Planejando o uso da força para as guerras atuais

Novos conflitos implicam envolvimento de mais tecnologias e impacto na sociedade civil

JOSEPH S., NYE, PROJECT SYNDICATE, O Estado de S.Paulo

08 de fevereiro de 2015 | 02h04

Na reunião anual do Fórum Econômico Mundial, em Davos, participei de um painel de líderes de defesa para discutir o futuro dos militares. A questão que abordamos é crucial: para que tipo de guerra os militares de hoje deveriam se preparar?

Os governos têm um currículo muito fraco quando se trata de responder a esta pergunta. Depois da Guerra do Vietnã, por exemplo, as Forças Armadas dos Estados Unidos apagaram o que haviam aprendido sobre contrainsurgência, para redescobri-la da maneira mais dura no Iraque e no Afeganistão.

As intervenções militares dos EUA nestes países exemplificam outro desafio-chave da guerra moderna. Como disse o secretário de Defesa americano Chuck Hagel numa entrevista recente, na guerra, "as coisas podem ficar fora de controle, ficar à deriva e desviadas" de um modo que pode levar os militares a caírem num uso da força mais "acelerado" do que fora inicialmente previsto.

Contra esse pano de fundo, a noção de que a força pode transformar sociedades conflagradas no Oriente Médio e outros lugares é uma perigosa falácia. No entanto, embora guerra e uso da força possam estar em queda, elas não desapareceram. Estão evoluindo seguindo uma nova "geração" de regras e táticas.

A primeira geração da guerra moderna envolveu batalhas travadas com efetivos em massa, usando formações napoleônicas em linha e coluna. A segunda, que culminou na 1.ª Guerra, foi impelida pelo poder de fogo maciço, e é expressa pela máxima, ao que se sabe cunhada na Batalha de Verdun em 1916, "artilharia conquista, infantaria ocupa". E a terceira geração - aperfeiçoada pela Alemanha com o método "blitzkrieg" empregado na 2.ª Guerra - privilegiou a manobra à força, com os militares usando a infiltração para contornar o inimigo e anular sua força a partir da retaguarda em vez de atacá-lo frontalmente.

A guerra da quarta geração leva essa abordagem descentralizada a um passo além por não possuir um front definível. Ela se concentra na sociedade do inimigo, penetrando fundo em seu território para destruir sua vontade política. Seria possível até acrescentar uma quinta geração, em que tecnologias como drones e táticas de ciberataque permitem que soldados permaneçam num continente distante de seus alvos civis.

Apesar de os contornos de geração serem um tanto arbitrários, eles refletem uma tendência importante: a confusão do front militar com a retaguarda civil. Acelerando essa mudança está a substituição da guerra entre Estados por conflitos armados envolvendo atores como grupos insurgentes, redes terroristas, milícias e organizações criminosas.

Para confundir ainda mais as coisas, existe uma superposição desses grupos, e alguns recebem até apoio estatal. As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Fac), grupo guerrilheiro mais antigo da América Latina, fizeram alianças com cartéis do narcotráfico. Alguns grupos do Taleban no Afeganistão e outros lugares desenvolveram laços estreitos com terroristas da Al-Qaeda. Os insurgentes do leste da Ucrânia estão lutando ao lado de tropas russas.

Essas organizações muitas vezes se aproveitam de Estados sem legitimidade ou capacidade de administrar efetivamente seu próprio território, lançando um misto de operações políticas e armadas que, com o tempo, lhes conferem o controle coercitivo sobre populações locais. O resultado é o que o general Sir Rupert Smith, um ex-comandante britânico na Irlanda do Norte e nos Bálcãs, chamou de "guerra em meio à população" - um tipo de luta que raramente é decidida em campos de batalha convencionais por exércitos tradicionais.

Essas guerras híbridas são travadas com uma ampla variedade de armas. Com câmeras em cada telefone celular e software de edição de fotos em cada computador, a batalha da informação se tornou um aspecto crucial da guerra moderna, como mostram os confrontos na Síria e na Ucrânia.

Numa guerra híbrida, forças convencionais e não convencionais, combatentes e civis, destruição física e manipulação da informação ficaram totalmente entrelaçados. No Líbano, em 2006, o Hezbollah combateu Israel com células bem treinadas que combinavam propaganda, tática militar convencional e foguetes lançados de áreas civis densamente povoadas. Recentemente, o Hamas e Israel conduziram operações aéreas e terrestres numa Faixa de Gaza densamente povoada.

Esse tipo de guerra surgiu em grande parte em resposta à vantagem militar convencional avassaladora dos EUA após o colapso da União Soviética, evidenciada por sua vitória na Guerra do Iraque de 1991, com apenas 148 baixas americanas, e sua intervenção no conflito de 1999 no Kosovo, em que nenhuma vida americana foi perdida.

Em razão dessa assimetria, os adversários dos EUA começaram a enfatizar táticas não convencionais. Na China, planejadores militares desenvolveram uma estratégia de "guerra irrestrita" que combina ferramentas eletrônicas, diplomáticas, virtuais, econômicas, apoio a terroristas e propaganda para enganar e exaurir sistemas americanos. Como se expressou um oficial militar chinês, "a primeira regra de uma guerra irrestrita é que não há regras".

De sua parte, os grupos terroristas, reconhecendo que não podem derrotar uma força militar convencional numa guerra direta, tentam usar o poder dos próprios governos contra eles. Com teatralidade violenta, Osama bin Laden ultrajou e provocou os EUA, levando-os a reagirem com excesso de um modo que destruiu sua credibilidade, enfraqueceu suas alianças no mundo muçulmano, e, por fim, esgotou seus militares - e, em certo sentido, sua sociedade.

Hoje, o Estado Islâmico (EI) emprega uma estratégia similar, combinando operações militares implacáveis com uma campanha na mídia social, pontuada por fotos e vídeos de execuções brutais, incluindo a decapitação de cidadãos americanos e de outros países ocidentais. Esses esforços mobilizaram os inimigos do EI, ao mesmo tempo em que inspiraram um número crescente de indivíduos e grupos a se alinhar sob sua bandeira.

A evolução imprevisível da guerra coloca sérios desafios aos planejadores de defesa. Para Estados fracos, ameaças internas fornecem objetivos claros. Os EUA, por sua vez, precisam equilibrar um apoio contínuo a suas forças militares convencionais, que continuam sendo um importante elemento de dissuasão na Ásia e na Europa. Numa época de transformações sem precedentes, os EUA - e outras potências - precisam estar prontos para tudo. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É CIENTISTA POLÍTICO E PROFESSOR DA UNIVERSIDADE HARVARD

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