REUTERS/Marco Bello
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Plano econômico não surte efeito e escassez se agrava na Venezuela

Duas semanas depois de Nicolás Maduro anunciar uma série de medidas para tentar controlar a hiperinflação e ajudar a ressuscitar a economia, país ainda enfrenta os mesmos problemas: preços elevados e falta de produtos básicos

O Estado de S.Paulo

02 Setembro 2018 | 22h07

CARACAS - Lojas e supermercados fechados, prateleiras vazias, produtos mais caros. Este é o balanço de duas semanas da entrada em vigor do pacote econômico de Nicolás Maduro para tentar frear uma hiperinflação na Venezuela que pode chegar a 1.000.000% neste ano, segundo o FMI. As medidas não remediaram a situação dos venezuelanos, que continuam sem acreditar no sucesso da reforma do presidente.

No domingo, dia 2, entrou em vigor o tabelamento de preço de 7 dos 25 produtos alimentícios estabelecidos pelo chavismo. Ovos, mortadela, manteiga, maionese, margarina, molho de tomate e sal passaram a ter o preço controlado – e desapareceram das prateleiras.

“Estamos desconfiados, incrédulos, porque tudo subiu de preço, não ganhamos o suficiente para comprar verduras e outros alimentos essenciais, e muitas coisas sequer conseguimos encontrar”, disse a empregada doméstica Leonilda Carmen Sanchez a agência de notícias France-Presse. 

Na capital, Caracas, e em cidades próximas, como Guarenas e Guatire, praticamente nenhum dos 25 produtos da cesta básica, cujos preços foram regulados na semana passada, eram encontrados nas prateleiras. Em vários supermercados de Caracas, os freezers que deveriam expor carne bovina continuavam vazios. Apenas alimentos processados, como hambúrgueres, estavam disponíveis.

Pacote do Maduro

Mais do que o aumento dos preços e o esvaziamento das prateleiras, muitos venezuelanos se queixam de que o comércio não reabriu as portas depois do caos inicial provocado pelo plano econômico de Maduro, que desvalorizou o bolívar em 95% e cortou cinco zeros da moeda ao criar o Bolívar Soberano.

As constantes queixas de consumidores sobre prateleiras vazias e preços exorbitantes após a mudança da moeda fizeram o governo chavista instaurar um plano de inspeções das empresas em várias cidades. A força-tarefa de fiscalização inclui funcionários da Superintendência Nacional de Defesa dos Direitos Sociais e Econômicos, e da Guarda Nacional Bolivariana. Os fiscais prenderam na semana passada ao menos 92 pessoas acusadas de manipular preços controlados de alimentos. 

“Faz mais de uma semana que aplicaram as novas medidas econômicas e existem muitas lojas fechadas em Los Teques, Carizal e San Antonio de los Altos e os poucos abertos quase não têm mercadorias, e quando têm cobram milhões de bolívares”, disse ao jornal El Universal Marcela Querales, moradora de Llano Alto, no estado de Barinas. “Eles têm que controlar e manter os preços, porque de outra forma apenas a inflação será alimentada e nós, que vivemos com um salário mínimo, não podemos acompanhar.”

Enquanto os consumidores reclamam da manipulação dos preços e do fechamento de lojas e mercados, os comerciantes dizem que não estão vendendo seus produtos porque muitos fornecedores ainda esperam a segunda quinzena de setembro, quando vão entrar em vigor novas medidas do pacote econômico, como o aumento do salário mínimo e o novo Imposto sobre Valor Agregado (IVA).

“Há muita incerteza, porque todos nós sabemos que uma coisa é a expectativa do governo com suas medidas, mas a realidade é completamente diferente”, disse ao jornal Ivan Casanova, dono de um supermercado. “Com tantas dúvidas ninguém quer deixar a mercadoria que não tem garantia de substituição. Toda vez que algo assim acontece, nos colocam como inimigos públicos, quando somos os que mais correm o risco de investir neste país”.

Neste domingo, 2, a rede de lanchonetes McDonald’s confirmou que fechou ao menos sete restaurantes na Venezuela. Segundo o Conselho Nacional de Comércio e Serviços da Venezuela, 60% das empresas fecharam no país nos últimos cinco anos.

A Venezuela enfrenta uma aguda crise social e econômica, com uma grave escassez de alimentos e medicamentos. Além da nova moeda e do aumento do salário mínimo, o plano de Nicolás Maduro, que entrou em vigor em 20 de agosto, prevê um aumento de impostos para os mais ricos e do valor da gasolina, hoje a mais barata do mundo. / COM AFP e EFE

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