Nicholas Kamm/AFP
Nicholas Kamm/AFP

Planos para uma nova ordem mundial

Ministro das Relações Exteriores da Alemanha vê em Donald Trump uma chance de mudar a relação entre Europa e os EUA

Heiko Maas*, O Estado de S.Paulo

16 Setembro 2018 | 05h00

Recentemente, Henry Kissinger indagou se Donald Trump não se tornaria, acidentalmente, a força impelindo o nascimento de uma nova ordem ocidental. E sua resposta foi esta: seria irônico, mas não impossível. Em vez de estreitarmos nossa visão do outro lado do Atlântico com base nos caprichos inconstantes do presidente americano, deveríamos adotar a ideia de que este pode ser o início de alguma coisa nova. 

A visão limitada do Salão Oval nos desvia do fato de que os EUA são mais do que Trump. O equilíbrio de poderes funciona, como os tribunais e o Congresso demonstram quase diariamente. Os americanos estão debatendo política com nova paixão. Esta é a nação americana em 2018.

O fato de o Atlântico ter se alargado do ponto de vista político não se deve a Trump. EUA e Europa vinham se afastando havia anos. A sobreposição de valores e interesses que moldaram nossa relação por duas gerações está diminuindo. A força vinculante do conflito entre Leste e Oeste é história. Essas mudanças começaram bem antes da eleição de Trump e sobreviverão a sua presidência no futuro. É por isso que expresso meu ceticismo quando alguns defensores ardentes da aliança transatlântica nos aconselham a tolerar esta presidência.

Desde o fim da 2.ª Guerra, a parceria com os EUA trouxe para a Alemanha um período extraordinário de paz e segurança. Os EUA se tornaram um lugar que todos sonhavam. Foi o meu caso também, quando viajei de Nova York para Los Angeles ao me formar na escola secundária, trazendo comigo A Trilogia de Nova York, de Paul Auster, e ouvindo a música de Bruce Springsteen. Mas recordações não conduzem ao futuro. Está mais do que na hora de reavaliar nossa parceria - não abandoná-la, mas renová-la e preservá-la.

Europa Unida 

Pensemos na ideia de uma parceria equilibrada como protótipo, em que assumimos nossa parcela equivalente de responsabilidade, formamos um contrapeso quando os EUA passam do limite e colocamos nosso peso quando se retiram. Se levarmos sozinhos esta ideia em frente, fracassaremos. 

O objetivo relevante da política externa alemã é criar uma Europa forte e soberana. Somente se juntarmos forças com a França e outras nações europeias conseguiremos alcançar um equilíbrio com os EUA. A União Europeia tem de se tornar alicerce da ordem internacional, uma parceira de todos aqueles que estão comprometidos com essa ideia. 

A UE está predestinada a isso porque o compromisso e o equilíbrio estão no seu DNA. “Europa Unida” significa isso: agirmos com soberania em todos os pontos em que um Estado-nação não consegue, sozinho, o nível de poder de uma Europa unida. Não estamos fechando o círculo e mantendo o restante do mundo fora. E nem demandando fidelidade. 

A Europa esta baseada no Estado de direito, no respeito pelos mais fracos e nas nossas experiências que mostram que a cooperação internacional não é um jogo de soma zero, em que um dos lados ganha e o outro perde. Uma parceria equilibrada significa que os europeus assumem sua parte equivalente de responsabilidade. Em nenhum aspecto a união transatlântica é mais indispensável do que no campo da segurança. Seja como parceiros da Otan ou na luta contra o terrorismo, precisamos dos EUA. 

Temos de tirar conclusões disso. É de nosso interesse fortalecer a parte europeia da Otan. Não porque Trump está determinando novas metas porcentuais, mas porque não podemos mais depender de Washington na mesma medida. A dialética transatlântica significa que, se assumirmos mais responsabilidades, europeus e americanos continuarão a confiar um no outro no futuro.

O governo alemão tem seguido essa orientação. A mudança de rumo nos gastos com a defesa é uma realidade. Hoje, é importante criar uma união de defesa e segurança europeia, passo a passo, como parte de uma segurança transatlântica e como um projeto europeu separado para o futuro. Aumentar os gastos com a defesa e a segurança tem sentido a partir desta perspectiva.

Outro ponto crucial: o compromisso da Europa tem de ser parte de uma lógica baseada na diplomacia e na administração civil das crises. No Oriente Médio, no Chifre da África, nas áreas do Sahel, estamos usando meios não militares para combater o colapso das estruturas de governo. Para mim, esses são exemplos de cooperação transatlântica - e modelo para um envolvimento conjunto em outras crises em outras regiões. Se os EUA passarem do limite, nós, europeus, temos de criar um contrapeso - por mais difícil que seja. 

E isso começa conosco denunciando as “fake news”. Como esta: se o equilíbrio de conta corrente entre EUA e Europa abrange mais do que apenas o comércio de produtos, isso quer dizer que não são os EUA que têm um déficit, mas sim a Europa. E uma razão são os bilhões de lucro que as subsidiárias europeias de gigantes da internet como Apple, Facebook e Google transferem para os EUA anualmente. Assim, quando falamos em regras justas, também devemos falar de taxação justa de lucros como nesses casos. 

É importante também corrigir as fake news porque elas resultam rapidamente em políticas errôneas. Como europeus, deixamos claro para os americanos que consideramos a saída do acordo nuclear com o Irã um erro. Por outro lado, as primeiras sanções americanas entraram em vigor. Nesta situação, é de importância estratégica deixar claro para Washington que desejamos trabalhar juntos, mas que não permitiremos que passem por cima de nós e em nosso detrimento. 

Por isso, foi correto proteger as companhias europeias legalmente contra as sanções. Portanto, é fundamental fortalecer a autonomia europeia estabelecendo canais de pagamento independentes dos EUA, um fundo monetário europeu e um sistema “Swift” (de pagamentos) também independente. Cada dia de duração do acordo com o Irã é melhor do que uma crise explosiva que ameace o Oriente Médio.

Uma parceria equilibrada também significa que, como europeus, temos de arcar com mais peso quando os EUA se retiram. Estamos preocupados com o afastamento de Washington, por razões financeiras e outras, das Nações Unidas, e não apenas porque em breve faremos parte do Conselho de Segurança. Naturalmente, não conseguiremos preencher todas as lacunas. Mas juntos com outros poderemos abrandar as consequências mais danosas dessa noção de que o sucesso é medido em dólares poupados. 

Por isso, aumentamos o financiamento para organizações de ajuda que trabalham com refugiados palestinos e buscamos apoio dos países árabes. Estamos nos empenhando no sentido de criar uma aliança multilateral, uma rede de parceiros que, como nós, se atêm às regras e se comprometem a uma concorrência justa. Mantive minhas primeiras reuniões com Japão, Canadá e Coreia do Sul.

Outros mais virão.

Esta aliança não é rígida, não é um clube exclusivo dos que têm boas intenções. O que tenho em mente é uma associação de Estados convencidos dos benefícios do multilateralismo, que acreditam na cooperação internacional e no estado de direito. Não é dirigida contra ninguém, mas pretende apoiar e fortalecer uma ordem multilateral, global. A porta está aberta, especialmente para os EUA. O objetivo é atacarmos juntos problemas que ninguém consegue enfrentar sozinho - da questão da mudança climática ao comércio justo.

Não tenho ilusões de que essa aliança resolverá todos os problemas do mundo. Mas não basta nos queixarmos da destruição da ordem multilateral. Temos de lutar por ela, especialmente diante da atual situação transatlântica. Temos de iniciar um novo diálogo com as pessoas do outro lado do Atlântico. Não só em Nova York, Washington ou Los Angeles, mas também no centro americano, onde a costa está distante e a Europa mais ainda. 

Em outubro, inauguraremos um evento, “O Ano Alemão nos EUA”, pela primeira vez. Não para celebrar a amizade germano-americana a título de nostalgia, mas para permitir encontros que façam as pessoas sentirem que estamos fazendo as mesmas perguntas, que ainda estamos próximos.

Essas trocas criam novas perspectivas. Não me esqueço de um encontro que tive recentemente em uma das minhas viagens. Um jovem soldado americano, num dado momento, me sussurrou no ouvido: “Por favor, não abandone os EUA”. Essa observação, feita com afeto, tocou-me profundamente. Talvez tenhamos de nos acostumar com a ideia de que os americanos dirão esse tipo de coisa para nós, europeus.

De qualquer maneira, será uma bela ironia histórica se Henry Kissinger tiver razão e os tuítes da Casa Branca realmente levarem a uma parceria equilibrada, a uma Europa soberana e a uma aliança global em defesa do multilateralismo. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*É MINISTRO DAS RELAÇÕES EXTERIORES DA ALEMANHA

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