REUTERS/Mike Hutchings/File Photo
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Plano sul-africano de reforma agrária sem indenização eleva tensão racial

A minoria branca, que hoje controla 74% das propriedades rurais, embora seja 8% da população, está relutante em investir no setor agropecuário temendo a desapropriação; preocupa o aumento do número de fazendeiros mortos

Luiz Raatz, O Estado de S.Paulo

09 Março 2018 | 05h00

Pouco menos de um mês depois de ter substituído Jacob Zuma no comando da África do Sul, o presidente Cyril Ramaphosa tenta impulsionar uma reforma agrária com base na expropriação de terras sem indenização. A nova política agrícola vem elevando a tensão racial no país, segundo críticos do projeto.

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Ramaphosa vê a reforma como uma resposta à pressão de setores do CNA descontentes com o aumento da corrupção na era Zuma. Os insatisfeitos defendem o projeto como um meio de combater o desemprego entre jovens negros. 

O presidente garantiu ao setor agrário que as mudanças não afetarão a “segurança alimentar do país”, em uma referência às grandes empresas agropecuárias controladas por brancos. Além disso, os bantustões – terras onde negros foram confinados durante o apartheid e hoje são controladas por tribos – também serão redistribuídos, se forem improdutivos. Líderes tribais que administram essas propriedades eram parte da base de apoio de Zuma.

“Não temos como alvo toda terra produtiva, mas quem não usá-la, vai perdê-la, mesmo se for negro”, disse David Masondo, do Comitê de Transformação Econômica do CNA. “Isso inclui terras que não foram usadas e são alvo de especulação.”

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A AfriForum, ONG que representa sul-africanos brancos, alerta que a reforma cria um clima de incerteza para investimentos no país e prejudica o setor agropecuário, responsável por 3% do PIB. “Por que você vai investir se alguém pode tirar o que é seu?”, questionou Omri van Zyl, diretor executivo da entidade patronal AgriSa. 

HISTÓRICO.

 Uma lei de 1913 entregou quase a totalidade das terras férteis sul-africanas à minoria branca, que hoje controla 74% das propriedades rurais, embora seja 8% da população. Analistas veem a questão agrária como uma necessidade mais política do que econômica. 

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“Há uma relação entre a defesa da reforma agrária e o fardo residual do apartheid”, disse ao Estado John Campbell, pesquisador de estudos africanos do Council on Foreign Relations e embaixador na Nigéria no governo de George W. Bush. “O problema é que o país está se urbanizando rapidamente. Os negros urbanos não têm mais interesse na agricultura familiar.”

Desde o apartheid, a urbanização da África do Sul cresceu e muitos negros trocaram o campo pelas cidades. Entre 2006 e 2016, esse crescimento foi de 15 pontos porcentuais, segundo o Instituto Sul-Africano de Estatísticas. Hoje, 65% da população vive em cidades.

Por outro lado, a distribuição de renda agravou-se com o fim do apartheid e a abertura do país ao mercado internacional, com os brancos ficando ainda mais ricos e apenas uma pequena elite negra, ligada ao CNA, ganhando dinheiro. 

“Ramaphosa é mais amigável aos mercados do que Zuma e é visto como um líder que pode atrair mais investimentos, tanto que o rand (moeda sul-africana) tem subido em relação ao dólar”, acrescentou. “O país tem crescido 2% ao ano. Se com reformas favoráveis ao mercado ele conseguir elevar essa taxa a 5%, creio ser possível reduzir a desigualdade no país.”

VIOLÊNCIA

Outra questão que preocupa os brancos ligados à indústria agropecuária é o aumento do número de mortes de fazendeiros nos últimos anos. Um levantamento da polícia sul-africana indica que o período 2016-2017 foi o mais violento no campo em seis anos. Foram 76 brancos mortos em fazendas, geralmente vítimas de latrocínios, em comparação com 58 no período anterior – um aumento de 31%. No ano passado, houve 19 mil homicídios no país. 

O AfriForum afirma que, diante do número restrito de fazendeiros brancos na África do Sul, essas mortes fariam a média de homicídios para cada 100 mil habitantes ser superior à média nacional – 156 por 100 mil, entre os agricultores, e 34 por 100 mil, para a população geral. 

Campbell discorda. “A motivação racial na morte de fazendeiros brancos é, em grande parte, imaginária”, disse. “Há estudos que mostram que porcentualmente a violência atinge mais os negros.” / COM AP e W.POST

 

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