'Plebiscito na Escócia causa efeito dominó'

Especialista prevê que separatistas de outros países farão consultas semelhantes, mesmo se escoceses fracassarem

ANDREI NETTO, ENVIADO ESPECIAL / EDIMBURGO, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2014 | 02h04

Estudiosa dos movimentos independentistas na União Europeia, a professora escocesa de ciências políticas Eve Hepburn, da Universidade de Edimburgo, acredita que o plebiscito na Escócia já tem reflexo em outros países do bloco. Regiões como Catalunha, na Espanha, Flandres, na Bélgica, Tirol do Sul, Veneto e Sardenha, na Itália, se inspiram na efervescência política da Grã-Bretanha para articular maior autonomia.

Outras regiões, como País Basco e Galícia, na Espanha, e Córsega, na França, e até Quebec, no Canadá, também podem se sentir motivadas a buscar a independência.

Por que a Escócia está tão perto de declarar sua independência da Grã-Bretanha?

A campanha do "não" fracassou em dar argumentos convincentes para permanecer na Grã-Bretanha. Muitos analistas concluíram que ela ressaltou argumentos negativos, sobre o medo de vitória do "sim", e não vantagens de integrar uma união de países como a Grã-Bretanha. O campo do "sim"foi eficiente nos dois últimos anos, criando grupos de discussão por toda a Escócia.

Há nas ruas uma insatisfação quanto ao "capitalismo financeiro de Londres" e à desconexão entre Parlamento, partidos políticos e cidadão comum, não?

Essa insatisfação é muito clara. Aliás, não se trata apenas de uma preocupação dos eleitores do "sim", mas também de muitos que votarão pelo "não". Muitos escoceses consideram que há algo errado na forma como Westminster e o governo tomam suas decisões. A campanha do "sim" é eficiente em denunciar essa desconexão entre poder e população.

Em artigo recente, a sra. advertiu para o "efeito dominó" causado pelo plebiscito na Escócia na Europa. Que efeito é esse?

O plebiscito na Escócia causa um efeito dominó em movimentos independentistas na Europa e fora dela. O plebiscito prova que é possível organizar suas próprias consultas populares pela independência de forma democrática. Poderíamos citar os exemplos mais conhecidos, como o da Catalunha, na Espanha, ou o de Flandres, na Bélgica, mas também há um impacto sobre a Padânia, no norte da Itália, e até em Quebec. Ainda que os escoceses decidam-se pelo "não", o efeito prático já ocorreu. Será difícil para o governo da Espanha, por exemplo, explicar por que os catalães não podem realizar um referendo democrático como o da Escócia.

Mas esses movimentos

independentistas não têm todos o mesmo perfil do da Escócia, certo?

Os movimentos independentistas são claramente heterogêneos na Europa. Há movimentos mais social-democratas, como na Escócia, mais republicanos, como na Catalunha, outros mais de centro-direita, como em Flandres. Cada um tem origens ideológicas diferentes e se relaciona com temas sensíveis, como imigração, de forma diferente. O SNP, da Escócia, por exemplo, é muito aberto e pró-imigração, como também ocorre na Catalunha e na Sardenha. A Liga Norte, na Itália, e em Flandres, os movimentos são mais fechados.

Os movimentos independentistas têm a ver com a perda de poder dos Estados nacionais?

Parece claro que os governos nacionais não têm mais o mesmo poder que tinham nos séculos 19 e 20. Desde os anos 60, vemos a tendência de transferir certos poderes para autoridades regionais.

Mais conteúdo sobre:
Escócia

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.