Plantar tomate, a ambição de Mujica

'Não serei um desses velhos que dão palestras'

Cláudia Trevisan, Correspondente - O Estado de S.Paulo

15 Maio 2014 | 02h05

WASHINGTON - José Mujica sonha em plantar tomates e acelga depois que deixar a presidência do Uruguai, em 1.º de março, e pretende dedicar parte do seu tempo a ensinar jovens a cultivar a terra e a vender o que colherem. "Não vou ser um velho como esses que saem por aí dando conferências e cobrando cachês", disse ontem em Washington, referindo-se a uma prática comum entre ex-presidentes.

Na sede do Banco Mundial, Mujica refutou comparações com Nelson Mandela, que passou 27 anos na prisão antes de assumir a presidência da África do Sul. Guerrilheiro nos anos 60, o uruguaio ficou detido por 14 anos, 2 dos quais em uma solitária. "Fiquei muito tempo na prisão não porque sou um herói, mas porque me pegaram", disse Mujica, ressaltando que Mandela está em "outra liga".

O uruguaio defendeu políticas redistributivas para redução da desigualdade de renda, mas ressaltou que o aumento do investimento doméstico e externo foi um dos fatores que ajudaram a melhorar a situação social de seu país. "Muitos me perguntam 'por que dar tantos benefícios fiscais aos que têm capital?'", disse. "O investimento é a semente do trabalho de amanhã", respondeu.

Outra razão foi o maior crescimento provocado pela demanda chinesa por commodities. "Antes diziam que tínhamos que nos industrializar, porque o que produzíamos não valia nada. Até que chegaram os chineses e começaram a comer." O presidente acrescentou que 75% do gasto público é destinado a programas sociais.

Mujica disse que não vê o Mercosul como limitador das opções comerciais do Uruguai. "Os países não se mudam. E antes de mais nada, somos latino-americanos. Ou avançamos juntos ou não avançamos."

Ele disse que o Mercosul é uma porta de entrada para o mercado brasileiro, o que é um fator de atração de investimentos para o seu país. "É mais fácil vender dentro do Brasil trabalhando no Uruguai do que trabalhando nos EUA. E isso é importante porque o Brasil será um país de caráter continental."

Segundo ele, isso não quer dizer que o Brasil não tenha problemas. "Os problemas são 'os mais grandes do mundo'", disse, em português, usando a expressão com a qual os latino-americanos de origem hispana creem que os brasileiros se referem a coisas de seu país. Os recursos para resolvê-los também são abundantes, afirmou.

Mujica encerra hoje sua visita de quatro dias a Washington com um discurso na Organização dos Estados Americanos (OEA).

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