Photo by MANDEL NGAN / AFP
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Plano de paz de Trump com capital fora de Jerusalém irrita palestinos

Líderes árabes dizem que Abu Dis não é 'simbólica para ninguém' e é proposta é 'uma ofensa' para as aspirações nacionais dos palestinos

Isabel Kershner e David M. Halbfinger, The New York Times, O Estado de S.Paulo

06 de fevereiro de 2020 | 08h00

ABU DIS, CISJORDÂNIA - Como um monumento às esperanças frustradas, o inacabado prédio do parlamento palestino jaz inacabado em uma colina de Abu Dis, um modesto subúrbio colado em Jerusalém, na região da Cisjordânia que o plano de paz do governo de Donald Trump propôs como capital de um futuro Estado palestino.

Um símbolo das possibilidades de soberania quando sua construção se iniciou, em meados da década de 1990, o parlamento foi projetado para ter vista dos reluzentes domos do reverenciado complexo da Mesquita de Al-Aqsa, na Cidade Velha de Jerusalém, a quatro quilômetros de lá em linha reta.

Atualmente, os fundos do prédio dão para um alto muro de concreto coberto por arame farpado, uma parte da barreira de segurança erguida por Israel em 2005, que isolou Abu Dis de Jerusalém e seus locais sagrados.

Após o anúncio do plano de Trump para resolver o conflito israelo-palestino, que favoreceu fortemente Israel e negligenciou a maioria das reivindicações palestinas, foi pequena a sensação de conquista de controle palestino aqui em Abu Dis. Os palestinos rejeitaram o plano.

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Governos americanos tentaram repetidamente, ao longo de décadas, mediar um acordo de paz entre Israel e os palestinos em termos muito mais equilibrados do que os da nova proposta. Mas nada resume essa assimetria melhor do que a maneira como o estabelecimento da capital palestina é abordado.

Faz tempo que os palestinos aspiram por um Estado independente, com Jerusalém Oriental como sua capital, mas a atual proposta acaba com a noção há muito tempo sustentada de que caberia a ambos os lados negociar o futuro de Jerusalém.

Em vez disso, a proposta concede todas as partes desejáveis da cidade a Israel e propõe um grupo de áreas obscuras e periféricas como a coisa mais próxima de uma capital em Jerusalém que os palestinos poderiam obter.

A proposta oferece aos palestinos a minúscula e superpopulosa Abu Dis como capital, juntamente com bairros situados tecnicamente em Jerusalém Oriental, mas que ficam do outro lado da barreira de segurança.

Um dos povoamentos, o campo de refugiados de Shuafat, é uma favela dominada por criminosos, onde a polícia palestina não tem jurisdição e a polícia israelense teme patrulhar.

Outro local, Kufr Aqab, se tornou uma área de construções irregulares quando as políticas de Israel e o custo elevado da habitação fizeram com que árabes de classe média buscassem morar do outro lado da barreira de segurança, mas ainda dentro dos limites da municipalidade de Jerusalém.

E então há Abu Dis e suas colinas, lar da Universidade Al-Quds, inaugurada na década de 1980, quando o vilarejo ficava a apenas 10 minutos de carro do Portão de Damasco - um dos acessos à Cidade Velha de Jerusalém. A maior parte de Abu Dis nunca esteve dentro dos limites da cidade de Jerusalém.

“Como este lugar pode ser uma capital?”, perguntou incrédulo Ahmed Bader, de 25 anos. Ele chegava aos fundos do prédio do parlamento em uma pequena caminhonete, para coletar lixo.

Crianças andavam em cavalos sem sela em um beco próximo. “Jerusalém tem a Mesquita de Al-Aqsa, as igrejas, comércios, lugares para trabalhar”, continuou ele.

“O que temos aqui, em nossa pequena cidade?” Quando os palestinos dizem que querem Jerusalém como sua capital, não estão se referindo a Abu Dis, Shuafat nem Kufr Aqab.

Shuafat e Kufr Aqab são territórios que os israelenses anexaram a Jerusalém em 1967, na Guerra dos Seis Dias.

"Jerusalém é a cidade antiga e murada. O restante não é Jerusalém”, afirmou o historiador Nazmi Jubeh, que administra o Museu da Universidade Birzeit, na Cisjordânia.

“Quando nos referimos a Jerusalém, nos referimos aos locais sagrados - acho que o mundo inteiro sabe o isso significa.” Os americanos determinaram que Israel deve manter soberania em todas as regiões de Jerusalém, incluindo os ancestrais locais sagrados situados dentro da barreira de segurança construída no início dos anos 2000, após atentados suicidas de palestinos.

Pelo menos 120 mil palestinos vivem do outro lado da barreira, mas ainda dentro dos limites de Jerusalém, o que lhes confere o documento de residente na cidade, que, por sua vez, os habilita a trabalhar em Israel e viajar pelo país. Sob o plano americano, eles passariam a viver na Palestina.

A capital palestina ficaria separada das comunidades israelenses e das principais estradas. O plano de Trump promete entradas, túneis ou pontes para os palestinos. “Quem conhece essas regiões sabe que eles estão fazendo piada conosco e nossa aspiração nacional”, afirmou Jubeh. “Essas regiões não são simbólicas para ninguém.”

No campo de Shuafat, os moradores riram da ideia de sua vizinhança servir como um exemplo palestino. Muhammad Inbawi, de 30 anos, afirmou: “Isso aqui é um caos. Durante a noite, somos governados por bandidos. Que tipo de capital é esta?”. Mohammed Najib colaborou com a reportagem. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

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