Mark Finkenstaedt/Milken Institute
Mark Finkenstaedt/Milken Institute

'Plano de vacinação de Trump é batata quente para Biden'

Cientista brasileira diz que só primeira fase de imunização está garantida: ‘O que será depois?’

Entrevista com

Luciana Borio, cientista brasileira da força-tarefa de combate à covid de Biden

Beatriz Bulla, correspondente, O Estado de S.Paulo

12 de dezembro de 2020 | 22h00
Atualizado 14 de dezembro de 2020 | 18h19

O plano de distribuição de vacinas elaborado pelo governo de Donald Trump é insuficiente para imunizar a população americana e será uma “batata quente” deixada de herança para a equipe de Joe Biden.

A avaliação é de Luciana Borio, que integra a equipe de 13 especialistas que orientam o democrata sobre combate à pandemia. Segundo ela, os Estados não receberam recursos financeiros e logísticos para as etapas de vacinação, que acontecerão ano que vem.

Especialista em biodefesa, Luciana é brasileira, mas dedicou a vida profissional ao trabalho nos EUA, com cargos durante as presidências de George W. Bush, Barack Obama, além de Trump. 

Como foi o convite para o time de transição de Biden? Já trabalhou com ele antes?

Eu trabalhava na FDA (agência reguladora de alimentos e medicamentos dos EUA) quando ele era vice-presidente. Na época, ele teve mais interesse na área de oncologia (o filho mais velho de Biden, Beau, morreu em decorrência de um câncer no cérebro, em 2015) e lançou o Câncer Moonshot (projeto para acelerar pesquisas sobre câncer e popularizar tratamentos).

A FDA esteve muito envolvida nisso, mas não era minha área. Eu trabalhava com infectologia e doenças emergentes, não trabalhei com ele antes. Recebi o convite para participar da transição e acredito que esse não é um trabalho político, é um dever cívico. 

Biden disse que a obstrução da transição por parte do governo Trump coloca em risco o cronograma de vacinação nos EUA. Atualmente, o diálogo entre as duas equipes é satisfatório?

Está melhorando, mas não é perfeito. É muito difícil ter uma transição perfeita quando o presidente continua nos tribunais e não aceita a derrota. Isso complica muito o trabalho de transição. Quando houve a transição de Obama para Trump, eu estava no governo. Eu participei do outro lado, na época, e nós estendemos o tapete vermelho ao time de Trump, porque era do interesse do país.

É parte do nosso DNA fazer a transição do governo, é o coração da democracia. Isso sempre acontece muito bem, mas dessa vez tem sido bastante frustrante, não só pelos dias que perdemos no início, mas também pelos obstáculos que ainda encontramos no caminho. Para compensar a perda de tempo, o time Biden-Harris é diferente dos outros, é muito experiente e muito organizado, o que ameniza bastante as dificuldades iniciais.

Qual será o maior desafio na distribuição e aplicação da vacina nos EUA, durante a transição de governo?

Em primeiro lugar, é preciso dizer que a vacina é uma vitória enorme para a ciência. É fantástico termos duas vacinas que demonstraram que são seguras e efetivas nos estudos clínicos. As duas vacinas iniciais são difíceis para qualquer um. Difíceis de fabricar em grandes quantidades e de distribuir. A da Pfizer tem mais de uma dose em cada frasco.

Quando cada frasco tem uma só dose, é muito mais fácil de administrar. Há dificuldades logísticas. Mas a grande diferença das duas administrações é que o governo Trump decidiu que iria deixar a responsabilidade da distribuição para os governos estaduais. 

Eles também se articularam com o setor privado. As redes de farmácia CVS e Walgreens farão parte da distribuição. As farmácias têm recursos para fazer isso. A cada ano, essas farmácias-clínicas, que têm até atendimento médico, vacinam mais e mais pessoas contra a gripe. Elas estão bem posicionadas, mas não é o suficiente para vacinar o país em uma crise desse tamanho. E os Estados não receberam recursos suficientes nem financeiros, nem logísticos para poder levar isso adiante. 

Vai ser uma batata quente que vamos herdar, porque as primeiras doses de dezembro e janeiro são em número limitado, estamos falando de no máximo 20 milhões de doses. Então, nessa fase, tudo bem, mas o que vai acontecer depois? O governo Biden assumiu o compromisso de que não é suficiente deixar essa responsabilidade para Estados e governadores, que temos o dever de governar, de fazer que a vacina atinja o público. Vai ser muito trabalhoso.

O governo federal vai assumir o plano de distribuição?

Vai oferecer mais recursos e mais apoio. Vai identificar as áreas mais vulneráveis e ser um parceiro dos Estados e não simplesmente dizer que é responsabilidade deles. Nós vimos a atitude do governo atual de passar a responsabilidade aos Estados desde o começo. Quando não havia EPI suficiente para os médicos, um Estado começou a competir com o outro para conseguir os recursos, que eram escassos. O governo federal abdicou da coordenação da resposta de uma crise que afeta o país. 

Qual o risco de ter uma distribuição de vacina pulverizada e desigual entre os Estados americanos? E entre os países?

 O governo Biden-Harris têm foco muito grande nos valores de igualdade e justiça. Eles não vão parar depois de enviar o lote para cada Estado baseado no tamanho da população. Não irão simplesmente lavar as mãos. Eles desejam ter certeza de que a vacina está atingindo a população que foi afetada desproporcionalmente pela pandemia. 

Claro que será ótimo se uma pessoa com recursos puder marcar hora por um aplicativo de telefone para se vacinar em uma farmácia durante o horário de trabalho e depois receber um lembrete no celular para tomar a segunda dose. É maravilhoso, mas não vai atingir certos segmentos da população que não podem tirar tempo de trabalho e até mesmo não têm informação suficiente para navegar por esse processo.

Se não garantirmos que a vacina está atingindo essa população, não teremos cumprido o compromisso que o novo governo fez. Claro que cada vacina recebida é uma vitória, mas isso não é suficiente.

Na nossa última entrevista, a senhora afirmou que os EUA tiraram o foco da preparação contra epidemias nos últimos três anos e a falta de planejamento atrapalhou na resposta à covid. Como está o planejamento para obter as vacinas agora?

A vitória atual foi uma grande parceria entre setor público e privado. Falamos que as vacinas foram desenvolvidas em meses, mas na verdade vacinas estão sendo desenvolvidas há anos com recurso de pesquisa para área biomédica.

É importantíssimo continuar com esse tipo de investimento em biomedicina. Sobre a distribuição, eles (atual governo) merecem méritos por envolver o setor privado, com a CVS e Walgreens, mas deixaram muito a desejar nos recursos aos Estados e no setor público, que é tão importante e essencial quando falamos de atendimento a populações vulneráveis. 

A senhora tem acompanhado a discussão sobre a vacina contra covid no Brasil? Poderia avaliar como o País está posicionado?

Não tenho detalhes suficientes para poder opinar. O que posso dizer é que o Brasil tem sido um bom parceiro em termos de participação nos estudos clínicos das vacinas. Em termos de utilização de vacinas, é muito importante que sejam avaliadas de maneira correta, como estão fazendo nos EUA. O FDA é um grande exemplo de como deve ser a avaliação antes de disponibilizar para a população. 

O aval da FDA, feito de maneira independente, ajuda a chancelar a confiança da vacina nos EUA e em outros lugares do mundo?

Tenho muita confiança no FDA. Eu tiro o chapéu para o time de vacina do FDA e fico cada vez mais orgulhosa deles (se emociona). Penso na pressão que sofreram, mas eles insistiram em fazer o processo de maneira correta, o que vai ser muito importante para ter a confiança do público de saber que os estágios foram feitos da maneira devida. 

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