Plebiscito da Escócia faz libra cair

Pesquisa indica que 51% da população escocesa prefere a independência em relação à Grã-Bretanha; impacto econômico ainda é imprevisível

ANDREI NETTO , CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2014 | 02h03

A libra esterlina foi negociada ontem em seu menor valor em relação ao dólar e ao euro em dez meses após a divulgação de uma pesquisa do instituto YouGov que mostra a tendência de vitória da campanha do "Sim" à independência da Escócia. A perspectiva de divisão da Grã-Bretanha fez a moeda perder 1,3% de seu valor, chegando a US$ 1,61 e € 1,24.

Nos mercados financeiros e nos meios políticos, o impacto de uma eventual secessão começou a ser sentido. A pesquisa que acendeu o sinal vermelho em Londres foi divulgada no fim de semana pelo jornal Sunday Times. De acordo com o instituto YouGov, pela primeira vez desde o início da campanha para o plebiscito, marcado para o dia 18, a campanha do "Sim" à independência, promovida pelo Partido Nacional Escocês (SNP), aparece à frente nas intenções de voto, com 51%.

A sondagem coloca os independentistas em empate técnico a campanha pelo "Não", defendida pelos três principais partidos políticos britânicos - Conservadores, Trabalhistas e Liberais -, que tem 49% das intenções de voto.

A virada nas pesquisas ocorreu no período de quatro semanas, quando a diferença em favor do "Não" - de 22 pontos porcentuais - sumiu. Em parte, o resultado é atribuído por cientistas políticos a um debate televisivo realizado entre o primeiro-ministro da Escócia, Alex Salmond, favorável à independência, que teria vencido o trabalhista Alistair Darling, que comanda a campanha pelo "Não".

Ainda segundo analistas britânicos, embora o plebiscito tenha um peso de 300 anos de história - em 1707, o Tratado de União deu origem ao Reino Unido da Grã-Bretanha, que agrupou Inglaterra e Escócia em um único país -, uma das razões do desempenho do "Sim" é a rejeição maciça dos escoceses, em sua maioria trabalhistas, à política de austeridade fiscal e ao governo do primeiro-ministro britânico, o conservador David Cameron.

Até pela rejeição que sofre, Cameron não visitará a Escócia até o plebiscito. Por outro lado, trabalhistas históricos, como o ex-premiê Gordon Brown, vêm intensificando a campanha pelo "Não". Ontem, Brown, que é escocês, prometeu que o Partido Trabalhista apresentará até janeiro um novo tratado constitucional para a Escócia, dando ao país mais autonomia. "Quero ver o projeto de lei dando efetividade a essas políticas o mais rapidamente possível, porque quero que a legislação seja aprovada o mais breve possível", disse Brown.

As propostas de mais autonomia para Edimburgo, porém, ainda não serviram para acalmar os meios políticos e, em especial, a Bolsa de Valores de Londres. Ontem, o mercado financeiro abriu nervoso, levando a libra esterlina, moeda mais valorizada que o euro e o dólar, a perder 1% de seu valor - atingindo uma desvalorização de 3,5% em um mês.

Parte da preocupação diz respeito à moeda da Escócia. Durante a campanha, o governo de Cameron advertiu que os escoceses não poderiam manter a libra como divisa. Em resposta, Salmond disse que poderia promover o uso informal da moeda - uma espécie de "dolarização", mas com a libra -, enquanto prepara a criação de uma nova divisa ou a adoção do euro. O líder escocês ameaçou ainda não honrar as dívidas do país. "Se não podemos usar a moeda, também não pagamos as dívidas", disse.

Para analistas, a independência significa uma série de consequências imprevisíveis para a economia da Grã-Bretanha. Em caso de separação, a união perderia 8% de sua população, ou 5,2 milhões de habitantes, 30% de seu território, incluindo reservas de petróleo e de gás, e quase 10% de seu PIB - US$ 235 bilhões, de um total de US$ 2,43 trilhões.

"Se a Escócia decidir pela independência e mantiver a libra, e se o Banco da Inglaterra recusar essa opção, a incerteza estará lançada nos mercados financeiros", disse ao Estado Cathérine Stéphan, economista do banco BNP Paribas. "Moeda, bancos, títulos de dívidas privadas, partilha da dívida pública, déficit público. Tudo seria incerto e ainda não temos números a respeito."

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