Angelos Tzortzinis/The New York Times
Angelos Tzortzinis/The New York Times

Plano para crianças refugiadas frequentarem colégios incomoda gregos

Governo da Grécia estabeleceu que os 22 mil menores imigrantes poderiam frequentar a escola pública a partir de outubro, mas pais de alunos europeus se opõem à medida, alegando que os migrantes podem ter doenças contagiosas e diferenças culturais poderiam dificultar o aprendizado

Niki Kitsantonis, The New York Times, O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2016 | 12h40

ORAIOKASTRO, GRÉCIA - Mariya Bint Loqman Abdlkarim tem nove anos. Ela chegou à Grécia em fevereiro depois de fugir da Síria com sua família e fazer a travessia da Turquia em um barco frágil. Desde então, ela tem morado em um acampamento deteriorado controlado pelo governo, com o futuro incerto pela frente e com o presente reduzido às necessidades básicas.

Há pouco tempo, o governo grego decidiu lhe oferecer algo parecido com uma vida normal. Assim como outras 22 mil crianças refugiadas, ela poderia frequentar a escola pública a partir de outubro. Mas da mesma forma que outras iniciativas da Europa para lidar com o grande número de migrantes que chegaram às suas praias, o plano rapidamente sofreu oposição intensa, neste caso de pais em várias comunidades ao redor dos acampamentos no norte grego. Eles acreditam que as crianças refugiadas podem ter doenças contagiosas, e defendem que as diferenças culturais podem dificultar o aprendizado.

A associação que representa os pais de alunos da pequena cidade de Filippiada, no oeste da Grécia, enviou uma carta às autoridades locais e ao Ministério da Educação, dizendo "explícita e categoricamente” que eles não iriam “aceitar, sob qualquer circunstância e sem qualquer meio-termo que os filhos dos chamados imigrantes irregulares" frequentem as escolas locais, referindo-se aos migrantes que entraram ilegalmente no país.

"Eles vêm de outro continente com doenças e condições de saúde completamente diferentes", afirmava a carta, acrescentando que os refugiados têm uma "perspectiva diferente no que diz respeito ao papel da família, das mulheres, da religião". Sua presença iria "alterar o caráter grego das escolas", assegura o documento.

No começo de setembro, as associações de pais de duas escolas na cidade de Oraiokastro, ao norte da Grécia, ameaçaram ocupar a escola em protesto se os refugiados de um acampamento vizinho pudessem frequentar as aulas. Dias antes, o prefeito havia pedido que os moradores fizessem justiça com as próprias mãos diante de boatos de que refugiados estavam se mudando para casas da região. Os anúncios dos pais e um vídeo com a sugestão do prefeito para que os habitantes "interviessem" desencadeou clamor público e uma enxurrada de reações revoltadas nas redes sociais.

Tanto os grupos de pais quanto o prefeito reduziram o teor das críticas, dizendo que sua maior preocupação era a possível implicação sanitária se as crianças refugiadas não fossem vacinadas. O prefeito, Asterios Gavotsis, declarou que os comentários filmados são "mal interpretados" e que ele "não estava incitando ninguém a cometer atos ilegais".

Do lado de fora das escolas, Haralambos Magoulianos, aposentado de 57 anos que aguardava a saída as duas netas, afirma se opor à presença das crianças refugiadas. "Eu não gosto disso. O que acontece se tivermos uma epidemia? Eu não as quero aqui", diz ele, acrescentando que os jovens do acampamento de refugiados "roubam bicicletas e pulam nos quintais".

Outros pais na área têm sido mais receptivos. O diretor da escola em Filippiada e algumas pessoas afirmaram que a carta não reflete seu ponto de vista. Em Oraiokastro, Alexandra Hapsi, de 41 anos, tem duas filhas na escola. Ela disse ter preparado comida e doado roupas para os refugiados que moram no grande acampamento em Idomeni, que foi fechado neste ano. "Na Europa, ninguém está aceitando refugiados, e eles nos chamam de racistas", diz ela, acrescentando que gostaria de ter a certeza de que os refugiados que frequentarem as escolas locais estejam vacinados.

Asterios Batos, cujos filhos estudam na mesma escola das filhas de Hapsi, chefia o grupo que representa as associações de pais de todas os 41 colégios da área. "Essa imagem de município racista é injusta", afirma ele, referindo-se à região como um todo. "Não somos racistas. Estamos preocupados se todas as precauções foram tomadas."

O plano defende que as crianças migrantes frequentem a escola à tarde. Inicialmente elas ficariam separadas das crianças gregas, mas, um dia, seriam mescladas. Em comentário à televisão grega, o ministro da Educação, Nikos Filis, assegurou que o programa para a inclusão de refugiados nas escolas inclui vacinação. As aulas serão de grego, matemática e inglês, ou outro idioma, dependendo do destino para qual os refugiados pretendem seguir.

O governo ainda não definiu quais escolas participarão do programa, causando frustração em pais e autoridades locais. "Um bairro ou escola tem o direito de dizer que não quer estrangeiros? Não, não tem", garante Filis.

O prefeito de Oraiokastro, Gavotsis, conta que não se opunha aos refugiados estudarem, mas que as aulas deveriam acontecer durante um ano em outros locais, tais como fábricas abandonadas, antes de as crianças frequentarem as escolas locais. Para ele, a elevada proporção de refugiados na cidade, com uma população de 30 mil habitantes, era um teste à tolerância. "Nós temos 10% de todos os refugiados da Grécia aqui", assegura, referindo-se aos 6 mil migrantes dos 3 acampamentos vizinhos.

Existem mais de 60 mil refugiados em acampamentos pela Grécia. A tensão costuma explodir entre os frustrados migrantes, alguns dos quais esperam há meses pelo resultado de sua solicitação de asilo, enquanto muitos moradores estão aborrecidos, realizando protestos regulares. O tumulto foi explorado por membros de grupos de extrema direita que se infiltraram em alguns dos protestos. "Nós só queremos uma distribuição justa. Se isso nos torna racistas, o que posso dizer?", garante Gavotsis.

Katerina Karanikolaou, que compareceu à reunião em que o prefeito sugeriu que os moradores "interviessem" para deter o plano de educação, foi a única entre 72 pais a votar contra uma moção para ocupar uma das escolas em protesto. Para ela, as preocupações relativas à saúde eram apenas uma cortina de fumaça. "A xenofobia começou em Idomeni, em fevereiro, e, desde então, ganhou força", declara ela, acrescentando que os moradores temiam que "sua cidade fosse rebaixada". "É triste. Nossos antepassados eram refugiados", afirma ela.

A cerca de um quilômetro e meio dali, em uma grande fábrica abandonada de cigarros, Mariya, a menina síria de nove anos, mora com os pais e sete irmãos em uma barraca, uma das centenas para abrigar cerca de 1,3 mil refugiados. O acampamento é sujo – autoridades sanitárias pediram seu fechamento –, mas as organizações de auxílio humanitário têm uma clínica eficiente, vacinando crianças contra caxumba, sarampo, catapora, rubéola e hepatite.

A mãe de Mariya, Jihan Sheikh Mohammed, de 33 anos, disse preferir que a filha frequentasse a escola local em vez de ter aulas improvisadas dadas pelos trabalhadores humanitários. Já o pai, Loqman Abdlkarim, de 42 anos, defende ir embora, já que a próxima entrevista da família para o pedido de asilo só acontecerá em abril e ele tem parentes à espera na Alemanha.

"Vou esperar mais 20 dias. Se não acontecer nada, então vou voltar para a Turquia. Até a Síria é melhor do que isto aqui", afirma ele, acrescentando que o tráfico de drogas e a violência sexual eram comuns no acampamento.

Mariya quer ficar. Ela disse que um dia gostaria de ser advogada “para ajudar as pessoas”. Sem conhecer as objeções dos moradores da cidade vizinha, ela está entusiasmada com a ideia de ir para uma escola real, mas não sabe se vai se encaixar. Franzindo a testa de forma pensativa, ela apontou para o agasalho roxo sujo e seus pés descalços. "Vão me deixar ir assim?"

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