Plano de cortes em estatais de Cuba patina

Não há oferta suficiente de empregos na ilha fora do setor público, que prevê demissão de 1,5 milhão

LISANDRA PARAGUASSU, ENVIADA ESPECIAL / HAVANA, O Estado de S.Paulo

30 de janeiro de 2012 | 03h03

De um lado, um governo que emprega mais de 80% da força de trabalho. De outro, um mercado de trabalho privado ainda em seus primeiros passos, castigado por restrições e impostos. No meio, uma população que, mesmo empregada, mal ganha para sobreviver. Que sem o emprego público, não tem para onde ir. Essa é razão para o fracasso do ambicioso plano de modernização das empresas públicas do governo cubano, anunciado em 2010.

A demissão de 1 milhão a 1,5 milhão de pessoas até 2016 esbarrou na realidade da própria ilha: não há outros empregos.

No ano passado, da meta de dispensar 500 mil trabalhadores estatais, apenas 130 mil pessoas teriam saído, de acordo com números não confirmados pelo governo cubano. A revolta de funcionários ameaçados de demissão, com protestos e tentativas de greves - mesmo essas sendo proibidas em Cuba - levaram a um recuo, ainda que temporário. Este ano, a promessa é de afastar mais 170 mil pessoas. O pequeno mercado privado, em quem o presidente Raúl Castro colocou a esperança de absorver os dispensados, mal consegue dar conta dos proprietários e suas famílias.

"Na década de 70, para vender a ideia do pleno emprego, o governo contratou todo mundo. Colocou 20, 30 pessoas para fazer o trabalho de 10. Hoje, tem esse problema nas mãos. Nesse passo, nunca vai resolvê-lo", avalia o economista dissidente Oscar Espinosa. "Ao mesmo tempo, não há portas de saída. Como se vai tirar 500 mil pessoas em um ano?".

Rodolfo Fariña Sanchez, 41 anos, sabe que não há trabalho. Assistente de neurocirurgia no hospital universitário Calixto Garcia, um dos maiores de Havana, foi dispensado há sete meses. Esteve lá por quatro anos, depois de estudar para ser assistente de enfermagem enquanto trabalhava na construção civil. "Era um dos últimos contratados e essa foi a opção deles, demitir quem tinha menos tempo", conta. Ao contrário do que garantiu o governo cubano, de que daria parte do salário dos demitidos por três meses e realocaria funcionários em áreas onde houvesse maior necessidade, Rodolfo diz que não recebeu nada além de um "até logo, boa sorte".

Diferentemente de boa parte dos seus conterrâneos, que teme criticar ou reclamar abertamente do governo, ele não se constrange: "Pode por aí: sou desempregado. Graças ao governo". Vivendo de bicos e da ajuda da mulher, Claudia, que dá aulas de salsa para crianças e turistas, Rodolfo também deixa transparecer a conformidade de quem nasceu e cresceu sob a tutela do Estado. Perguntado sobre o que vai fazer, responde: "Esperar que o governo faça alguma coisa. O que mais posso fazer?"

O inchaço da máquina pública emperra a produção, aumenta os gastos e diminui a capacidade do próprio governo de fazer investimentos, mesmo que os salários médios em Cuba estejam em torno de US$ 20 mensais.

"Raúl (Castro) tem boas ideias, é mais prático. Liberar os trabalhadores por conta própria foi uma boa medida. Mas, são impostas tantas limitações que não há como eles crescerem para absorver esses demitidos", diz Espinosa. "Não há, por exemplo, um mercado atacadista. Os restaurantes precisam comprar seus insumos no mesmo lugar que todos, ao mesmo custo e com as mesmas limitações".

Outro problema, afirma o economista, é que, apesar da liberação de contratação de funcionários pelas pequenas empresas - antes, apenas familiares podiam trabalhar - quando o número de contratados cresce um pouco mais os impostos pagos chegam a dobrar o que se paga de salários. "Não se incentiva o crescimento. São empresas-bonsai, apenas de sobrevivência", afirma.

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