REUTERS/Thomas Peter
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Poder, patriotismo e 1,4 bilhão de pessoas: como a China derrotou o vírus

Com medidas equivalentes de coerção e persuasão, China mobilizou seu vasto aparato do Partido Comunista para atingir profundamente o setor privado e a população em geral

Steven Lee Myers, Keith Bradsher, Sui-Lee Wee e Chris Buckley, The New York Times

08 de fevereiro de 2021 | 11h00

A ordem veio na noite de 12 de janeiro, dias depois de um novo surto do novo coronavírus ter ocorrido em Hebei, uma província na fronteira com Pequim. O plano do governo chinês era ousado e direto: ele precisava erguer cidades inteiras de moradias pré-fabricadas para colocar as pessoas em quarentena, um projeto que começaria na manhã seguinte.

Parte do trabalho ficou nas mãos de Wei Ye, dono de uma empresa de construção, que construiria e instalaria 1300 estruturas em terras ocupadas.

Tudo - o contrato, os planos, os pedidos de materiais - foi “resolvido em poucas horas”, Wei disse, acrescentando que ele e seus funcionários trabalharam exaustivamente para cumprir o prazo apertado.

“Há pressão, com certeza”, afirmou, mas ele estava “muito honrado” em fazer sua parte.

Desde que o novo coronavírus começou sua marcha pelo mundo, a China fez o que muitos outros países não fariam ou não poderiam fazer. Com medidas equivalentes de coerção e persuasão, mobilizou seu vasto aparato do Partido Comunista para atingir profundamente o setor privado e a população em geral, no que o líder do país, Xi Jinping, chamou de "guerra do povo" contra a pandemia - e venceu.

A China agora está colhendo benefícios duradouros que poucos esperavam quando o vírus surgiu pela primeira vez na cidade de Wuhan, no centro da China, e as lideranças pareciam tão abaladas como em qualquer momento desde a repressão na Praça Tiananmen em 1989.

O bom resultado tem posicionado bem a China, econômica e diplomaticamente, para se opor aos Estados Unidos e outros países preocupados com sua ascensão aparentemente impossível de conter. Também encorajou Xi, que ofereceu a experiência da China como um modelo para outros seguirem.

Enquanto as autoridades em Wuhan inicialmente hesitaram e encobriram informações por medo de represálias políticas, as autoridades agora entram em ação a qualquer sinal de novas infecções, embora às vezes com zelo excessivo. Em Hebei em janeiro, as autoridades implementaram sua estratégia bem aprimorada para testar milhões e isolar comunidades inteiras - tudo com o objetivo de fazer com que os casos, oficialmente apenas dezenas por dia em uma população de 1,4 bilhão, voltassem a zero.

O governo despejou dinheiro em projetos de infraestrutura, sua estratégia há anos, ao mesmo tempo em que concede empréstimos e benefícios fiscais para apoiar as empresas e evitar demissões relacionadas à pandemia. A China, que teve dificuldades no início do ano passado, é a única grande economia que voltou a um crescimento estável.

Quando se tratava de desenvolver vacinas, o governo ofereceu terrenos, empréstimos e subsídios para que novas fábricas as produzissem, junto com aprovações aceleradas. Duas vacinas chinesas estão em produção em massa, outras estão a caminho. Embora as vacinas tenham mostrado taxas de eficácia mais fracas do que as de rivais ocidentais, 24 países já registraram interesse por elas, uma vez que as empresas farmacêuticas prometeram, a pedido de Pequim, distribuí-las mais rapidamente.

Os êxitos de Pequim em cada dimensão da pandemia - médica, diplomática e econômica - tem reforçado sua convicção de que a capacidade autoritária de mobilizar rapidamente pessoas e recursos deu ao país uma vantagem decisiva que fez falta em outras grandes potências como os EUA. É uma abordagem que enfatiza uma busca incansável por resultados e conta com um povo submisso.

O Partido Comunista, sob esse ponto de vista, deve controlar não apenas o governo e as empresas estatais, mas também as empresas privadas e a vida pessoal, priorizando o bem coletivo sobre os interesses individuais.

“Eles foram capazes de reunir todos os recursos de um Estado de partido único”, disse Carl Minzner, professor de direito e política chinesa na Universidade Fordham. “Isso, é claro, inclui tanto as ferramentas coercitivas - severas restrições de mobilidade obrigatórias para milhões de pessoas -, mas também ferramentas burocráticas altamente eficazes que talvez sejam exclusivas da China.”

Ao fazer isso, as autoridades comunistas chinesas reprimiram o discurso, policiaram e livraram-se de opiniões divergentes e sufocaram qualquer noção de liberdade ou mobilidade individual - ações que são repugnantes e inaceitáveis em qualquer sociedade democrática.

Entre os líderes do Partido Comunista, um sentimento de justificativa é palpável. Nos últimos dias de 2020, os sete integrantes do Comitê Permanente do Politburo, o principal órgão político do país, se reuniram em Pequim para o equivalente a uma avaliação de desempenho anual, onde, em teoria, eles podem fazer críticas a si próprios e a seus colegas.

Longe de sequer sugerir quaisquer falhas - a crescente desconfiança global em relação à China, por exemplo - eles exaltaram a liderança do partido.

“O mundo atual está passando por uma grande transformação do tipo que não se via há um século”, disse Xi a autoridades em outra reunião em janeiro, “mas o tempo e a conjuntura estão do nosso lado”.

Um partido mobilizado

Nas últimas semanas, conforme novos casos surgiam, o Gabinete do governo, o Conselho de Estado, emitiu uma diretriz abrangente. “Não pode haver um pingo de negligência sobre o risco de ressurgimento [do vírus]”, disse.

As imposições refletem a natureza de controlar minunciosamente todo o sistema político da China, onde os principais líderes têm meios para atingir desde os corredores do poder central a todas as ruas e até mesmo edifícios residenciais.

O Conselho de Estado ordenou que as províncias e cidades criassem centros de comando funcionando 24 horas com funcionários no controle responsabilizados por seu desempenho. Ele pediu a abertura de centros de quarentena suficientes não apenas para abrigar pessoas em até 12 horas após um resultado positivo para covid-19, mas também para isolar estritamente centenas de contatos próximos para cada caso confirmado.

Cidades com até 5 milhões de habitantes devem criar a capacidade de administrar um teste nucleico (NAT) a cada residente em dois dias. Cidades com mais de 5 milhões podem levar de 3 a 5 dias.

A chave para essa mobilização está na capacidade do partido de explorar sua vasta rede de funcionários, que está presente em todos os departamentos e agências em todas as regiões.

O governo pode facilmente redistribuir “voluntários” para novos pontos críticos, incluindo mais de 4000 profissionais de saúde enviados para Hebei após o novo surto em janeiro. “Um integrante do Partido Comunista vai para a linha de frente do povo”, disse Bai Yan, um estudante universitário de 20 anos que tem ambições de entrar para o partido.

Zhou Xiaosen, um integrante do partido em um vilarejo fora de Shijiazhuang, uma cidade de 11 milhões de habitantes que estava entre aquelas sob lockdown, disse que os designados podem ajudar a patrulhar violações [ao bloqueio total], mas também dar assistência aos que necessitarem. “Se eles precisarem sair para comprar remédios ou vegetais, faremos isso por eles”, disse.

O governo apela aos interesses materiais, bem como a um sentimento de patriotismo, dever e abnegação.

O China Railway 14th Bureau Group, uma empreiteira estatal que está ajudando a construir o centro de quarentena perto de Shijiazhuang, fez um voto público de que seus trabalhadores não poupariam esforços. “Não negociaremos sobre o pagamento, não nos preocuparemos com as condições, não ficaremos aquém das expectativas, mesmo que seja [uma questão] de vida ou morte”, disse o grupo em uma carta, assinada com impressões digitais de funcionários.

A rede também opera em parte por meio do medo. Mais de 5000 funcionários locais do partido e do governo foram demitidos no ano passado por não conterem o novo coronavírus sob seu comando. Há pouco incentivo para moderação.

Moradores da cidade de Tonghua, no nordeste da China, reclamaram recentemente depois que as autoridades impuseram abruptamente um lockdown sem preparativos suficientes para o abastecimento de alimentos e outras necessidades. Quando um morador de um vilarejo perto de Shijiazhuang tentou escapar da quarentena para comprar um maço de cigarros, um zeloso chefe do partido ordenou que ele fosse amarrado a uma árvore.

“Muitas medidas pareciam exageradas, mas, para eles, era necessário exagerar”, disse Chen Min, um escritor e ex-editor de um jornal chinês que esteve em Wuhan durante todo o período de lockdown. “Se você não fizesse isso, não produziria resultados.”

A raiva tem diminuído em relação à inércia e trapaça do governo no início da crise, consequência de um sistema que reprime as más notícias e críticas. O sucesso da China abafou amplamente a dissidência daqueles que questionariam o controle central do partido. As autoridades também remodelaram a narrativa pública alertando e até prendendo ativistas que desafiaram sua versão triunfante dos acontecimentos.

As medidas em Hebei funcionaram rapidamente. No início de fevereiro, a província registrou seu primeiro dia em um mês sem uma nova infecção pelo novo coronavírus.

Uma economia recuperada

Em muitos países, houve debates intensos a respeito do equilíbrio entre proteger a saúde pública e manter a economia em funcionamento. Na China, há pouco debate. Ela fez as duas coisas.

Mesmo em Wuhan no ano passado, onde as autoridades fecharam praticamente tudo por 76 dias, elas permitiram que grandes indústrias continuassem funcionando, incluindo siderúrgicas e fábricas de semicondutores. Elas repetiram essa estratégia quando surtos menores ocorreram, indo a extremos para ajudar as empresas de modos grandes e pequenos.

A experiência da China ressaltou o conselho que muitos especialistas sugeriram, mas poucos países seguiram: quanto mais rápido você controlar a pandemia, mais rapidamente a economia poderá se recuperar.

Embora a dor econômica tenha sido severa no início da crise, a maioria das empresas fechou por apenas algumas semanas, se é que fechou. Poucos contratos foram cancelados. Poucos trabalhadores foram demitidos, em parte porque o governo desencorajou fortemente as empresas a fazê-lo e ofereceu empréstimos e isenção de impostos para ajudar.

“Coordenamos o progresso no controle da pandemia e no desenvolvimento econômico e social, dando urgência à recuperação da vida e da produção”, disse Xi no ano passado.

A Zhejiang Huayuan Automotive Parts Co. perdeu apenas 17 dias de produção. Com a ajuda das autoridades regionais, a empresa alugou ônibus para trazer de volta os trabalhadores, que haviam se dispersado para o feriado do Ano Novo Lunar e não podiam retornar facilmente, pois grande parte do país estava paralisada pelo lockdown no início da crise. Os passes do governo permitiam que os ônibus passassem por postos de controle que restringiam as viagens.

Os trabalhadores só podiam ir e vir entre a fábrica e os dormitórios, e tinham suas temperaturas verificadas com frequência. A BYD, um grande cliente, começou a fabricar máscaras e enviar suprimentos para Huayuan.

Em pouco tempo, a empresa teve mais pedidos do que podia atender.

Como a própria China, a cidade de Huayuan se recuperou rapidamente. Em abril, ela havia pedido quase US$ 10 milhões em novos equipamentos para iniciar uma segunda linha de produção altamente automatizada. Ela planeja adicionar 47 técnicos à sua força de trabalho de 340.

Antes da pandemia, as multinacionais ignoravam a China para suas operações, em parte estimuladas pela guerra comercial do governo Trump com Pequim. O próprio vírus aumentou os temores sobre a dependência das cadeias de abastecimento chinesas.

A pandemia, no entanto, apenas reforçou o domínio da China, enquanto o resto do mundo lutava para permanecer aberto para negócios.

No ano passado, a China ultrapassou inesperadamente os EUA como destino de investimento estrangeiro direto pela primeira vez, de acordo com a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento. No mundo todo, os investimentos despencaram 42%, enquanto na China, cresceram 4%.

“Apesar do custo humano e da interrupção, a pandemia em termos econômicos foi uma bênção disfarçada para a China”, disse Zhu Ning, vice-reitor do Shanghai Advanced Institute of Finance (Instituto Avançado de Finanças de Xangai).

Uma ferramenta diplomática

Em fevereiro de 2020, enquanto o novo coronavírus devastava Wuhan, um dos maiores fabricantes de vacinas do país, a Sinovac Biotech, não estava em condições para desenvolver uma nova vacina para detê-lo.

A empresa não tinha um laboratório de alta segurança para conduzir as pesquisas arriscadas necessárias. Ela não tinha uma fábrica que pudesse produzir as doses, nem recursos para construir uma.

Então, o CEO da empresa, Yin Weidong, pediu ajuda ao governo. Em 27 de fevereiro, ele se encontrou com Cai Qi, integrante do Politburo da China, e Chen Jining, prefeito de Pequim e cientista ambiental.

Depois disso, a Sinovac teve tudo o que precisava.

As autoridades deram aos pesquisadores acesso a um dos laboratórios mais seguros do país. Elas disponibilizaram US$ 780.000 e designaram cientistas do governo para ajudar.

Elas também abriram caminho para a construção de uma fábrica em um distrito de Pequim. A cidade doou o terreno. O Banco de Pequim, do qual o município é o principal acionista, ofereceu um empréstimo de US$ 9,2 milhões a juros baixos.

Quando a Sinovac precisou de tanques de fermentação que normalmente levam 18 meses para serem importados do exterior, o governo ordenou que outro fabricante trabalhasse 24 horas por dia para produzi-los.

Foi o tipo de abordagem governamental que Xi esboçou em uma reunião do Comitê Permanente do Politburo dois dias depois que Wuhan entrou em lockdown. Ele incentivou o país a “acelerar o desenvolvimento de medicamentos e vacinas”, e Pequim generosamente despejou recursos.

A CanSino Biologics, uma empresa privada, fez parceria com o Exército de Libertação Popular, trabalhando com pouco descanso para produzir as primeiras doses dos ensaios clínicos até março. A Sinopharm, uma empresa farmacêutica estatal, obteve financiamento do governo em três dias e meio para construir uma fábrica.

Yin, da Sinovac, chamou o projeto de "Operação Coronavírus", seguindo a retórica de guerra da luta do país contra o surto. “Foi apenas sob essas condições exaustivas que nossa fábrica pôde ser colocada em produção”, disse ele ao The Beijing News, um jornal controlado pelo Estado.

Menos de três meses após a reunião de Yin em 27 de fevereiro, a Sinovac criou uma vacina que poderia ser testada em humanos e construiu uma fábrica gigante. Ela está produzindo 400.000 vacinas por dia e espera produzir até 1 bilhão este ano.

O movimento intensivo para vacinar uma nação acabou abrindo uma oportunidade diferente.

Com o novo coronavírus amplamente eliminado em casa, a China poderia vender mais de suas vacinas no exterior. Elas “se tornarão um bem público global”, prometeu Xi à Assembleia Mundial da Saúde em maio de 2020.

Embora as autoridades mostrem indignação com a premissa, a "diplomacia da vacina" se tornou uma ferramenta para amenizar parte da raiva sobre os erros da China, ajudando a fortalecer sua posição global em um momento em que estava sob pressão dos EUA e de outros países.

“É aqui que a China pode chegar e parecer um verdadeiro salvador, como um amigo verdadeiro”, disse Ray Yip, ex-chefe da Fundação Bill e Melinda Gates na China.

A eficiência da China em casa não se traduziu em um triunfo fácil no exterior. As vacinas chinesas têm taxas de eficácia mais baixas. Autoridades do Brasil e da Turquia reclamaram de atrasos. Ainda assim, muitos países que registraram interesse por elas reconheceram que não podiam esperar meses por aquelas produzidas por americanos ou europeus. /TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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