Pior que Trump

No debate republicano, os candidatos conseguiram falar mais coisas sem sentido que o magnata

Gail Collins, The New York Times, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2015 | 02h00

Talvez muitos americanos não tenham assistido ao debate dos pré-candidatos presidenciais do Partido Republicano esta semana. O que não justifica que não tenham uma opinião a respeito. Este será o último até dezembro, e é tudo o que terão para se preparar se quiserem conversar sobre política no jantar do dia de Ação de Graças. 

Jeb Bush divulgou uma mensagem, antes do início do evento, pedindo a todos seus “amigos” que lhe enviassem um dólar para ele “saber que vocês estão em casa torcendo por mim”. Não parece patético? Como prometido, certamente foi mais específico do que nos anteriores. 

Mas o tema deveria ser a economia, e sabemos há muito tempo que quando essas pessoas falam de planos a respeito de impostos, não vamos ouvir nada a não ser as palavras “baixos” e, ocasionalmente, “estáveis”. 

“Como vocês observaram, elaborei um imposto simples e ousado: 10% para todo americano que produza um crescimento espetacular e 4,9 milhões de novos empregos em dez anos”, disse Ted Cruz. Num mundo perfeito, alguém teria dado um pulo e gritado: “O que foi que o sr. disse?”, pois Cruz estava falando de um déficit orçamentário potencial de US$ 3 trilhões. Depois, Cruz declarou que imporia cortes consideráveis do orçamento, incluindo a eliminação total de cinco importantes agências, mas só conseguiu lembrar de quatro. E vocês acham que esse foi o fim de Ted Cruz? Ele contornou o problema mencionando duas vezes o Departamento do Comércio.

 

Carly Fiorina continuou tentando vender seu código fiscal de três páginas. Não um formulário de declaração de imposto de três páginas - três páginas de leis cobrindo todos os impostos que cada cidadão e cada empresa do país pagam. Ela mencionou o código de três páginas quatro vezes durante o debate, e em nenhuma vez alguém falou: “Do que diabo você está falando?”.

 

A única pessoa que poderia ter passado pelo teste do polígrafo foi - estão preparados? - Ben Carson. Embora lembrasse da promessa sempre popular de acabar com as brechas na lei, Carson afirmou que cortaria drasticamente as deduções destinadas a instituições de caridade e ao pagamento de hipotecas. Todo mundo gosta delas, admitiu Carson. “Mas o fato é que as pessoas tinham casas antes de 1913, quando nós introduzimos o imposto de renda federal, e as deduções começaram muito depois disso.” Um perfil de coragem ou a incapacidade de refletir a fundo sobre as coisas? Aí está um tópico excelente para ser discutido no jantar festivo. As duas únicas questões que provocaram um debate genuíno foram a imigração e assuntos militares. 

Quanto à imigração, tanto Bush quanto John Kasich tentaram desancar o plano de Donald Trump de deportar todos os imigrantes em situação irregular. “Pense nas famílias, pense nas crianças”, suplicou Kasich. Por sua vez, Trump afirmou que o presidente Dwight Eisenhower deportou 1,5 milhão de imigrantes ilegais para o México e não deixou de ser popular. Durante esse programa, chamado “Operação Wetback” (costas molhadas), alguns deportados se afogaram. 

Cruz aproveitou a oportunidade para dizer que seu pai “entrou legalmente vindo de Cuba”. É realmente uma história muito complicada, mas o importante foi que Cruz falou do pai imigrante. É a norma, nesses debates, que todos os que não são Bush ou Trump tentem introduzir alguns detalhes a respeito de suas origens humildes. O avô de Kasich teve uma doença pulmonar provocada pelo trabalho.

Trump e Bush se enrolaram na questão do envolvimento americano no Oriente Médio. Trump citou um general que não identificou, que disse: “Sabe, sr. Trump? Estamos dando centenas de milhões de dólares em equipamentos a esse pessoal e nem temos ideia de quem são”. No mundo de Donald, todo general o chama “sr. Trump”. 

Ao mesmo tempo, Carson disse que os Estados Unidos precisam fazer com que os jihadistas globais “pareçam derrotados”, recuperando um enorme campo petrolífero por eles controlado no Iraque. “Acho que nós poderíamos fazer isso com certa facilidade. Soube disso conversando com vários generais, e então a gente começaria dali.” 

Quem ganhou? É difícil imaginar se os eleitores que ficaram do lado de Trump ou de Carson todo esse tempo se sentiriam desencorajados por alguma coisa a esta altura. Muitos especialistas acham que Cruz e Rubio se saíram bem. Na minha opinião, só se vocês gostarem de programas econômicos sem lógica e de visões aterradoras sobre política externa. Acho que Jeb ficou animado. Depois do debate, enviou e-mails solicitando outra doação. “Mantenham vivo o ímpeto”./ TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA 

GAIL COLLINS É COLUNISTA DO THE NEW YORK TIMES

Tudo o que sabemos sobre:
Donald TrumpEstados Unidos

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.