Alex Wong/AFP
Alex Wong/AFP

Plano de Obama para Afeganistão desagrada a generais e congressistas

Parlamentares democratas e republicanos, além da maioria do comando militar de Washington, discordam do ritmo com que a Casa Branca pretende reduzir sua presença; 'falcões' querem manter envolvimento, 'liberais' exigem retirada mais ágil

Denise Chrispim Marin, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2011 | 00h00

Menos de um dia depois de anunciar a retirada de 33 mil soldados americanos do Afeganistão, o presidente dos EUA, Barack Obama, foi atacado ontem por congressistas de seu partido e da oposição e sofreu uma crítica de seu principal assessor militar. O almirante Mike Mullen, comandante das forças conjuntas dos EUA, disse que e a decisão foi "mais agressiva" do que o esperado e deve "impor mais riscos" às forças no Afeganistão.

Em depoimento no Congresso, Mullen indicou que os EUA estão apenas na "metade" dessa guerra e não estavam preparados para receber tal ordem. "Nenhum comandante quer sacrificar o poder de fogo no meio da guerra e nenhuma decisão que demande tal sacrifício é tomada sem risco", afirmou o almirante à Comissão de Serviços Militares da Câmara. "Mais forças por mais tempo, sem dúvidas, é o caminho mais seguro. Mas não é necessariamente o melhor caminho. Somente o presidente, no final das contas, pode determinar o nível aceitável de risco que devemos assumir. Eu acredito que ele fez isso", completou.

Embora Mullen tenha enfatizado o seu apoio à decisão de Obama, suas ponderações indicam a resistência dos comandantes militares à retirada dos 33 mil soldados até setembro de 2012. Além de Mullen, o comandante das forças americanas no Afeganistão, general David Petraeus, foi contra a adoção dessa fórmula durante os debates de Obama com sua equipe de Segurança Nacional. Petraeus deverá assumir em setembro o posto de diretor da Agência Central de Inteligência (CIA). Até lá, deverá se valer de seus contatos políticos para tornar a decisão presidencial mais flexível.

Segundo Mullen, a retirada "mais agressiva" trará como benefício uma pressão maior sobre o governo afegão para conduzir os esforços de combate ao Taleban e para reduzir sua dependência dos EUA. Entre os 33 mil soldados americanos a deixarem o Afeganistão até setembro de 2012, 23 mil deverão ser removidos apenas na etapa final. Para o almirante, esse fato permitirá aos EUA e demais países da coalizão ter tempo para avaliar o progresso das forças de segurança afegãs e de seu governo. Os ganhos obtidos até o momento, destacou, "não são irreversíveis".

No Senado, a secretária de Estado, Hillary Clinton, avaliou a decisão de Obama como a combinação dos ganhos recentemente obtidos no front afegão com o início gradual da retirada da mais longa guerra da história dos EUA. No entanto, ouviu críticas de partidários e da oposição à medida anunciada na noite de quarta-feira. A democrata Barbara Boxer (Califórnia) mostrou-se desapontada e criticou a retirada de apenas 10 mil soldados até o final deste ano. No Senado, a defesa da posição de Obama ficou a cargo do presidente da Comissão de Relações Exteriores, John Kerry (Massachusetts), tido como provável sucessor de Hillary em um segundo mandato de Obama.

Entre os republicanos, as críticas foram embasadas em pontos de vista opostos. O senador republicano Richard Lugar (Indiana) considerou o plano de retirada "insignificante", defendeu o abandono do objetivo de construir a nação afegã e sugeriu prioridade às ações de contraterrorismo. Sua estratégia não demandaria um grande contingente como o que os EUA mantêm no Afeganistão, de 100 mil militares. Na Câmara, o presidente da Comissão de Serviços Militares, o republicano Howard McKeon (Califórnia) ponderou que o plano de retirada poderá dar "maior alento" aos insurgentes do Taleban.

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