Pode Obama fazer uma faxina na América Latina?

Desde que assumiu a Casa Branca, Barack Obama tem promovido uma faxina que se estende além do expediente, na tarefa de arrumar a bagunça de George W. Bush no Oriente Médio, Afeganistão e Rússia. Mas em nenhum outro lugar a arrumação está sendo feita com tanto empenho como na América Latina, outrora desdenhosamente considerada o quintal dos EUA. A esperança de Obama em conseguir uma limpeza diplomática na Cúpula das Américas é refém dos entulhos que Bush deixou na região.Cuba é um exemplo claro disto. A decisão tomada por Obama, esta semana, de levantar as restrições às viagens e às remessas foi saudada pela imprensa ocidental como uma drástica guinada nas relações bilaterais. Mas teve um sentido diferente para os líderes latino-americanos. "É um pequeno passo na direção certa", afirmou o chanceler brasileiro, Celso Amorim. "É importante que os EUA não esperem um gesto de Cuba para continuar. Se os EUA pretendessem de fato resolver a situação, teriam de acabar com o embargo comercial imposto à ilha há 47 anos", acrescentou.O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e outros líderes deverão pressionar Obama a dar outros passos em direção a Cuba, durante reunião em Trinidad e Tobago. Também se está cogitando em convidar Havana a fazer novamente parte da Organização dos Estados Americanos (OEA), da qual foi expulsa em 1962. Mas Cuba, que não foi chamada para a cúpula, tem sérias objeções. Em uma de suas contribuições periódicas a um jornal, Fidel Castro, que deixou a presidência, mas continua exercendo grande influência, chamou há alguns dias a OEA de instituição "vil". "O lixo de 60 anos de traição do povo da América Latina" foi jogado no "Ministério das Colônias dos EUA", declarou. Obama deve esperar também uma lição de história de Hugo Chávez, o presidente venezuelano que não tem papas na língua, com o qual as relações durante o governo Bush atingiram um ponto crítico. Chávez disse recentemente que estuda a possibilidade de enviar o embaixador venezuelano de volta a Washington num gesto de boa vontade. Mas isso foi antes de Obama insistir na ideia de Bush de que Chávez apoia narcoterroristas colombianos e impede o progresso regional. "Ele me acusa de exportar o terrorismo. O mínimo que eu posso dizer é que ele é um pobre ignorante ... mas que ignorância! O verdadeiro obstáculo ao desenvolvimento da América Latina sempre foi o império que hoje você preside."Prevê-se que as principais economias, como Brasil, Chile e Argentina, aproveitarão a cúpula para indagar a respeito dos planos de Obama diante da recessão global, atribuída por esses países em grande parte aos EUA. Luis Alberto Moreno, presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), disse que o crescimento anual de 5%, nos últimos cinco anos, contribuiu para tirar 40 milhões de pessoas da pobreza na América Latina. Mas a crise, com a redução das exportações para os EUA, inverteu a tendência. Uma queda de apenas 1% do Produto Interno Bruto (PIB) faria com que 15 milhões de pessoas voltassem a mergulhar na pobreza, afirmou. Jeffrey Davidow, o enviado de Obama à cúpula, disse que é opinião geral que os EUA negligenciaram suas relações com a região. Obama quer mudar essa situação ouvindo e discutindo problemas em uma parceria."Consideramos essa viagem como parte de um novo envolvimento com o hemisfério", disse Davidow. Fazer com que "os mais pobres e os que não têm voz não tenham de pagar um preço desproporcional pela crise" é um dos principais objetivos. Obama também discutirá questões como energia, mudança climática e segurança.Este último tema esteve no topo da agenda quando Obama chegou à Cidade do México, na quinta-feira, a caminho da cúpula. Ele prometeu mais recursos contra o narcotráfico de ambos os lados da fronteira - no ano passado, foram 6.300 mortos no México pela violência. Ele também está sendo pressionado para restringir o comércio de armas fabricadas nos EUA e para tratar de maneira mais justa os 12 milhões de imigrantes ilegais. Líderes mexicanos e de toda região já ouviram outras vezes de Washington promessas de um tratamento melhor. Agora, esperam medidas concretas.*Simon Tisdall é analista internacional britânico

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