Anibal GRECO / DYN / AFP
Anibal GRECO / DYN / AFP

Pior crise econômica da Argentina, que levou à fuga do presidente De la Rúa, completa 20 anos

Colapso da taxa de câmbio fixo, confisco de depósitos bancários e revolta popular levou presidente argentino a deixar o país de helicóptero

Redação, O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2021 | 20h00

BUENOS AIRES - A Argentina viveu há 20 anos a pior de suas crises econômicas e políticas, com o maior default da história, o colapso da taxa de câmbio fixo, o confisco de depósitos bancários e um presidente que fugiu de helicóptero em meio a uma revolta popular.

As cicatrizes daquele trauma são perceptíveis ainda hoje em uma desconfiança generalizada com os dirigentes políticos, contra os quais a população pedia aos gritos, em 2001, "Vão embora todos!". Cerca de 40 pessoas morreram baleadas por policiais em manifestações e saques.

A queda do governo conservador de Fernando de la Rúa ocorreu em meio a um vácuo de poder, após a explosão da âncora cambiária de um dólar igual a um peso, um modelo que, juntamente com as privatizações e a abertura comercial descontrolada, deram uma falsa ilusão de prosperidade a um país empobrecido.

Milhares de pessoas correram para os supermercados para saquear alimentos, um contraste brutal com a época em que muitos argentinos compravam itens importados de luxo, graças ao peso sobrevalorizado.

O ano de 2001 entrava na memória coletiva. "Houve uma sensação de forte orfandade, desconfiança com as instituições, o Estado e os bancos", disse à agência France-Press o historiador Felipe Pigna.

Os poupadores pediam, com gritos e panelaços, a devolução do seu dinheiro bloqueado nos bancos no 'corralito', instrumentalizado pelo ministro da Economia Domingo Cavallo em busca de evitar o colapso do sistema bancário.

Enquanto as pessoas repetiam nas ruas "Chorros, chorros, devuelvan los ahorros!" (Ladrões, ladrões, devolvam a poupança), batiam com martelos nas portas abaixadas dos bancos. Cavallo tinha sido ministro do peronista de direita  Carlos Menem (1989-1999). Foi o pai da "Conversibilidade" de um por um, que durou dez anos até que explodiu no colo de De la Rúa.

"Dos US$ 77 mil que tinha no banco, no 'corralito' perdi US$ 40 mil. Aquele dezembro foi terrível, tinha confusão por todos os lados", disse o analista de sistemas Ricardo Lladós, de 71 anos. "Sente-se um gosto agridoce de 2001: por um lado, a tragédia total e por outro, a reação sadia das pessoas por conta própria, tentando reconstruir uma situação desastrosa, catastrófica", disse Pigna.

"Lembro com muita tristeza de ver a oficina parada", contou Fernando Soto, de 57 anos, na época chefe de uma metalúrgica. Um estudo científico mostrou que entre 1999 e 2002 houve cerca de 20 mil mortes por problemas cardíacos a mais do que o habitual na Argentina.

Em meio ao incêndio, De la Rúa decretou estado de sítio em 19 de dezembro. A polícia montada avançou contra as Mães da Praça de Maio, que buscam seus filhos desaparecidos durante a ditadura. Foi como jogar lenha na fogueira. Centenas de milhares foram às ruas.

"A lembrança é de sangue, dor e o estado de sítio, que é coisa de uma ditadura", refletiu Pigna.

Renúncia

De la Rúa, da ala conservadora da social-democrata União Cívica Radical (UCR), renunciou e fugiu em um helicóptero da Casa Rosada, cercada por manifestantes, ao entardecer de 20 de dezembro.

"Abandonou o barco em uma crise inédita, com enorme custo social, aumento geométrico da pobreza (57%) e desemprego (20%) e milhões de afetados com a (posterior) desvalorização" do peso, explicou à AFP o acadêmico Pablo Tigani, mestre em Política Econômica Internacional.

A dívida pública era impagável. Nomeado presidente pelo Congresso, o peronista Adolfo Rodríguez Saá declarou, entre vivas, o maior default da história de 100 bilhões de dólares (70% do passivo). Durou uma semana no poder.

Outro presidente peronista de direita, Eduardo Duhalde, assumiu o cargo e convocou eleições antecipadas. Assim surgiu um presidente também peronista, mas situado mais à esquerda, Néstor Kirchner (2003-2007), que iniciou uma era que continuou com dois mandatos de sua esposa, a hoje vice-presidente Cristina Kirchner.

Durante este período, a Argentina cancelou a dívida que tinha com o FMI em um pagamento de US$ 9,5 bilhões e reestruturou bônus com apoio de 93% dos credores. O restante foi devolvido em julgamentos como "fundos abutre", que compararam a dívida já em default e litigaram nos Estados Unidos para conseguir pagamentos e lucros.

A Argentina, em meio a uma nova crise monetária, voltou a pedir ajuda ao FMI durante o mandato do liberal Mauricio Macri (2015-2019). Recebeu o maior empréstimo que o organismo já concedeu a um país: US$ 57 bilhões, dos quais desembolsou US$ 44 bilhões.

Macri sustentou que os recursos foram usados para pagamentos a bancos privados que avaliavam deixar o país, para que recuperassem investimentos.

A Argentina tem vencimentos de US$ 20 bilhões ao ano em 2022 e 2023, e suas reservas internacionais exíguas e sua situação econômica - em recessão desde 2018, com inflação de 51% ao ano e pobreza de 40,6% -, a obrigam a renegociar com o Fundo.

Embora os bancos apoiem os depósitos em dólares (20% do total), existe um controle de câmbios que limita os saques. E para demonstrá-lo, basta um botão: uma notícia falsa de 'corralito' provocou em novembro saques de depósitos.

"O ano de 2001 é um fantasma que ressurge em tempos de crise. Não em termos racionais, mas sim emocionais", concluiu Piña. / AFP 

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