Beatriz Bulla/Estadão
Beatriz Bulla/Estadão

Plano de deportação de Trump deve jogar 300 mil imigrantes na ilegalidade

Cidadãos de cinco países que entraram legalmente nos EUA graças a visto de permanência especial em função de desastres naturais projetam a vida na clandestinidade; a maioria prefere recorrer a subempregos a abandonar os filhos

Beatriz Bulla, Correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

02 Setembro 2018 | 05h00

WASHINGTON - Em 2017, o presidente americano, Donald Trump, anunciou que não renovaria o visto especial de permanência a cidadãos de cinco países. A ideia era se livrar de 300 mil imigrantes que vivem legalmente nos EUA graças a um benefício humanitário criado nos anos 90, mas a decisão terá efeito indesejado. A maioria se prepara para entrar na clandestinidade. Aceitará salários menores para evitar a separação de filhos americanos.

O Status de Proteção Temporária (TPS, na sigla em inglês) é um mecanismo criado pelo Congresso para amparar imigrantes que, em razão de desastres naturais ou de conflitos armados, não podem retornar em segurança a seus países. Aos hondurenhos, por exemplo, foi concedido após o furacão Mitch, em 1999. Aos salvadorenhos, em 2001, após dois terremotos. 

A autorização sempre foi renovada pelo governo, até que Donald Trump chegou à Casa Branca. O presidente acabou com o TPS para imigrantes de El Salvador, Honduras, Nicarágua, Haiti e Sudão – e deu prazo para que eles deixem os EUA. O argumento é que os efeitos da tragédia já passaram. Permanecem com direito ao benefício os cidadãos de Síria, Nepal, Somália, Sudão do Sul e Iêmen. Por enquanto.

A decisão de não renovar o TPS de países da América Central ignorou avisos da diplomacia americana. Na última semana, documentos foram incorporados a um processo judicial que tenta derrubar a decisão de Trump. 

Em julho, uma juíza federal de Boston permitiu a continuidade de uma ação que argumenta que o governo usou razões discriminatórias contra latinos e negros para revogar a permanência temporária dos imigrantes. A Casa Branca ainda tenta interromper o andamento do caso.

Em Washington, o salvadorenho Nelsy Umanzor lembra de quando cruzou o Deserto do Arizona para chegar aos EUA, há mais de 17 anos, em busca do benefício. Quando conseguiu o TPS, ele trouxe o filho, que vivia com a avó. Nos EUA, teve outras três crianças com a mulher, Rosa – todos cidadãos americanos.

Até setembro de 2019, ele e Rosa terão duas opções: ficar ilegalmente ou voltar para El Salvador. Se voltarem, precisam decidir o que fazer com as crianças. O mais novo é Isaías, de 7 anos, que se sente mais confortável conversando em inglês do que em espanhol. 

“Vamos ficar aqui, mas vamos voltar às sombras”, diz Nelsey.

O emprego na limpeza de um hotel ele sabe que perderá, mas diz que não pode deixar para trás os filhos. “Meus filhos mais velhos podem ficar e trabalhar. Mas os mais novos dependem de nós. Estamos há mais tempo aqui do que em nossos países.” El Salvador é o país com a maior comunidade de imigrantes com TPS. São 195 mil – 30 mil apenas na capital americana. 

Também salvadorenho, Luis Alvarez sempre trabalhou legalmente nos EUA. Ele exibe sua carteirinha de permanência, que carrega todos os dias no bolso da calça. Foi ela quem permitiu que ele trabalhasse na lanchonete do Capitólio. O documento, contudo, tem data de expiração: 9 de setembro de 2019. Ele também pretende ficar, mesmo sob risco de deportação.

As maiores comunidades com o chamado TPS são as de salvadorenhos e hondurenhos. Os primeiros a sair, pelo novo cronograma do governo americano, serão os sudaneses, que a partir de novembro deste ano já não terão mais a permissão de permanência. A partir daí, comunidades da Nicarágua, Haiti, El Salvador e Honduras, nesta ordem, ficarão sem o registro em datas que vão de janeiro de 2019 a janeiro de 2020. 

“A Casa Branca queria a revogação da permissão, não por causa da situação desses países na América Central, mas pelos próprios interesses políticos”, disse Geoff Thale, da organização Washington Office on Latin America (Wola). Segundo ele, mesmo aqueles que forem obrigados a ir embora, se não forem incorporados à economia local, tentarão voltar aos Estados Unidos de forma ilegal. 

Na maioria dos casos, Thale acredita que o efeito será “devastador” para as famílias que passarem à ilegalidade. “Eles irão do mercado legal para os trabalhos informais, serão mais mal remunerados, estarão menos aptos a sustentar suas famílias”, afirma.

Donald Kerwin, diretor do Centro para Estudos Migratórios, de Nova York, também critica a nova política do governo americano. “Não se trata só da ideia de construir um muro para impedir a imigração ilegal. Isso era o candidato Trump. Como presidente, o que ele tem feito é desmontar programas de imigração legal”, afirma. “O governo americano tem as informações dessas pessoas, porque obviamente esteve atualizando esses dados ao longo dos anos”, conclui Kerwin.

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