Pobres dos ricos

Segundo pesquisa, maioria dos membros do Tea Party, grupo conservador dos EUA, são brancos endinheirados

Kate Zernike, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2010 | 00h00

The New York Times

É compreensível que as pessoas saiam às ruas para protestar contra os gastos do governo quando sentem mais agudamente os problemas econômicos. No entanto, os defensores do movimento Tea Party, que agora vão às ruas, não são os que mais sentem os problemas na pele.

A mais recente pesquisa de opinião do New York Times/CBS News mostra que essas pessoas têm um nível de escolaridade mais elevado e são mais ricas do que o público em geral. Provavelmente, estão empregadas e descrevem sua situação econômica como boa ou muito boa. Entretanto, mostram-se pessimistas em relação à economia e à nação em um grau desproporcional. Nada menos que 92% delas afirmam que os EUA estão no caminho errado.

O que provoca esse hiato entre sua situação particular e a sua percepção da situação do país? A história tem algumas lições sobre isso. A pesquisa realizada entre os partidários do Tea Party revela uma profunda convicção de que os EUA estão sendo governados por pessoas que não compartilham de seus valores, em benefício de gente com a qual não se identificam.

"Segundo a história que eles contam, a América autêntica, real, está sendo, de certo modo, poluída", disse Rick Perlstein, autor de livros sobre a época de Goldwater e Nixon. "Os regimes liberais sempre trazem à tona esses ressentimentos", afirma Perlstein. "Isto porque os conservadores equiparam o liberalismo com a expansão dos poderes do Estado, algo que sempre provocou profunda desconfiança entre os americanos."

Os partidários do Tea Party reciclam sua linguagem inspirando-se nos movimentos conservadores do início da década de 60, em resposta à presidência de John Kennedy, à resistência nos transportes coletivos, aos direitos dos gays, ao governo Jimmy Carter, em meados da década de 70, e à oposição ao plano de saúde de Bill Clinton, nos anos 90.

Eles se mostram quase unânimes no repúdio ao presidente Barack Obama, afirmando, em sua enorme maioria, que o presidente não compartilha dos valores pelos quais os americanos se pautam e não compreende as necessidades e os problemas de pessoas como eles. O que é mais significativo é que os membros do Tea Party acreditam que os problemas dos negros estão recebendo uma excessiva atenção. Para eles, as medidas do governo Obama favorecem os negros em relação aos brancos e os pobres em relação aos ricos.

Populismo. Além disso, 3 em cada 10 acham que o presidente não nasceu nos EUA. A raça do presidente é mais um elemento que contribui para atiçar a ira conservadora. Entretanto, não é tudo. Basta considerar os ecos do início dos anos 60, como Lisa McGirr os define em Suburban Warriors, seu livro de 2001 sobre a ascensão da nova direita americana.

"Os primeiros anos daquela década foram um período de liberalismo efervescente", ela escreve. "Um clima de mudança, impulsionado pela energia, pelo dinamismo e pela juventude do governo Kennedy." "Agora, os conservadores, abraçando a Constituição, declararam que um gigante adormecido acordou", diz Lisa.

Os livros de W. Cleon Skousen, um anticomunista esnobado por conservadores, como foi William F. Buckley por seu extremismo, agora são promovidos por Glenn Beck (queridinho do Tea Party, segundo a pesquisa). O National Center for Constitutional Studies, fundado por Skousen, anuncia que dará o dobro dos cursos ministrados no ano passado, muitos deles a organizações do Tea Party. Eles são, em geral, cidadãos brancos, do sexo masculino, acima dos 45 anos.

As conversas com os partidários do Tea Party, muitas vezes, adquirem tons nostálgicos. Nos comícios, os conservadores, frequentemente, concordam que foi o ex-presidente George W. Bush quem contribuiu para a criação do déficit americano. No entanto, segundo as pesquisas, 57% deles têm uma visão favorável de Bush. Os novos populistas parecem sentir saudades. / TRADUÇÃO: ANNA CAPOVILLA

REPÓRTER DO NEW YORK TIMES

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