Plano democratizante de Mianmar é fantasia, diz Pinheiro

O brasileiro Paulo SérgioPinheiro, investigador especial da Organização das NaçõesUnidas (ONU) e enviado a Mianmar, afirmou na sexta-feiraacreditar tanto em "gnomos, trolls e elfos" quanto naspromessas de reforma democratizante feitas pelos militares quecontrolam o país. Pinheiro, investigador especial da ONU para os direitoshumanos em Mianmar, disse em uma entrevista coletiva que asautoridades do país asiático tinham horas antes, naquele mesmodia, concedido um visto a ele a fim de que pudesse visitarMianmar após dois meses de atraso. Pinheiro descreveu esse fato como "auspicioso". "Se alguém acreditar em gnomos, trolls e elfos, entãoacreditará nesse processo democratizante de Mianmar", afirmou oenviado especial, que na quinta-feira apresentou um relatórioao Conselho de Direitos Humanos da ONU denunciando que arepressão contra os dissidentes intensificava-se no país. Apesar de o governo militar de Mianmar ter anunciado querealizaria um referendo, em maio, sobre uma Constituiçãoelaborada para colocar o país no caminho da democracia (comprevisão de eleições para 2010), essa declaração não combinavacom as amplas restrições à liberdade de expressão existentesali, acrescentou. Em resposta ao relatório, o embaixador de Mianmar junto aoConselho, Wunna Maung Lwin, afirmou que o documento "carecetotalmente de objetividade e de imparcialidade". Em seu relatório, Pinheiro disse ao órgão da ONU que ogoverno de Mianmar proibia a realização de encontros a céuaberto com mais de cinco pessoas, continuava a investir contraseus adversários políticos e mantinha em suas prisões 1.850presos políticos. "Para que uma democracia se sustente, é preciso que sejainclusiva e que represente as opiniões de todas as pessoas deMianmar", afirmou o enviado, que deixa o cargo no final desteano. "Nenhum referendo ou eleição poderá ser justo, nenhumatransição para a democracia poderá dar-se de forma eficientesem a libertação dos prisioneiros políticos, a permissão paratodos os partidos políticos funcionarem normalmente e aproteção às liberdades civis e políticas básicas, pontos essesausentes no caso de Mianmar", disse Pinheiro. Em dezembro, o Conselho afirmou ao país asiático que eledeveria processar os responsáveis pela violenta repressãocontra as manifestações lideradas por monges em setembropassado, cancelar a prisão domiciliar da líder oposicionistaAung San Suu Kyi, vencedora do Nobel da Paz, e libertar todosos presos políticos. Na sexta-feira, o enviado da ONU disse que a junta militarresponsável por controlar Mianmar -- segundo a qual, osdireitos humanos são observados e os detentos infringiram leis-- ignorou as resoluções do Conselho e da Assembléia Geral daONU. "O problema com esse país é que ele não faz concessões",disse.

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