Pobreza dispara na Argentina

"Um país de classe média". Estas orgulhosas palavras, até poucos anos, eram utilizadas pelos argentinos para definir seu próprio país. Raro caso de ampla distribuição da riqueza em uma América Latina majoritariamente desigual, a Argentina ufanava-se de uma poderosa classe média que movimentava um intenso comércio interno, dando-se ao luxo de desprezar as exportações. No entanto, tudo isso faz parte de um passado que começou a desaparecer rapidamente ao longo do governo do ex-presidente Carlos Menem (1989-99), e que está se esvaindo desde o início do governo do presidente Fernando de la Rúa. Segundo o Instituto de Estatísticas e Censos (Indec) os 20% da população mais ricos ganham 14,6 vezes mais do que os 20% mais pobres. Desta forma, a sociedade argentina é menos equitativa que a mexicana, malaia e de grande parte dos países da Europa do Leste. Em 1974, quando o índice começou a ser medido, a diferença era de somente 7,8 vezes. O índice deste ano é o maior até agora registrado, e até ultrapassa os elevados índices dos breves períodos das hiperinflações de 1989 e 1991. O agravante da brecha atual, segundo analistas, é que ela não seria temporária como ocorreu nos períodos das duas hiperinflações, mas tende a se tornar permanente. O Indec sustenta que os 20% mais ricos da população ficam com 53,1% da receita total nacional, enquanto que os 20% mais pobres conseguem somente 4,1%. Enquanto a pobreza aumenta, o comércio estanca. Segundo a Câmara Argentina de Comércio (CAC), 61% dos comerciantes tiveram quedas em suas vendas de outubro, em comparação com o mesmo mês do ano passado. Além disso, por causa do estancamento da economia e a queda nas vendas, 23% decidiram despedir funcionários em outubro. Com este panorama, o pessimismo se alastra entre os comerciantes. Na capital do país, ruas até poucos anos atrás coalhadas de comércios tradicionais hoje parecem pertencer a uma cidade fantasma. É o caso das ruas Maipú, Esmeralda e Suipacha, na área mais centralc de Buenos Aires. Segundo a pesquisa da CAC, 88% dos comerciantes argentinos consideram que a curto prazo as vendas continuarão estancadas ou vão piorar. Somente 12% acreditam que a situação vai melhorar.

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