REUTERS/Yara Nardi
REUTERS/Yara Nardi

Burocracia emperra plano de produzir máscaras na Itália e máfia começa a agir

Após prometer aumentar em 200 mil a produção de equipamentos contra covid-19, governo não tirou do papel a promessa; procuradoria teme ação da máfia e polícia detecta vendas ilegais

Redação, São Paulo

01 de abril de 2020 | 13h00

Nenhuma máscara para proteger médicos e pessoal da área de saúde foi produzida até agora pelo consórcio italiano do Sistema Moda, conforme prometido pelo governo do país. Era 24 de março quando o primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, prometera que as primeiras máscaras estariam prontas em 96 horas. Seriam fornecidas pela indústria têxtil. E, pouco a pouco, o submundo do comércio ilegal das máscaras começa a aparecer na Itália. 

A denúncia foi feita nesta quarta-feira pelo jornal La Repubblica, que acrescenta o temor de que a máfia se aposse de parte de parte da cadeia de produção dos equipamentos de proteção individual necessários para o combate à covid-19. Conte havia feito o anúncio no dia 24 ao lado de Domenico Arcuri, o comissário nomeado pelo governo para o comitê a emergência ligada à doença.


Depois de oito dias, nenhuma máscara do tipo N95 foi produzida. Em vez disso, só máscaras que seriam imitações das cirúrgicas. O comissário Arcuri havia ainda prometido que as primeiras 25 empresas do consórcio fariam 200 mil máscaras por dia, concretizando assim a  promessa feita por Conte no dia 13 de distribuir máscaras e luvas para todos os trabalhadores italianos para garantir a segurança no trabalho - a produção diária cresceria de 500 mil para 700 mil máscaras.


O governo começou a ser desmentido pelo setor da Confederação das Indústrias Italianas (Confindustria), que informou ter 250 associados do setor de moda e que nenhum deles estava preparado para passar a produzir as máscaras profissionais ou cirúrgicas. Gianfranco Di Natale, diretor de Confindustria, explicou ao La Repubblica, que as indústria estavam apenas preparadas para fazer as máscaras comuns, que serrvem apenas para andar da rua ou fazer compras.


Os problemas para cumprir a promessa do primeiro-ministro seriam ainda de ordem burocrática, pois o tipo de tecido usado nas máscaras está em falta e para substituí-lo por outro, as empresas teriam de obter uma séria de aprovações e laudos que emperraram a produção. Os certificados são dados por apenas dois laboratórios na Itália, que estão testando centenas de tipos de tecido para verificar se eles são apropriados contra a covid-19.

MÁFIAS

Enquanto isso, o submundo continua agindo. Para o procurador nacional antimafia Federico Cafiero de Raho, há um forte risco de que as máfias italianas se movam para importar máscaras e outros equipamentos de proteção individual, porque podem pagar em dinheiro vivo na China e conseguem liberar as mercadorias nas alfândegas do Leste europeu. “Graças à liquidez e à capacidade de corromper, nossas máfias são líderes internacionais. Esperamos que não consigam ter sucesso antes do Estado”, disse.


Há temores ainda sobre a qualidade do material vindo da China.  Na semana passada, autoridades holandesas encontraram defeitos em um lote de um milhão de máscaras do tipo N95, que não cobriam de maneira correta e  boca nem filtravam todo o ar. Cerca de 600 mil delas já haviam sido distribuídas aos hospitais do País e foram recolhidas. Caso semelhante aconteceu em Madri, na Espanha, onde foram verificados problemas nos testes para coronavírusa. O governo recolhdeu 8 mil hastes usadas para colher amostras nos pacientes e as devolveu à China com outras 50 mil que não haviam sido ainda distribuídas. Os testes teriam demonstrado uma precisão apenas de 30% ante 80% prometido pela empresa chinesa, a Shenzhen Bioeasy Biotechnology


Por fim, na região de Bolonha (Emília Romanha). a Guarda de Finanças – espécie de polícia do Fisco italiano – apreendeu nesta quarta-feira, dia 1º, 50 mil máscaras e 13 mil dispositivos de uso único para ventiladores respiratórios, este últimos seriam mandados à África do Sul. Já as máscaras de tipo cirúrgico eram destinadas a empresas privadas que pretendia revendê-las.


A venda desses equipamentos para o exterior foi proibido pelo governo italiano durante a crise de covid-19.  Os equipamentos foram entregues à agência de saúde da região da Emília Romanha. “É verdadeiramente ignóbil que exista quem continue, por avidez do lucro e em um momento dramático para nosso país e para o mundo, a especular com a saúde e com a vida das pessoas”, afirmou o assessor regional de saúde da região, Raffaele Donini.

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