Pintura de Zapata gay divide o México

Pintura de Zapata gay divide o México

Herói revolucionário aparece de sombreiro rosa e salto alto em quadro de Fabián Cháirez, causando reação violenta de setores conservadores da sociedade mexicana

Mary Beth Sheridan / Washington Post, Cidade do México

14 de dezembro de 2019 | 18h10

No México, Emiliano Zapata carrega a imagem de um herói implacável que inspirou a revolta de Chiapas, nos anos 90. Ninguém imagina o rebelde nu, de salto alto e com um sombreiro rosa na cabeça. Mas foi exatamente assim que ele foi pintado por Fabián Cháirez, que pendurou sua pequena tela em uma exposição sobre o ícone revolucionário. Não demorou muito para começar a gritaria.

A exposição no Palácio das Belas Artes, na Cidade do México, reúne 141 obras representando Zapata de diferentes maneiras, como líder da Revolução de 1910, mas também como ícone de batalhas feministas e do ativismo contemporâneo. A versão gay do ícone nacional causou uma convulsão nas redes sociais. 

A família de Zapata ameaçou processar Cháirez e o governo. O neto do revolucionário, Jorge Zapata González, quer que a obra seja removida do museu. "Não vamos permitir isso", disse. Grupos de camponeses que idolatram Zapata atacaram ativistas da comunidade LGBT do lado de fora do Palácio de Belas Artes, pedindo que o quadro seja queimado.

O burburinho reflete o choque cada vez maior entre a tradicional cultura machista do México e os movimentos sociais que lutam pelos direitos das minorias. Mas, se de um lado há quem diga que a pintura esculhamba a imagem do bandoleiro, outros lembram que Zapata é um herói de todos os mexicanos, de indígenas, camponeses e nacionalistas – e por que não também dos gays?

"A discussão é sobre como representar nossos heróis nacionais e quem tem direito de fazer isso", disse Guillermo Osorno, escritor e crítico de arte. "A pintura não diz que Zapata é gay, mas que ele também pertence à comunidade gay, como símbolo da revolução sexual do século 20."

A imagem de Zapata é tão onipresente no México quanto a de George Washington nos EUA. Ela aparece em prédios públicos, notas de peso mexicano e camisetas. O herói é sempre descrito como um personagem sombrio, com um bigode espesso e um sombrero na cabeça. É por isso que muitas pessoas ficaram chocadas com a pintura A Revolução, de Cháirez, que mostra o revolucionário nu, com um corpo feminino, montado em um cavalo branco e de salto alto em forma de pistola.

A exposição foi inaugurada em novembro, mas os confrontos desta semana, entre camponeses e ativistas LGBT na porta do Palácio de Belas Artes, fizeram o governo intervir. "Os artistas têm total liberdade e não podemos ter censura no México", disse o presidente, Andrés Manuel López Obrador. 

Cháirez, o artista que causou a celeuma, disse que pintou o quadro de Zapata há vários anos para contestar as imagens "hipermasculinas" dos mexicanos. "Eu criei minha própria versão, que oferece uma forma diferente de representar os homens", disse. 

 Na quinta-feira, o Ministério da Cultura do México anunciou um acordo com a família de Zapata: a pintura permanece na exibição, mas será retirada da publicidade oficial. Além disso, os parentes do herói revolucionário poderão fixar uma declaração ao lado da obra expressando sua desaprovação.

O caso reviveu rumores antigos de que Zapata pode ter sido gay. O historiador Lorenzo Meyer garante que não há evidências disso. "Se ele fosse, não era uma questão relevante no período revolucionário", afirmou. "Isso reflete muito mais as preocupações de hoje projetadas no passado – e não as de Zapata ou daqueles envolvidos no zapatismo."

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