Rodrigo Cavalheiro/Estadão
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‘Pior que tortura’, diz advogada que busca vítimas de tiros no Chile

Paz Becerra, advogada especializada em cobrar indenizações do Estado para quem sofreu violações de direitos humanos, diz que disparos no rosto são tática para intimidar manifestantes

Rodrigo Cavalheiro, Enviado Especial / Santiago

10 de novembro de 2019 | 07h00

SANTIAGO - A advogada Paz Becerra perambula em hospitais de Santiago em busca de vítimas de abuso policial, especialmente alvos de disparos no rosto nos protestos do Chile. Argumenta que elas, em geral, não procuram ajuda jurídica porque estão traumatizadas. 

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Paz está convencida, a partir de 20 depoimentos que obteve pessoalmente de vítimas, de que a polícia adotou os disparos contra a cabeça para intimidar os manifestantes. “Os disparos estão sendo feitos com a arma na horizontal, a menos de 30 metros”, afirma a advogada.

Na sexta-feira, o Ministério Público informou ter aberto 1.089 investigações de abusos por violência institucional. Há 20 mortos, 3 mil detidos e 24 denúncias de tortura.

Paz considera a cegueira resultante dos disparos pior que tortura. “Uma marca de tortura se apaga com o tempo. Um dano na vista difunde o terror”, compara. Um cliente dela que perdeu a vista é filho de um torturado no regime militar. Outro tem ainda uma bala de borracha na cabeça, que médicos consideram arriscado retirar.

Há dois tipos de bala de borracha no Chile. Algumas têm o diâmetro de uma tampa de garrafa. Outras têm o tamanho de uma bola de gude. Na quinta-feira, um tribunal aceitou uma denúncia feita por advogados contra o presidente Sebastián Piñera por crimes contra a humanidade. Ele é acusado, em última instância, de corresponsabilidade em mortes, desaparecimentos e torturas denunciadas desde o dia 18. Piñera respondeu que “não tem nada a esconder”.

“Cada vez que recebemos uma denúncia séria e responsável, investigamos. Mas há muita informação falsa circulando nas redes sociais”, respondeu o diretor do corpo de Carabineros, general Mario Rozas Córdova.

Especializada em cobrar indenizações do Estado para quem sofreu violações de direitos humanos da época da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990), Paz garante não ser paga pelas vítimas de hoje. “Graças aos casos da ditadura, posso fazer esse trabalho sem cobrar. É um paradoxo. O pagamento recebido com aquelas vítimas me ajuda a ajudar essas”, afirma.

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