Msallam Abd Albaset/Reuters
Msallam Abd Albaset/Reuters

Plano patrocinado pela Rússia ajuda ditador a ganhar tempo

Simpatia de Obama pela proposta russa mostra que Casa Branca busca saída para um dilema que ela mesma se impôs

Lourival Sant' Anna, enviado especial a Beirute, O Estado de S. Paulo

09 Setembro 2013 | 22h55

O plano da Rússia de evitar um bombardeio americano contra a Síria em troca de o país submeter o seu arsenal químico a supervisão internacional caiu como uma luva para a tática do presidente Bashar Assad, de ganhar tempo. O mais interessante é que o fato de a proposta ter encontrado simpatia no governo americano mostrou ao regime sírio que os EUA podem estar buscando uma saída para o dilema que o seu governo impôs a si mesmo.

Reunido em Moscou com o seu colega russo, Sergei Lavrov, o ministro das Relações Exteriores da Síria, Walid Moualem, elogiou a proposta da Rússia – sem, no entanto, esclarecer se a aceitava ou não. "Declaro que a República Árabe Síria vê com bons olhos a iniciativa russa, motivada pela preocupação da liderança síria com as vidas de nossos cidadãos, com a segurança de nosso país e motivada também por nossa confiança na sabedoria da liderança russa, que está tentando prevenir uma agressão americana contra o nosso povo."

Lavrov tomou o cuidado de não colocar o ônus da aceitação do plano sobre a Síria. Ele disse que esperava que a iniciativa russa tivesse uma "resposta rápida e positiva" dos EUA. Se ela de fato puder evitar um ataque americano contra a Síria, seu governo partirá então para convencer Damasco a entregar o controle sobre seu arsenal químico. De acordo com Lavrov, o plano prevê o desmantelamento das armas químicas, depois de elas serem colocadas em certas áreas sob supervisão internacional.

Além de oferecer uma saída honrosa aos EUA, caso o presidente Barack Obama constate que não será capaz de demover as resistências de parte dos congressistas americanos – e da opinião pública –, o plano pode também permitir a Assad sair ileso de uma ameaça que pesava seriamente contra a sua capacidade militar e, consequentemente, de sobrevivência.

Mesmo um ataque limitado, disseram ao Estado especialistas libaneses, poderia enfraquecer militarmente o governo a ponto de desencadear o abandono de Assad pela elite alauita – caso ela fosse capaz de encontrar outro líder que a mantivesse unida e com o controle das Forças Armadas.

Um tal arranjo pós-Assad, em um regime mais inclusivo para a maioria sunita, poderia mostrar-se aceitável para os EUA e seu principal aliado na região, Israel, ambos alarmados com o crescimento dos grupos radicais islâmicos, que combatem lado a lado com o Exército Sírio Livre, de tendência secular.

Como não se sabe ao certo quantas e quais armas químicas a Síria tem, nem onde estão estocadas, o regime poderia, em tese, salvaguardar o poder dissuasivo que elas têm – o receio do inimigo interno de que elas voltem a ser usadas. Internamente, a saída proposta pela Rússia poderá ter o efeito de aumentar, em vez de diminuir, esse poder dissuasivo, porque o regime terá sobrevivido impune ao uso do arsenal.

Isolamento. Por último, a solução devolve a iniciativa diplomática à Rússia, que, juntamente com a China, tem sofrido isolamento por parte de americanos e europeus, em razão de suas constantes ameaças de veto a resoluções mais duras contra a Síria no Conselho de Segurança da ONU.

A Rússia ganharia prestígio e, ao mesmo tempo, se aproximaria do Ocidente, sem abrir mão de seus interesses estratégicos. Seria um golpe de mestre, se os EUA aceitarem – e a Síria seguir o script.

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