Pobres querem outra chance para o governo

A grande maioria dos eleitores negros e pardos, 13,6% da população americana, votou no candidato democrata

LAS VEGAS, NEVADA, O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2012 | 03h05

Vistas da empobrecida periferia norte, as silhuetas dos hotéis e shopping centers de Las Vegas parecem uma distante miragem no deserto do Nevada. Os moradores - em geral negros ou latinos, mas também brancos pobres - esperam ônibus para seus trabalhos, quando os têm, ou transitam sob o sol escaldante, indo buscar comida com seus "food stamps", os cupons cujos beneficiários saltaram de 31,98 milhões para 46,68 milhões durante o governo de Barack Obama.

A moradora de rua Regena Searcy, uma ex-sargento negra de 51 anos, abordou o repórter do Estado numa rua de Las Vegas Norte, no final de uma manhã. Viciada em cocaína e álcool, ela contou que estava sóbria havia quatro semanas. Se conseguisse ficar sem consumir drogas por oito meses, ganharia uma moradia. Regena, que deixou o Exército em 1984, mora em alojamento e vive de food stamps e de ajuda da associação de veteranos.

Ela não responsabiliza Obama, mas o próprio vício, por sua situação e diz que votou nele há quatro anos e votará agora de novo. "Obama fez muita limpeza", disse Regena. "Mas não se pode esperar que uma pessoa faça tudo nos primeiros quatro anos, quando tem de limpar a sujeira deixada por outro. O Congresso tem de aprovar as ações dele. Por que não dar outra chance a Obama? Demos muitas chances a Bush, e veja o que ele fez. Veja em que pé estamos."

Vantagem. Antes de Obama, Regena não votava, porque sua religião, Testemunha de Jeová, recomenda não se envolver com política, explica ela. "Mas vi um homem negro, e ele era como a História." Regena enfatiza que Obama é "parte branco parte negro", e que "ter essa combinação lá em cima na presidência" representa " equilibrar as coisas". Enquanto "os outros eram gananciosos, queriam tudo para si", compara, "ele era diferente, veio do nada". Além disso, "falava perfeitamente, e o discurso dele era um ímã". Então ela disse a si mesma: "Por que não lhe dar uma chance?"

Enquanto procuram uma chance para si mesmos, muitos americanos pobres acreditam que é preciso dá-la a Obama. Quando são negros, no entanto, a identificação - ou o magnetismo, para usar a imagem de Regena - parece ainda mais irresistível. Dos 79 eleitores entrevistados pelo Estado, 17 são negros - o que não inclui alguns latinos de pele escura, mas que têm uma identificação cultural e política de hispânicos. Desses, 14 disseram que votariam em Obama. Dois se declararam indecisos - ambos por razões religiosas - embora tenham votado nele em 2008 (mais informações na página 9).

O terceiro é Jerome Paul Powell, de 57 anos, ex-segurança aposentado por invalidez depois de ser ferido, que não vota em ninguém: "Eles vêm, prometem mudança e nada muda. Você continua tendo de pagar seu aluguel." Powell perguntou: "O que mudou com Obama? Não acredito nos homens. Só em Deus. O que temos a fazer é rezar."

Os negros e pardos - caso de Obama, filho de mãe americana e pai queniano - representam 13,6% da população. A quase totalidade deles é apenas negra:12,6%. De acordo com as pesquisas, 95% dos eleitores negros votam em Obama. Os negros ouvidos pelo Estado assumiram que é importante para eles a cor da pele de Obama.

"O fato de ele ser afro-americano ajudou muito porque os afro-americanos enfrentaram uma dureza na América, como produto dos escravos, que não escolheram estar aqui, como no Brasil", disse Salomon Burton, de 43 anos, funcionário da área de serviços ao cliente de uma operadora de celular em Tampa, Flórida. "Não sou tendencioso, mas não tenho medo de lhe dizer que o fato de ele ser negro foi bom."

Influência racial. "Escolho o candidato que conhece minhas necessidades, sabe como é minha vida, que percebe que as pessoas estão lutando, e se esforça para ajudar a nação toda", explicou Joe Robinson, de 32 anos, formado em educação física, e que trabalha em um instituto para pessoas com problemas mentais. "Estou contente de ele ser afro-americano. Isso influi um pouco no meu voto, porque ele me entende e eu o entendo. Estamos no mesmo nível."

"Voto em Obama porque ele é negro", declarou sem rodeios Kevin Johnson, um jardineiro de 33 anos em Warren, a norte de Detroit, onde se concentram as fábricas de automóveis. Seus clientes são os operários da indústria, cujos empregos foram "salvos" por Obama . À pergunta sobre se a vida melhorou nesses quatro anos, ele respondeu: "Está bem melhor do que com George Bush. E ainda vai melhorar muito nos próximos quatro anos". / L.S.

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