Rodrigo Cavalheiro/Estadão
Rodrigo Cavalheiro/Estadão

Pobreza cresce pelo 3º ano na Argentina

Pesquisa indica aumento de 24,7%, em 2011, para 28,5%, em 2014; governo deixou de contar

Rodrigo Cavalheiro - Correspondente/Buenos Aires, O Estado de S. Paulo

12 de abril de 2015 | 03h00

Paula Cecilia López mora numa casa simples de um bairro pobre de Moreno, no fim da mancha urbana da Grande Buenos Aires. “Sou pobre”, diz. Ano passado, o governo parou de contá-la como tal, sob argumento de que a estatística “estigmatiza”. Levantamento recente da PUC argentina (UCA) mostra que Paula está certa e ganhou companhia pelo terceiro ano seguido - de 24,7%, em 2011, os pobres passaram a 28,5%.

Ela seria uma a mais no grupo não fosse o nascimento, há duas semanas, de duas meninas que fizeram com que ela ficasse - financeiramente - mais pobre. Bianca e Luciana são siamesas. Unidas pelo abdome, passaram dois dias em casa, mas voltaram a ser internadas. Bianca tinha uma hérnia no intestino, foi operada e passa bem. Se continuarem melhorando, quando tiverem de 8 a 12 meses Paula dirá sim à pergunta recorrente dos vizinhos: “Foram separadas?”.


Paula divulgou o caso quando percebeu não ter como bancar o gasto com comida e transporte nos dias de visita ao hospital Posadas, a duas horas de Moreno (dois ônibus e um trem). “Muita gente ajudou, alguns até com menos recursos que eu”, diz. Os López se distribuem num terreno de 30 por 10 metros, em três casebres separados por corredores estreitos. São 14, entre mãe, irmãs, irmão, sobrinhos e um cão. Paula dorme nos fundos, numa cama de casal com o marido e Sol, a filha mais velha, de 3 anos - que não quer mais ir ao jardim de infância desde que as irmãs voltaram para o hospital.

Quando está em casa, Paula cuida de Sol, ouve cumbia e vê novelas como Avenida Brasil. Não acompanha noticiário, não gosta de política. Ainda assim, alguns políticos locais atentos à projeção nacional do caso prometeram: terminarão o banheiro de seu puxadinho.

Paula não planejou a gravidez e pensou em abortar quando soube do quadro, aos 5 meses de gestação. “Se o hospital tivesse oferecido, teria feito para poupá-las.” Hoje, ela se apresenta como “a mãe das siamesas”. Criou um perfil no Facebook, atualizado com o celular, para receber doações.

A renda do marido é o equivalente a R$ 975 - o que deixa cada integrante da família com US$ 2 por dia. Depois de ser ameaçado de demissão pelas faltas, ele conseguiu a garantia de “só” ter os dias descontados. Como trabalha com carteira assinada, em um instituto de detenção, a família não tem acesso a programas sociais. “Não concordo que se pague para criança ir à escola. Também não vejo resultado no Argentina Trabaja (que põe desempregados para trabalhar de garis). Sempre estão sentados tomando chimarrão. É sustentar vagabundo”, diz diante de sua irmã, Viviana, desempregada que recebe 1.100 pesos (R$ 380) por duas filhas e pondera: “Nossa vida melhorou”.

O kirchnerismo reduziu a miséria na Argentina, principalmente no mandato de Néstor (2003-2007). A partir de 2011, a tendência se reverteu, segundo a UCA mais informações nesta página. No ano passado, quando o governo de Cristina Kirchner já não divulgava dados sobre o tema, o então chefe de gabinete, Jorge Capitanich, afirmou que a pobreza estava praticamente erradicada e teve de se desdizer.

No fim de março - a quatro meses da eleição primária e a oito da presidencial -, foi a vez de o ministro da Economia, Axel Kicillof, cotado para ser vice da chapa governista, enfrentar críticas ao afirmar que mensurar a pobreza era “estigmatizante e complexo”. “Se a pobreza foi controlada, não sei para quem. Para eles que têm dinheiro. Sigo pobre igual”, diz Paula.

Tudo o que sabemos sobre:
ArgentinapobrezaCristina Kirchner

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.