Jaafar Ashtiyeh / AFP
Jaafar Ashtiyeh / AFP

Plano de Israel para anexar Cisjordânia chega a fase decisiva com ameaça de guerra

Grupo palestino Hamas diz que a ocupação do território será entendida como uma declaração de guerra por parte do governo de Binyamin Netanyahu

Redação, O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2020 | 14h27

As negociações se intensificam a poucos dias do fim do prazo para o polêmico projeto israelense de anexar zonas da Cisjordânia ocupada, o que pode levar a questão palestina novamente ao centro dos debates internacionais. Enquanto o governo de Binyamin Netanyahu luta para implantar o plano de Donald Trump para o Oriente Médio, o grupo palestino Hamas diz que a ocupação do território será entendida como uma declaração de guerra.

De acordo com os termos do acordo para a formação de um governo de união com o antigo rival Benny Gantz, Netanyahu, pode anunciar a partir de 1º de julho sua estratégia para executar o plano, que prevê a anexação por parte de Israel do Vale do Jordão, uma ampla faixa de terra muito fértil, e de mais de 100 colônias judaicas na Cisjordânia ocupada, além da criação de um Estado palestino em um território reduzido que não teria Jerusalém Oriental como capital, como exigem os palestinos.

Para Netanyahu, o plano de Trump oferece a "oportunidade histórica" de fazer valer a "soberania" de Israel em áreas da "Judeia-Samaria", nome bíblico que Israel usa para identificar a Cisjordânia. Para concretizar o objetivo, Netanyahu tem apenas alguns meses, pois a reeleição de seu principal aliado, Trump, não está assegurada nos Estados Unidos, de acordo com analistas.

A anexação de partes da Cisjordânia, contudo, não é aceita pelos palestinos. O grupo armado Hamas advertiu nesta quinta-feira, 25, que a ocupação da região por Israel será entendida como uma declaração de Guerra. "A resistência considera a anexação da Cisjordânia e do Vale do Rio Jordão como uma declaração de guerra contra nosso povo e faremos todo o possível para que o inimigo se arrependa", disse o porta-voz do grupo Abu Obaida.

O plano também conta com as divisões na União Europeia (UE), principal sócio econômico de Israel, sobre possíveis sanções e uma reduzida mobilização da população palestina contra o projeto até o momento.

O plano sofreu um revés importante na quarta-feira, quando foi rejeitado por toda comunidade internacional, exceto os Estados Unidos, no Conselho de Segurança da ONU. Foi considerado um projeto que pode "acabar com os esforços internacionais a favor da criação de um Estado palestino viável".

"Para Netanyahu, trata-se de engolir o elefante. A questão é saber o tamanho do pedaço que vai engolir, ou seja, quais serão os territórios anexados", disse um diplomata ocidental que acompanha de perto o tema delicado.

Nas últimas semanas, Netanyahu, o primeiro-ministro israelense que passou mais tempo no cargo desde a criação do Estado, intensificou a agenda de encontros com os representantes dos mais de 450.000 colonos que moram nos assentamentos da Cisjordânia, região onde vivem mais 2,8 milhões de palestinos. A questão é por onde começar e até onde ir.

Em um cenário maximalista, Israel anexaria tanto as colônias como o Vale do Jordão. Em um cenário minimalista, começaria pela anexação de colônias, ou por grandes blocos de colônias da Cisjordânia, como Maaleh Adumim, Gush Etzion, ou Ariel.

"A amplitude da anexação terá, sem dúvida, um impacto na intensidade da reação internacional", afirma Nimrod Goren, fundador do Mitiv, instituto de pesquisas sobre o Oriente Médio e professor da Universidade Hebraica de Jerusalém.

No lado palestino, "um recrudescimento da violência na Faixa de Gaza, ou na Cisjordânia, faria com que outros países intensificassem sua resposta e talvez se envolvessem mais", completa.

Durante os últimos anos, as "Primaveras Árabes", a emergência do grupo extremista Estado Islâmico (EI) e o aumento da influência do Irã em nível regional contribuíram para deixar o conflito israelense-palestino em segundo plano entre as prioridades do Oriente Médio.

Ao mesmo tempo, Israel, que oficialmente tem relações apenas com dois países árabes - Egito e Jordânia - busca estabelecer contatos com os países do Golfo, em particular, com os Emirados Árabes Unidos.

Além da reação das potências regionais e de possíveis medidas de represália dos países europeus, Netanyahu precisa calibrar bem o apoio dos Estados Unidos a uma medida unilateral, já que o plano de Trump prevê uma anexação após negociações.

Seu aliado no governo de união, Benny Gantz, ex-comandante do Exército, advertiu que afetará as relações com a vizinha Jordânia. O reino classificou a anexação de "ameaça sem precedentes para o processo de paz" e que pode levar o Oriente Médio a um "longo e doloroso" conflito.

Em plena crise econômica provocada pela pandemia de COVID-19, o apoio à anexação perdeu força entre a opinião pública israelense e está abaixo de 50%, devido ao temor de uma nova onda de violência.

Cisjordânia ocupada em números

A Cisjordânia é um território palestino ocupado desde 1967 por Israel, que deseja anexar definitivamente certas partes. A partir de 1º de julho, o governo israelense deve apresentar sua estratégia para implementar o plano dos EUA para o Oriente Médio, o qual inclui esta anexação.

População: Localizada no leste de Israel e no oeste da Jordânia, a Cisjordânia é um território de 5.655 km2, o equivalente a 1% da superfície da França. Até o momento, mais de 2,8 milhões de palestinos vivem neste território, onde mais de 450.000 israelenses também vivem em assentamentos considerados ilegais pelo direito internacional.

Segundo dados reunidos pela organização israelense "Peace Now", o número de unidades habitacionais aprovadas nos assentamentos israelenses quase dobrou (+ 90%) desde que Donald Trump, um fervoroso defensor de Israel, tornou-se presidente dos Estados Unidos. 

A maioria das quase 130 colônias israelenses formam um tipo de rosário ligado por estradas em áreas sob controle militar de Israel. Segundo dados do governo israelense e de ONGs, cerca de 10.000 dos 450.000 colonos israelenses que vivem na Cisjordânia residem no vale do Jordão. Pelo menos 65.000 palestinos vivem nessa área, incluindo a cidade de Jericó (com 20.000 habitantes), segundo a organização anticolonialista israelense B'Tselem.

Zonas: Conforme os Acordos de Oslo, assinados nos anos 1990 por israelenses e palestinos, a Cisjordânia está dividida em três setores: A, B e C. A zona C, sob controle exclusivamente israelense, constitui em torno de 60% do território. Os assentamentos e o vale do Jordão - uma área de terras agrícolas que representa quase 30% da Cisjordânia e que Israel deseja anexar - estão nessa área C. A Autoridade Palestina exerce poder sobre os 40% restantes da Cisjordânia, que consistem principalmente em centros urbanos.

Economia: Segundo o Banco Mundial, a taxa de pobreza na Cisjordânia está em torno de 14%. A taxa de desemprego foi de 16% em 2018, de acordo com dados do Coordenador Especial das Nações Unidas para o Processo de Paz do Oriente Médio (UNSCO).

Cerca de 120.000 palestinos trabalhavam diariamente em Israel, ou em assentamentos israelenses na Cisjordânia, antes da pandemia da covid-19. O salário médio por dia no setor privado na Cisjordânia é de cerca de 118 shekels (US$ 34,5), em comparação com 237,5 shekels (US$ 69) em assentamentos de Israel e em Israel, ainda conforme o UNSCO. /AFP

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