Pirataria mancha a festa russa do AK-47

No 60.º aniversário do fuzil automático mais difundido no mundo, Rússia reclama da proliferação de cópias estrangeiras

C. J. Chivers, do The New York Times, O Estadao de S.Paulo

07 Julho 2029 | 00h00

O fuzil automático Kalashnikov, arma de fogo mais abundante do mundo, está completando 60 anos. Em alguns lugares, o aniversário causa arrepios. Na Rússia, é motivo para celebrar - e oportunidade para reclamar. Outrora produtos estritamente comunistas, o AK-47 e seus derivados são ferramentas de matar tão duráveis e fáceis de usar que foram proclamados façanhas do socialismo e do poderio industrial do Estado. Livres da lei da oferta e da procura graças a sua origem em economias planejadas, dezenas de milhões desses fuzis saíram das fábricas para tornar-se instrumentos de defesa nacional e política externa da União Soviética e aliados. Mas o aniversário de 60 anos mostra a variação do papel do fuzil no mercado e também na mente do Kremlin. Hoje, o Kalashnikov é visto por lentes capitalistas e discutido de maneiras que seus criadores comunistas não poderiam imaginar. Na Rússia ávida por dinheiro, Kalashnikov é hoje uma marca informal. E enquanto as compras de fuzis Kalashnikov e seus derivados continuam nos mercados estrangeiros, fabricantes e exportadores de armas russos preocupam-se não com ideologia e domínio mundial, mas com oportunidades de venda perdidas. A história por trás disso é ao mesmo tempo estranha e previsível. A revolta russa é contra os EUA, potenciais fregueses que se tornaram, mais uma vez, grandes distribuidores, entregando as armas a policiais e soldados do Afeganistão e do Iraque. Os EUA também foram grandes compradores nos anos 80, quando forneceram Kalashnikovs - na maioria chineses e egípcios - aos insurgentes anti-soviéticos no Afeganistão. Ao retornar ao mercado dos Kalashnikovs, o Pentágono evitou comprar da Rússia, optando por imitações do AK-47 disponíveis para venda ou doação em estoques de outros países (o verdadeiro AK-47 teve vida curta e foi rapidamente modificado; suas muitas variantes, na maioria criadas com ajuda da União Soviética, são chamadas incorretamente de AK-47, apelido hoje universal). IMITAÇÕES No Afeganistão, os EUA escolheram o AMD-65 - cópia húngara do Kalashnikov com cano curto, empunhadura dianteira e boca futurista - como a arma padrão da polícia. A maior parte dos 55.600 fuzis previstos chegou via programas americanos de vendas militares no exterior. Outras 10 mil imitações foram transferidas da Eslovênia para o Afeganistão em 2006. De modo similar, no Iraque (que já teve sua própria fábrica de Kalashnikovs, construída com ajuda comunista), os EUA reuniram ou compraram mais de 185 mil fuzis e metralhadoras leves estilo Kalashnikov para as forças de segurança do país de 2003 a 2006. Os americanos fizeram isso sem comprar uma única arma da Rússia - que, como criadora do projeto básico compartilhado por todos os Kalashnikovs automáticos, considera-se proprietária de uma marca global. Essas transferências alarmam e irritam autoridades e comerciantes de armas russos e dividem as celebrações do 60º aniversário do AK-47 entre festas e reivindicações rancorosas. Com eventos que começaram neste mês e continuarão em agosto, o Kremlin e sua agência de exportação de armas festejam a família de produtos e também o homem que a criou, Mikhail T. Kalashnikov, de 87 anos. O próprio Kalashnikov mostra insatisfação com a proliferação sem nenhum lucro para os russos. "Seguro os fuzis nas mãos e - meu Deus - as marcas são estrangeiras!", disse ele, referindo-se às imitações que a União Soviética outrora promoveu. "Eles são parecidos, mas, quanto à confiabilidade e durabilidade, não correspondem ao alto padrão de nossas forças." Sem essas controvérsias, a celebração poderia ter um ar familiar. O AK-47 e seus derivados são comuns nos campos de batalha e na iconografia revolucionária soviética há duas gerações. Todos os revolucionários comunistas dignos do nome e até os aliados de conveniência, de Fidel Castro a Yasser Arafat e Idi Amin, já tiveram seus estoques de Kalashnikovs e posaram com os fuzis. Dependendo do ponto de vista, os fuzis são fiéis companheiros dos revolucionários ou instrumentos letais de mercenários, terroristas e criminosos. Em celebrações neste mês na Rússia, oradores escolhidos a dedo pelo Kremlin ficaram com a primeira alternativa. "Em nome de todos os meus irmãos que morreram na guerra antiamericana para libertar nosso país, agradeço-lhe por ter inventado esta arma", afirmou o adido militar do Vietnã, coronel To Xuan Hue, dirigindo-se a Kalashnikov numa cerimônia. A indústria de armas insiste que as fábricas outrora patrocinadas pelo Kremlin que hoje ficam em países soberanos pós-URSS não têm direito de produzir ou vender itens de projeto soviético. "Mais de 30 empresas estrangeiras privadas e estatais continuam a fabricar e copiar armas de pequeno porte ilegalmente", disse Serguei Chemezov, ex-agente da KGB que dirige a Rosoboronexport, a estatal de venda de armas. "Elas minam a reputação do Kalashnikov."

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