Rodrigo Cavalheiro/Estadão
Rodrigo Cavalheiro/Estadão

Pobreza que atinge 52% dos argentinos menores de 14 anos desafia candidatos

Situação dos jovens reflete dificuldade que Macri terá para derrotar o peronista Alberto Fernández; presidente é acusado por parte da população de não investir o suficiente e é criticado pelos economistas liberais por não ter cortado gastos

Rodrigo Cavalheiro / Enviado Especial, Buenos Aires, O Estado de S.Paulo

26 de outubro de 2019 | 07h00

Tamara González, de 23 anos, tentava ontem amamentar Aimara, de 2 meses, enquanto se desdobrava para evitar que a outra filha, Octavia, de 2 anos, caísse de uma cadeira no restaurante peruano Las Palmeras. Apesar da limpeza acanhada, esse estabelecimento “bom e barato” atrai jovens da classe média argentina a uma das ruas abertas recentemente pelo partido do presidente Mauricio Macri na favela Villa 31, em Buenos Aires, uma das obras mais ambiciosas do país.

A urbanização da Villa 31 mostra a difícil tarefa que terá Macri para se reeleger amanhã. Mesmo um investimento previsto de R$ 334 milhões no alargamento e calçamento de ruas, conjuntos habitacionais, em saneamento, parques infantis, escolas e campos de futebol, a tendência é que seu grupo político, o Cambiemos, perca na região.

O prefeito Rodríguez Larreta é favorito para se manter à frente da cidade, mas sem o apoio da população desta área, que é uma das principais bandeiras de sua administração. Nas primárias de agosto, que serviram como simulado da eleição de amanhã, Larreta perdeu por 47 pontos para o candidato peronista Matías Lammens, representante local da chapa nacional Alberto Fernández-Cristina Kirchner. Na mesma votação, Fernández obteve 17 pontos de vantagem sobre Macri, resultado que, repetido amanhã, lhe daria vitória no primeiro turno com folga.

A razão desta rejeição ao Cambiemos tem relação com a faminta Aimara e arteira Octavia. Integrantes da faixa da pobreza, ambas deixaram no último ano de ser exceção para ser a regra na Argentina. Entre os menores de 14 anos, 52% são considerados pobres no país, de acordo com o Instituto Nacional de Estatísticas (Indec).

Críticas ao projeto macrista

Tamara não tem atividade remunerada e seu marido, pedreiro, recebe cerca de 15 mil pesos (R$ 1.050) por mês. Ela ainda rejeita os refeitórios públicos. Por isso, foi ao Las Palmeras para comer o prato mais barato da casa, uma sopa de batatas – o ceviche, queridinho da classe média, custa 250 pesos (R$ 18). 

“No último ano, tenho cortado algumas coisas, evitado sair com minhas filhas à rua, para não passar em frente a lojas, pois a mais velha costuma pedir muita coisa”, explicou Tamara, após priorizar a segurança de Octavia e decidir dar uma mamadeira à filha mais nova. 

Esta moradora da Villa 31 reconhece melhorias na região, mas repete uma das críticas mais frequentes dos opositores a este projeto macrista: as obras ficam no anel mais externo da favela, mas basta andar algumas quadras para o interior e voltar às ruas de barro e esgoto a céu aberto.

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Acusado por uma parcela da população de não investir o suficiente, Macri é criticado pela ala mais liberal dos economistas de não ter feito cortes suficientes nos gastos públicos. O índice foi reduzido a 38,9% do PIB, em 2018, depois de ter atingido 45% do PIB, em 2015, último ano do governo de Cristina. O FMI exigiu que o país fizesse este ajuste para renegociar dívidas, um acordo que também não foi bem recebido pela população.

Primeiro não peronista a terminar mandato desde 1928

Acusado de ter sido precavido demais e adotado um gradualismo excessivo, Macri, que caminha para ser o primeiro presidente não peronista a terminar um mandato desde 1928, poderia ter enfrentado uma convulsão social. 

“Se tivesse feito mais cortes, correria um sério risco de não terminar o mandato. Mas houve um erro de diagnóstico. Macri achou que bastaria um gabinete de técnicos conceituados para atrair investimentos”, analisa o sociólogo Eduardo Donza, do Observatório da Dívida Social da Universidade Católica Argentina (UCA), que se tornou mais conhecido por medir a pobreza no país quando Indec, sob influência de Cristina, deixou de fazer a contagem sob o argumento de que ela estigmatizava os pobres.

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Entre as primeiras medidas de Macri, estiveram um forte corte no subsídios aos serviços públicos, que fizeram as contas de luz, água e gás terem aumentos de até 1.300%. Durante o kirchnerismo, essas contas costumavam custar menos que um lanche, mesmo para os mais ricos. 

O favorito à presidência, Alberto Fernández tem indicado que adotará medidas protecionistas e controle sobre o capital, embora tente tranquilizar os investidores. Tamara e outros moradores da Villa 31 relatam que alguns alimentos básicos somem eventualmente das gôndolas dos mercados em razão da pressão inflacionária e da ação de especuladores – apesar da a Argentina ser o 11.º exportador mundial de produtos agrícolas.

 

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