Plano de Annan é 'última chance' síria, diz Rússia

Medvedev diz que missão Annan para evitar uma guerra civil tem seu 'total apoio' e promete ajuda 'em qualquer instância'; mais 21 morrem na Síria

MOSCOU, O Estado de S.Paulo

26 Março 2012 | 03h04

Em visita ontem à Rússia, o enviado da ONU e da Liga Árabe para a Síria, Kofi Annan, recebeu um sinal positivo do Kremlin, principal aliado de Damasco no Conselho de Segurança das Nações Unidas. O presidente russo, Dmitri Medvedev, afirmou que Moscou dá "apoio total" à iniciativa do emissário da ONU. "A missão Annan pode ser a última oportunidade para impedir uma guerra civil prolongada", disse o presidente.

O encontro ocorreu em meio a mais violência na Síria. Segundo grupos locais de oposição, pelo menos 21 pessoas morreram em confrontos em várias cidades. A violência deixou mais de 8 mil sírios mortos em um ano, segundo cálculos da ONU.

O ex-secretário-geral das Nações Unidas já havia conseguido apoio russo em Nova York na semana passada, quando o Conselho de Segurança da ONU emitiu uma declaração presidencial em favor do plano de seis pontos que ele havia traçado. Embora tenha peso inferior ao de uma resolução, a declaração foi um primeiro sinal de unidade no conselho - dividido entre ocidentais críticos ao ditador Bashar Assad, de um lado, e Rússia e China, contrários à ingerência externa na Síria, de outro.

Annan viajou à Rússia para avaliar até que ponto a potência está disposta a pressionar seu histórico aliado árabe a cessar a violência, permitir a entrada de ajuda humanitária e iniciar um diálogo político com a oposição. Medvedev voltou a falar sobre a necessidade de uma transição política, mas defendeu que é o apoio militar de países ocidentais e árabes à oposição sírio o maior empecilho para o início do diálogo.

Após alertar para o risco de a missão Annan ser "a última chance" para deter uma guerra civil, o presidente russo prometeu encampar a iniciativa do emissário internacional.

"Esperamos de verdade que seu trabalho termine com um resultado positivo", disse Medvedev. "Ofereceremos nosso total apoio em qualquer instância e de diversas formas nas áreas em que a Rússia puder ajudar", completou.

"A Síria tem uma oportunidade hoje de trabalhar comigo nesse processo de mediação para por um fim ao conflito, aos combates, permitir o acesso aos que precisam de ajuda humanitária e lançar um processo político que levará a uma solução pacífica", afirmou Annan após o encontro em Moscou.

A Rússia indicou que é preciso dar mais tempo à missão do enviado da Liga Árabe e da ONU antes de o Conselho de Segurança tomar novas medidas. A declaração presidencial da semana passada previa "passos adicionais" caso Damasco não aceitasse a mediação de Annan.

O vice-chanceler russo, Gennady Gatilov, disse que "não há prazos" para a volta do tema ao órgão máximo da ONU. "Devemos ver como a situação evolui", afirmou à agência russa Interfax. Ao lado da China, a Rússia vetou no mês passado uma resolução do Conselho de Segurança da ONU condenando o regime Assad.

Ontem, o presidente dos EUA,Barack Obama, e o primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, discutiram em Seul formas para enviar apoio não militar à oposição síria. Representantes de dezenas de países estão na capital da Coreia do Sul para participar de uma cúpula sobre proliferação nuclear, que tem início hoje.

Mais violência. Na Síria, os confrontos deixaram 10 civis e 11 militares leais a Damasco mortos, segundo grupos locais de oposição. A ONG Human Rights Watch acusou o regime Assad de ter usado escudos humanos na Província de Idlib no início do mês passado.

"As forças do governo sírio colocaram em perigo moradores ao obrigá-los a marchar diante do Exército durante operações de detenção, movimentação de tropas e ataques a cidades no norte da Síria", acusou a organização com sede nos EUA.

Opositores sírios afirmam que forças de Assad voltaram a atacar Deraa, cidade no sul do país onde teve início a onda de distúrbios. Um dos porta-vozes do Exército Sírio Livre, Muneef al-Zaeem, afirmou que tropas de Damasco invadiram a cidade de Nawa, de 100 mil habitantes, perto da fronteira com o Líbano.

No sábado, forças de Assad haviam voltado a atacar Homs, que ficou sitiada por cerca de três semanas consecutivas. / AP

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