"Pior seria sem o fast track", diz diretor da OMC

Apesar de todo o debate no Brasil sobre os efeitos negativos da aprovação do fast track nos Estados Unidos para as negociações comerciais, o diretor da Organização Mundial do Comércio (OMC), Mike Moore alerta: "Pior seria se a autorização não tivesse sido aprovada". O fast track é a autorização que o Congresso norte-americano confere ao governo Bush para negociar acordos comerciais com outros países, inclusive a rodada da OMC, lançada há três semanas em Doha. Sua aprovação, porém, veio recheada de condicionantes e exige, no caso da liberalização do comércio de produtos têxteis e agrícolas, que o Congresso norte-americano seja novamente consultado. Na avaliação do diretor da OMC, o governo Bush fez um grande esforço para conseguir a aprovação do fast track. "O presidente Bush e o representante de comércio dos Estados Unidos, Robert Zoellick, mostraram liderança. No final, eles saíram vencedores", afirmou Moore. O temor entre os funcionários da OMC era de que, sem a autorização, as negociações em Genebra em 2002 fossem interrompidas antes mesmo de começarem. Mas o que deixou os negociadores dos países em desenvolvimento frustrados foi a diferença entre o discurso do governo Bush em Doha, pregando o multilateralismo e a necessidade de lançar negociações, e o resultado da autorização do Congresso norte-americano, que parece indicar que o protecionismo será mantido ainda por alguns anos. Durante a semana, diplomatas se perguntavam em Genebra qual era o real valor do voto de um governo pequeno na OMC diante do poder do voto de um deputado dos Estados Unidos, que poderia simplesmente determinar o futuro das negociações comerciais internacionais, principalmente no setor agrícola. Para Moore, porém, a aprovação apertada do fast track na Câmara dos Estados Unidos é uma demonstração de que as negociações dentro de um país podem ser mais difíceis que as negociações entre governos no cenário internacional. "Antes, os congressos nacionais não davam tanta atenção ao comércio, mas o cenário político mudou nos últimos anos", afirma o diretor da OMC. A cada dia cresce o temor entre os países em desenvolvimento de que as economias centrais - Estados Unidos, Europa, Canadá e Japão - estariam costurando uma estratégia para retardar qualquer tipo de abertura no setor agrícola. Nesse cenário, o modelo de fast track aprovado nos Estados Unidos convêm a todos os países protecionistas. Moore, porém, se recusou a comentar os efeitos que o fast-track teria para as negociações agrícolas na OMC, que começam em janeiro. "Não cabe a mim comentar uma decisão interna de um país", afirmou. Ele reconheceu, porém, que os países não deixarão de defender seus interesses nacionais.

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