os problemas de saúde do general parecem ter se intensificado após o general da reserva Joaquín Lagos, entrevistado pela televisão estatal nesta quinta-feira à noite, ter atribuído ao próprio Pinochet, chefe do governo militar a partir de 1973, a responsabilidade pelos assassinatos perpetrados pela chamada "Caravana da Morte".A caravana foi formada por um grupo de militares que passou por várias cidades do sul e do norte do país logo após o golpe militar de 1973, retirando das celas 75 prisioneiros políticos, que foram sumariamente executados. Até hoje não foram encontrados os restos de 18 destas vítimas. O general Joaquín Lagos disse que o chefe da "Caravana da Morte", general Sergio Arellano, agiu como representante direto de Pinochet durante os episódios que culminaram com os assassinatos.Lagos - que era comandante de uma região militar no norte do país, onde ocorreu a maior parte dos assassinatos - disse que, na época, ao receber Arellano, este lhe apresentou um documento "mostrando que Pinochet o havia nomeado seu delegado pessoal". "Numa situação como esta, não havia nada que eu pudesse fazer", disse Lagos, de 80 anos."Ter um delegado do comandante-em-chefe diante de você é a mesma coisa que ter o próprio comandante", disse Lagos na televisão. "Não há nada, nada mesmo, que qualquer um possa fazer. Ele dá as ordens que achar convenientes". O general Arellano, que está na reserva, não fez nenhum comentário sobre o caso, mas tem negado enfaticamente qualquer injustiça.Lagos revelou ter falado pessoalmente com Pinochet sobre o caso, tendo advertido o então comandante-em-chefe de que "mais cedo ou mais tarde, nós todos seremos julgados por isto, especialmente o senhor, que é o comandante das Forças Armadas".Pinochet enfrenta uma real possibilidade de ser julgado pelo caso. Ele já foi indiciado por um juiz, Juan Guzmán, no mês passado, mas a Suprema Corte rechaçou a medida porque Guzmán não havia interrogado o ex-ditador.O juiz interrogou Pinochet na última terça-feira, e as respostas dadas por Pinochet levaram a televisão a entrevistar Lagos.Durante o interrogatório, o ex-comandante-chefe disse ao juiz que os comandantes regionais, e não ele próprio, eram os responsáveis pelo que ocorria em cada região e por ordenar investigações após tomar conhecimento das execuções."Eu não sou o responsável. Não sou um criminoso", teria enfatizado Pinochet, segundo versões do interrogatório divulgadas pela imprensa.Guzmán irá decidir, nos próximos dias, se aceita as acusações contra Pinochet ou encerra o processo devido ao estado de saúde do general. O relatório dos exames médicos a que se submeteu o ex-ditador, divulgado na semana passada, atesta que o general sofre de "demência moderada". As leis chilenas eximem de julgamento os loucos ou dementes, mas, por terem sido escritas há mais de cem anos, elas não estabelecem tipos nem níveis de demência.Lagos, por sua vez, disse à tevê estatal que ele se sentiu envergonhado ao ver os corpos totalmente mutilados das vítimas da "Caravana da Morte".

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