Poderá Raúl Castro modernizar e estabilizar Cuba?

Presidente enfrenta resistência de Fidel a mudanças na ilha

Jackson Diehl The Washington Post, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2010 | 00h00

A atuação do cardeal Jaime Ortega como intermediário na questão dos direitos humanos em Cuba começou com as Damas de Branco. Em abril, o arcebispo de Havana ficou escandalizado quando, por dois domingos sucessivos, brutamontes armados do regime de Fidel e Raúl Castro cercaram a manifestação semanal das mulheres que protestam em nome dos seus parentes prisioneiros políticos. Ortega enviou uma carta a Raúl dizendo que "tolerar isso em silêncio seria um ato de covardia por parte da Igreja", ele me contou na semana passada.

Ao longo dos anos, Ortega e outros representantes da Igreja mandaram muitas cartas a Raúl e Fidel. A diferença em relação a esta última, diz o cardeal, é que ele recebeu uma resposta. No prazo de uma semana, Raúl informou que as Damas de Banco poderiam continuar com suas manifestações sem ser perturbadas. Um mês depois, Ortega foi a seu primeiro encontro com Raúl, que declarou seu objetivo de libertar todos os presos políticos de Cuba.

Desde então, o cardeal de 73 anos reuniu-se outras três vezes com o presidente para falar da libertação dos prisioneiros e da possibilidade de mudança em Cuba. Não de "reforma", note-se bem, e certamente não de "democracia" - Raúl Castro não gosta dos termos.

No entanto, Ortega saiu dos encontros convencido de que "isso é algo novo", como disse quando o entrevistei. Segundo ele, a libertação dos prisioneiros "abre possibilidades".

O que poderá acontecer? Esta se tornou uma importante indagação enquanto a "não-reforma" de Raúl começa a se delinear, e o Congresso estuda uma legislação que acabe com o que resta do embargo comercial dos EUA, eliminando todas as restrições às viagens a Cuba e liberalizando ainda mais as exportações de alimentos. Até o momento, foram libertados mais de 20 dissidentes e enviados ao exílio na Espanha, EUA e Chile. No dia 1.º, Raúl anunciou que o governo permitirá a criação de novas empresas privadas e atividades autônomas, em parte como forma de dar uma ocupação a 1 milhão de trabalhadores - 20% da força de trabalho do Estado - que o governo pretende demitir.

Acredita-se que a medida não passa de uma estratégia rotineira de Raúl para tirar o regime de um beco sem saída. A economia cubana está em condições piores do que de costume: a produção de alimentos caiu 7,5% no primeiro semestre. Da última vez que a ilha registrou uma crise econômica tão profunda, no início dos anos 90, Fidel também afrouxou os controles sobre a empresa privada.

Diferença entre irmãos. No entanto, dentro e fora de Cuba alguns afirmam que Raúl está fazendo algo diferente. Dizem que ele entende que o regime stalinista não pode sobreviver em sua forma atual, e quer modernizá-lo e estabilizá-lo antes que ele e o irmão morram. Mas enfrenta a forte resistência de Fidel - que, depois de quatro anos de ausência, começou a aparecer em público na época da libertação dos primeiros presos. Raúl, afirma-se, está determinado a pressionar sistematicamente para obter a aprovação de um programa de mudança que durará anos, e não meses.

O cardeal Ortega parece concordar com a visão mais otimista. Ele esteve em Washington, na semana passada, para receber uma homenagem dos Cavaleiros de Colombo, mas foi sua segunda visita em dois meses, durante a qual se reuniu com funcionários do governo de Barack Obama e com parlamentares. Ele sugere que uma grande parte da agenda de Raúl consiste em melhorar as relações com os EUA para que a economia de Cuba possa ser revitalizada. "Ele espera uma abertura do governo dos EUA", disse Ortega. "E reiterou em várias ocasiões que está disposto a conversar diretamente com o governo americano, sobre este assunto", acrescentou o cardeal.

Isto incluirá as reformas democráticas que o governo Obama exige como condição para melhorar as relações entre os dois países? "Tudo terá de seguir passo por passo", disse Ortega. "Não é realista começar pelo fim. O processo é assim."

Não duvido da sinceridade do cardeal. Por outro lado, acho difícil acreditar que Raúl seja o Mikhail Gorbachev de Cuba. Quando muito, ele se parece com Yuri Andropov, um dos predecessores idosos e enfermos de Gorbachev, que sabiam que o regime soviético era insustentável, mas não tinham a vontade ou o prestígio político para mudá-lo. Talvez Ortega tenha razão quando afirma que o diálogo com Raúl é uma coisa nova em Cuba. Mas o momento da verdadeira mudança - e de um compromisso mais profundo dos EUA - ainda não chegou. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É SUBEDITOR DE OPINIÃO DO "WASHINGTON POST"

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