Pode me chamar de Vlad

O dia em que o presidente Vladimir Putin veio me visitar no escritório

Ross Douthat, O Estado de S.Paulo - The New York Times

17 de setembro de 2013 | 02h11

Quando cheguei ao meu escritório, ele estava sentado em minha cadeira, os pés sobre a mesa, sem camisa, uma AK-47 ao lado. "Presidente Putin, belo artigo que o senhor escreveu", disse eu, tentando deixar o ambiente mais descontraído. Ele levantou os olhos do meu computador.

- Sim, estava apenas checando, como vocês dizem, a lista dos artigos mais comentados pelos leitores do New York Times. Vejo que o meu continua em primeiro.

- Até que alguém escreva um sobre como entrar nas universidades mais tradicionais dos EUA - respondi.

Sua risada soou como gelo crepitando numa primavera siberiana.

- Pode me chamar de Vlad -, disse - Diga-me: é sempre assim fácil conseguir uma tal repercussão entre os americanos? Assisto aos seus canais de TV, acompanho as eleições no seu país. Achei que vocês estavam habituados a uma propaganda.

- Bem, quando somos nós que a fazemos. Mas é diferente uma preleção sobre paz e direitos humanos feita por um governante que não dá a mínima para isso - respondi.

- Sim, mas toda essa lamúria de seus políticos. Republicanos ficam ofendidos quando veem a rede de propaganda da Casa Branca, essa MSNBC?

- A Casa Branca não controla.

- E essa fúria com relação ao parágrafo onde questiono o excepcionalismo americano? Admito que a população americana é excepcional: excepcionalmente fácil de provocar.

- Bem, o senhor não pode nos criticar pela nossa irritação com a situação. O presidente Obama colocou-se numa armadilha ao ameaçar com uma guerra que o Congresso não apoiará. E o senhor chega triunfalmente com uma solução fictícia que ele tem de aceitar porque a alternativa é a impotência - argumentei.

- Mas a nossa solução não é boa?

- Ela levará Assad a se desfazer de suas armas químicas?

- Não sei. Mas o vai e vem diplomático faz com que ele não as utilize - e é isso que vocês desejam, não? - Putin respondeu.

- Bem, o objetivo derradeiro é destituí-lo do poder.

Putin esmurrou a mesa.

- É sempre assim. Vocês não conseguem se limitar a um objetivo racional. Vocês são irracionais. Derrubar o Taleban não foi suficiente: vocês tinham de repetir o nosso erro e ocupar o Afeganistão. Saddam Hussein destituído não foi o bastante: vocês queriam uma democracia. Matar terroristas não basta: vocês querem o amor do mundo muçulmano.

- Bem existe essa coisa de excepcionalismo.

- Sim, reconheço, os EUA são diferentes. Às vezes, no fundo do meu coração negro e escuro, sinto um relance de admiração por essa diferença.

- Bem, obrigado - respondi.

- Mas, na maior parte das vezes, isso me deixa louco. Trato com o governo americano há 13 anos e minhas necessidades sempre foram simples, diretas. Quero apenas o que os líderes russos sempre desejaram: uma esfera de influência, um parceiro para combater o terrorismo, estabilidade, ser respeitado pelo mundo exterior. Mas os seus presidentes, Bush e Obama, quem sabe o que querem?

- Bem, talvez ambos esperassem que o senhor fosse mais do que um bandido e se desapontaram.

Ele afagou sua AK-47.

- Talvez. Mas vocês têm sorte em ter-me como presidente. Depois da década de 90, poderiam se deparar com algum revanchista maluco tentando conquistar seus vizinhos em vez de apenas intimidá-los. Um outro palhaço como Yeltsin, que deixou tudo desmoronar. Eu, pelo contrário, propiciei crescimento, estabilidade, continuidade. Obama daria tudo pelos meus índices de aprovação.

-Touché! Mas, no longo prazo, o senhor é prisioneiro do seu sistema corrupto. Ou vai aguardar que ele desmorone ou será destituído e preso pelo seu sucessor.

- Não vamos mudar de assunto, colunista americano. Eis a mensagem que quero enviar a seus leitores: assim como eu me diverti em apoquentá-los, parte do meu artigo também foi sincero. Não sou inimigo dos EUA. Não desejo uma nova Guerra Fria. Não pretendo dominar o Oriente Médio. Tudo o que desejo é uma política externa americana que veja o mundo como ele é e um líder em Washington capaz de uma queda de braço no meu nível. É isso que vocês, americanos, devem desejar também. Talvez um dia possam pensar em me eleger seu presidente.

Ele se ergueu e olhou minha sala.

- Ah, e se precisasse de uma nova vida depois da minha carreira presidencial fora da Mãe Rússia, acho que o meu artigo me enquadra muito bem como um futuro colunista do New York Times, não acha? Ele sorriu, arreganhando os dentes, como um lobo. E seguiu para a saída.

*Ross Douthat é colunista.

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