Calla Kessler/The New York Times
Calla Kessler/The New York Times

Plano de paz para o Oriente Médio de Trump deve 'nascer morto', dizem analistas

Presidente dos EUA vai apresentar o que ele chama de 'Acordo do Século'; proposta é rejeitada por palestinos antes mesmo de divulgação

Redação, O Estado de S.Paulo

28 de janeiro de 2020 | 07h45

WASHINGTON - O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, vai anunciar nesta terça-feira, 27, ao lado do  primeiro-ministro interino israelense, Binyamin Netanyahu, um plano de paz para o conflito entre Israel e Palestina

A proposta é polêmica antes mesmo da divulgação dos detalhes pela Casa Branca. Os palestinos não participaram das negociações, e o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmmoud Abbas, se negou a conversar com Trump na segunda-feira, 27, sobre a proposta. 

O acordo ela deve ter apoio total de Israel. O país passará por eleições em março, mas os dois principais candidatos, Netanyahu e seu opositor, o general Benny Gantz, já conversaram com Trump e se mostraram entusiasmados com a proposta.  

Parte da expectativa em torno do plano de Trump se deve à recente decisão dos Estados Unidos em deixar de considerar os assentamentos israelenses na Cisjordânia uma violação ao direito internacional — uma reversão da política adotada em 1978, no governo de Jimmy Carter.

"Os EUA apresentarão uma proposta fora dos parâmetros do direito internacional", antecipou à Agência Efe o analista palestino Sam Bahour.

As conclusões de Bahour se baseiam nas decisões tomadas até então pela Casa Branca, como o reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel, algo que contraria, inclusive, resolução da ONU sobre o status da cidade.

Para Bahour, Trump está brincando com fogo. "O plano corre o risco de ser um elemento catastrófico que aprofundará as feridas e prejudicará o frágil equilíbrio do volátil conflito entre Israel e Palestina", afirmou.

Já o analista palestino Ziad Hamouri acha que a situação chegou ao "pior ponto" porque as autoridades da Palestina perderam influência e capacidade de liderança em relação ao mundo.

Acordo do século ou fiasco?

Desde que chegou à Casa Branca, Trump promete “o acordo do século”, que colocaria fim ao conflito. Mas a maioria dos analistas dúvida da capacidade do plano de Trump de alcançar a paz entre israelenses e palestinos.

O chamado "Acordo do Século" é, na visão do analista israelense Amir Oren, "puramente político". 

Para ele, o fato de o plano ser rejeitado por antecipação pelos palestinos, que não aceitam o governo dos Estados Unidos como único mediador, faz a ideia já nascer morta. "O plano será só um espetáculo", resumiu Oren. 

O momento de divulgação da proposta, faltando pouco mais de um mês para as novas eleições de Israel, marcadas para o próximo dia 2 de março, também atende aos interesses do próprio Trump e de Netanyahu.

Acusado de corrupção, Netanyahu tenta se manter no poder para evitar ser julgado e, inclusive, pediu imunidade ao parlamento de Israel, a Knesset.

Apesar de o plano ainda não ter sido divulgado, a imprensa de Israel afirma que a proposta de Trump aceita algumas da ala conservadora israelense, como a extensão da soberania do país sobre os assentamentos na Cisjordânia ocupada.

Oren diz não ver chances de que o acordo traga mudanças para a situação entre israelenses e palestinos, mas será um instrumento de campanha para Netanyahu, que mantém como promessa a anexação dos assentamentos na Cisjordânia ocupada.

O próprio primeiro-ministro interino deu nesta segunda-feira sinais de que vê o plano como uma aposta decisiva para as eleições de março.

"Só quero dizer que o Acordo do Século é a oportunidade do século", afirmou Netanyahu, mostrando otimismo, ao lado de Trump na Casa Branca.

Trump também se reuniu com Benny Gantz, rival político de Netanyahu, como uma mostra de que não tem intenção de interferir na política interna de Israel.

Gantz, do partido Azul e Branco, venceu por uma vantagem mínima o pleito realizado em setembro do ano passado e deve ser mais uma vez o mais votado em março, segundo as pesquisas divulgadas pela imprensa de Israel.

O favoritismo o tornou no primeiro político israelense sem cargo no governo a se reunir pessoalmente com um presidente dos EUA durante uma campanha eleitoral.

Para Oren, o acordo também é uma forma de Trump desviar a atenção do processo de impeachment aberto contra ele e agradar um setor estratégico do eleitorado republicano: os evangélicos, defensores decididos de Israel.

Palestinos ameaçam deixar Acordos de Oslo 

Os palestinos ameaçaram neste domingo se retirar dos Acordos de Oslo, que enquadram suas relações com Israel, se o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, continuar com seu plano de paz no Oriente Médio, considerado "histórico" por Israel.

Se Trump anunciar seu plano, conforme programado para terça-feira, a Organização de Libertação da Palestina (OLP) se reserva o direito de "retirar-se do acordo provisório", como é chamado, das discussões em Oslo, disse o secretário-geral da OLP, Saeb Erekat.

Segundo o acordo provisório de Oslo II de setembro de 1995, entre a OLP e Israel, a Cisjordânia estava dividida em três zonas: A, sob controle civil e de segurança palestino, B, sob controle civil palestino e de segurança israelense, e C, sob controle civil e de segurança israelense.

Este acordo provisório terminava em 1999, mas desde então foi renovado tacitamente por ambas as partes.

Para Erekat, o plano americano "transformará ocupação temporária em ocupação permanente".

O plano de paz do presidente Donald Trump para o Oriente Médio "está fadado ao fracasso", disse Ismail Haniyeh, líder do Hamas, o movimento governante na Faixa de Gaza, o pequeno enclave palestino com 2 milhões de habitantes, em comunicado.

O movimento islâmico também pediu negociações no Cairo com as outras "facções palestinas", incluindo Fatah, do presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas - que governa a Cisjordânia ocupada - para coordenar a reação ao plano dos EUA.

Logo após sua declaração, um foguete foi lançado de Gaza para Israel, de acordo com o Exército israelense, que anunciou que havia respondido. /AFP, REUTERS

 

 

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